Filme do Festival de Berlim analisa como militantes do Estado Islâmico recrutam noivas europeias

Por Michelle Martin
Valene Kane e Shazad Latif durante o Festival Internacional de Filmes de Berlim. 17/02/2018. REUTERS/Hannibal Hanschke

Por Michelle Martin

BERLIM (Reuters) - Um filme do Festival de Cinema de Berlim que analisa a forma como combatentes do Estado islâmico recrutam jovens mulheres europeias online destaca os perigos do uso da internet, afirmou a atriz que interpreta o papel principal.

No filme "Perfil", a jornalista britânica Amy Whittaker disfarça-se para investigar o funcionamento do grupo militante, criando um perfil falso no Facebook e fingindo ser uma muçulmana convertida chamada Melody Nelson.

Ela inventa uma história falsa, disfarça sua tatuagem, aprende um pouco de árabe e usa um hijab. Ela passa horas conversando online com um militante do Estado islâmico chamado Bilel, com quem ela prepara um curry via conferência de vídeo em uma das cenas, e gradualmente se sente atraída por ele.

"É perigoso para todos nós estar online, porque há muito acesso a tudo", disse Valene Kane, que interpreta Amy. "Você pode, basicamente, fazer qualquer coisa online e suponho que seja isso que o filme discute, esse novo mundo em que vivemos".

"Não é apenas a Síria - é em todo lugar. As pessoas estão sendo manipuladas para diversas situações pelo anonimato das redes e por um avatar ou o que quer que eles usem para se representar", disse Kane.

Bilel, que no filme é originalmente de Londres e descreve seu trabalho na Síria como "matar pessoas", promete à mulher que conhece como Melody que a tratará como uma rainha e que vai lhe dar um gato.

O personagem, interpretado por Shazad Latif, mostra a Melody uma casa de luxo onde ela viveria e faz uma chamada de vídeo com ela enquanto se diverte jogando futebol com outros recrutados internacionais.

Kane disse que as mulheres muitas vezes têm uma fantasia sobre como o romance deve ser e que Bilel desempenhava esse papel perfeitamente para sua personagem.

"Este homem aparece na sua tela e disse tudo o que ela imaginou querer quando era uma garotinha - vou te dar um palácio, quantos filhos você quiser, você nunca terá que trabalhar de novo", comentou a atriz.

A câmera mostra a tela de Whittaker ao longo de todo o filme, com os espectadores assistindo voyeuristicamente as conversas com Bilel e seus amigos, e enquanto ela  faz pesquisas na internet sobre tudo, desde o Estado islâmico até como congelar seus óvulos.

"[O filme] é sobre a solidão, sobre quem somos hoje, quanto da nossa vida está acontecendo nas telas e como somos vulneráveis quando estamos apegados à Internet e como é assustador", disse o diretor de origem russa-cazaque Timur Bekmambetov à Reuters.

"É uma realidade - é como vivemos hoje", afirmou. "Se eu estiver acordado por 15 horas, metade desse tempo é diante de uma tela - minha tela do iPhone ou no meu desktop ou laptop... os eventos mais importantes da minha vida hoje estão acontecendo em uma tela."

O filme baseia-se na verdadeira história do trabalho secreto da jornalista francesa Anna Erelle, que foi publicado em dezembro de 2014 e resultou em seis pessoas presas por envolvimento em redes de recrutamento jihadistas.