Cinema iraniano ajuda a entender o 'inimigo' para além do estereótipo

Cena do filme "A Separação", de Asghar Farhadi: um clássico sobre o divórcio entre os adultos e a razão. Foto: Reprodução

Em seu pronunciamento em rede de TV após os ataques às bases americanas no Iraque promovida pelo Irã, Donald Trump fez questão de opor o país persa ao modo de vida que ele diz representar.

Segundo o presidente americano, o Irã é o maior patrocinador de terrorismo no mundo, e a busca por armas nucleares, contida num acordo que o próprio líder republicado boicotou, é uma ameaça ao mundo civilizado.

Esse “lado” é supostamente liderado por quem mantém laços estreitos com teocracias patrocinadoras de atrocidades mundo afora, como o sequestro e o esquartejamento de jornalista em embaixadas.

Na guerra ao terror, a indignação, diferentemente dos mísseis, é sempre seletiva. 

A dicotomia entre civilização e barbárie, como se esta fosse monopólio de países orientais, é o que permite, em nome dos valores democráticos, eliminar com um drone um inimigo declarado em uma guerra não declarada.

É como se, entre “nós” e eles, houvesse uma barreira invisível que invisibilizasse também quem mora do outro lado.

Como lembrou o ator, humorista e escritor Gregório Duvivier em sua coluna na Folha, na semana passada, a guerra às legendas é a mãe de todas as guerras. Ele se referia às barreiras culturais, citadas pelo cineasta sul-coreano Bong Joon-ho, ao receber o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro por “Parasita”.

Essas barreiras fazem com que boa parte dos espectadores vejam o mundo como um filme de ação americano, tomado por guerreiros e caubóis dispostos a salvar o mundo dos bárbaros, sejam esses bárbaros os índios, os latinos, os extraterrestres, os soviéticos, os iraquianos ou os iranianos.

Na coluna, Duvivier cita exemplos de filmes produzidos no país persa que ajudam a desmontar estereótipos e provocam identificação com dramas universais, como “Filhos do Paraíso” e “Tartarugas Podem Voar”. Pessoas como as retratadas naqueles filmes, lembrou ele, são os alvos preferenciais de uma guerra prestes a ser detonada, e não apenas “ditadores sanguinários, terroristas homofóbicos e terríveis homens-bomba”.

A queda de um avião que cruzou a guerra com civis iranianos e canadenses — e foi provavelmente abatido por engano — é prova disso.

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Pois vem do Irã um dos melhores filmes para compreender essa incapacidade humana de conseguir acordos quando a raiva e a revolta estão à mesa. Em “A Separação” (2011), Asghar Farhadi acompanha a história de um homem de classe média prestes a se separar e que, diferentemente da companheira, que pretende deixar o país com a filha, decide permanecer em Teerã para cuidar do pai, velho e doente. 

Para ajudar na missão, ele contrata uma cuidadora, que aceita o emprego apesar de seu marido a proibir de ficar a sós com outros homens em uma casa. Um dia, ele chega em casa e vê o pai sozinho e amarrado na cama; ao repreender a mulher, quando ela volta, ele acaba se exaltando e a empurrando para fora de casa. Só então descobre que ela estava grávida. 

A perda do bebê leva as duas famílias a uma batalha que chega aos tribunais inflacionada por mentiras e verdades convenientes.

Em meio à tensão, passamos o filme inteiro sabendo que tudo poderia ser resolvido com um gesto de generosidade que apenas as crianças da história parecem esperar enquanto os adultos, arrogantes e orgulhosos demais para reconhecer os erros, se digladiam por uma verdade que não poderá jamais ser alcançada.

O drama, universal, diz mais sobre os impasses dos acordos de paz do que podem supor os Trumps e aiatolás da vida real.

Mas meu filme iraniano favorito ainda é “Gosto de cereja”. Dirigido por Abbas Kiarostami, morto em 2016, o longa acompanha o drama de um homem que quer cometer suicídio e não tem coragem de tirar a própria vida. Para isso, ele passa o filme à procura de alguém disposto a matá-lo em troca de dinheiro.

Dele pouco sabemos, inclusive as motivações. A certa altura, ele sonda um possível executor que já pensou em fazer o mesmo com a própria vida tempos atrás. 

O diálogo entre eles, com uma lista das pequenas alegrias de estar vivo, faz do filme uma obra-prima. “Você tem certeza de que quer desistir do gosto da cereja?”, pergunta o interlocutor a certa altura, lembrando que estar vivo é, sobretudo, estar diante de uma experiência sensorial, seja ela doce ou amarga, e da qual até os anjos devem ter inveja.

É esse tipo de diálogo que pode salvar uma vida. Ou milhares, no caso dos senhores da guerra que já perderam a capacidade de olhar para além do muro da própria estupidez.