Filmes do Estúdio Hammer tiraram o terror da sombra

Gustavo Cunha
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Divulgação

Não é exagero afirmar que o extinto Estúdio Hammer provocou uma espécie de assombro permanente na história do cinema. Empresa criada por duas famílias inglesas na década de 1930 — e que, entre os anos 1950 e 1970, arrebanhou plateias mundo afora com filmes de terror —, a produtora é considerada hoje um marco importante para a consolidação de um gênero cinematográfico que ainda sofre preconceito por parte de alguns.

O conjunto com 30 obras selecionadas para a mostra “Estúdio Hammer — A fantástica fábrica de horror”, que tem sessões gratuitas de hoje a 1º de fevereiro no Centro Cultural Banco do Brasil, lança nova luz sobre esse capítulo da história do cinema movido a sustos, figuras diabólicas e suspense.

A ideia da retrospectiva, a maior dedicada ao assunto já realizada na América Latina, é justamente propor olhares mais apurados sobre narrativas protagonizadas por monstros clássicos como Frankenstein, Drácula, Lobisomem e Múmia.

— Apresentar esses filmes significa dar uma aula sobre o cinema pop que foi tão menosprezado, mas que fez a cabeça de gente como os diretores Tim Burton, Martin Scorsese, Tarantino e Guillermo Del Toro. — ressalta o curador Eduardo Reginato. — A Hammer tirou o terror da sombra.

Não à toa, o festival também promove uma masterclass virtual com o cineasta Rodrigo Aragão, além de cursos e debates em formato on-line — a programação digital é igualmente gratuita, com acesso limitado a 500 espectadores (os links serão disponibilizados por meio do Facebook).

Nesta tarde, às 15h, “O monstro do Himalaia” (1957), com o ator Peter Cushing, abre a agenda. Até o próximo mês, produções lançadas entre 1957 e 1976 são exibidas ao público, num painel que abrange o auge e o declínio de uma marca sustentada com orçamentos apertadíssimos.

— Apesar do baixo custo de seus filmes e do tempo reduzido para executá-los, a Hammer tinha uma facilidade em fazer cinema de qualidade excepcional, já que mantinha uma equipe de técnicos muito bem azeitada — conta Reginato. — Alguns filmes envelheceram no bom sentido, deixando de ter o impacto audiovisual para ganhar o efeito do saudosismo. Outros, porém, ainda prevalecem como exemplos máximos do cinema de terror.

Adrenalina e erotismo

O curador se refere a títulos como “Vampiro da noite” (1958), com o astro Christopher Lee, que encarna o Conde Drácula em outras seis produções; “Atração mortal” (1970), estrelado por Ingrid Pitt, sobre vampiras sensuais que aterrorizam um vilarejo; e “Frankenstein tem que ser destruído”, de Terence Fisher, cineasta que se tornou referência associada à produtora.

Apesar de apresentar a ficção em embalagem refinada, com figurinos e cenários elegantes em narrativas transcorridas, quase sempre, no século XIX — algo oposto ao aspecto cru dos filmes de terror atuais —, a Hammer se notabilizou, à época, pela alta voltagem de suas tramas.

De olho em espectadores jovens que passavam a consumir produtos televisivos, o estúdio apostou, na década de 1950, em obras que mexessem com a adrenalina do espectador nos cinemas — o ponto de virada foi “Terror que mata” (1955). E o horror agradou.

Em contraponto à Universal, companhia cinematográfica americana que já vinha adaptando para o audiovisual os mesmos contos com Drácula, Múmia e afins, a empresa inglesa investiu numa roupagem menos conservadora para tais personagens. Vale prestar atenção em longas irreverentes que refletiam determinadas pautas sociais do momento, como “Drácula no mundo da minissaia” (1972), que expõe o choque cultural entre o vampiro do século XIX e os hippies da Londres de 1970.

Aliás, o ator Christopher Lee, que utilizava lentes vermelhas e interpretava o vampiro às cegas, conseguiu imprimir uma conotação animalesca e sensual ao Drácula, algo até então inédito.

— Ele criou um vampiro com pegada. Não era um almofadinha ou um dândi inglês ali. O vampiro chegava nas mulheres, e elas se derretiam. Havia uma sugestão de que aconteceria algo a mais depois da mordida no escuro — conta o curador, lembrando que, ao longo da década de 1970, as produções fizeram sucesso no programa “Corujão”, da TV Globo. — Muitas crianças, inclusive eu, davam um perdido nos pais para ligar a televisão durante a madrugada. Eram histórias movidas a sangue, erotismo, aventura e adrenalina. O namorado levava a menina ao cinema sabendo que ela o abraçaria durante a sessão. Como diz o Scorsese, a gente assistia a Hammer com um sorriso no rosto.