Fiocruz: Adultos com variante do coronavírus têm 10 vezes mais vírus no corpo

Colaboradores Yahoo Notícias
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Gravediggers are seen during a funeral of a COVID-19 victim at the Nossa Senhora Aparecida cemetery in Manaus, Amazonas state, Brazil, on January 22, 2021, amid the novel coronavirus pandemic. (Photo by MARCIO JAMES / AFP) (Photo by MARCIO JAMES/AFP via Getty Images)

Adultos infectados pela variante P.1 do coronavírus, identificada primeiro no Amazonas, têm dez vezes mais vírus do que adultos infectados por outras “versões”, segundo estudo assinado por cientistas da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

“[Se] a pessoa tem mais carga viral nas vias aéreas superiores, a tendência é que ela vai estar expelindo mais vírus – e, se ela está expelindo mais vírus, a chance de uma pessoa se infectar próxima a ela é maior”, explica Felipe Naveca, pesquisador da Fiocruz Amazonas e líder do estudo, em entrevista ao portal G1.

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Os pesquisadores analisaram 250 códigos genéticos do coronavírus durante quase um ano. A amostragem cobriu o primeiro pico da doença, em abril, e o segundo, no final do ano passado e início de 2021.

Eles perceberam que essa maior quantidade de vírus não acontecia, entretanto, nos homens idosos (acima de 59 anos). Uma possível explicação para isso é que a resposta imune de homens idosos tende a não ser tão eficiente de forma geral.

“Em homens mais velhos, a resposta imune já não consegue responder tão eficientemente, e aí não teve diferença sendo P.1 ou o outro [vírus]”, aponta Felipe Naveca.

Também é possível que isso tenha acontecido nesse grupo porque a quantidade de pessoas analisadas nessa faixa etária foi menor, explicou o pesquisador Tiago Gräf, também autor do estudo, em uma publicação na rede social Twitter.

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Felipe Naveca afirma, entretanto, que não há relação entre quantidade de vírus no corpo e gravidade da doença ou, até mesmo, presença deles.

“Carga viral não está relacionada com gravidade – a gente tem pacientes com alta carga viral e sintomas muito leves ou até sem sintomas”, diz o pesquisador.

Apesar de ter surgido no Amazonas, ao menos outros 18 estados já detectaram infecções pela variante: os mais recentes foram Mato Grosso e Maranhão.

Os pesquisadores também apontaram que o espalhamento da P.1 se deu por uma combinação de fatores relacionados ao próprio vírus e ao relaxamento do distanciamento social no Amazonas.

Os cientistas apontam que as chamadas intervenções não farmacêuticas – como uso de máscaras e distanciamento social – em abril do ano passado foram “suficientemente eficazes” em reduzir a velocidade de transmissão do vírus no estado, mas não em colocar a epidemia sob controle.

Isso permitiu ao vírus sofrer mutações e contribuiu para o surgimento, em novembro, da P.1 – que logo se tornou dominante.

“A falta de distanciamento social eficiente e outras medidas de mitigação provavelmente aceleraram a transmissão precoce da variante de preocupação [VOC, na sigla em inglês] P.1, enquanto a alta transmissibilidade desta variante alimentou ainda mais o rápido aumento de casos de SARS-CoV-2 e hospitalizações observados em Manaus após seu surgimento”, dizem os pesquisadores brasileiros.

Eles reforçam, ainda, que "a fraca adoção de intervenções não farmacêuticas, como ocorreu no Amazonas e em outros estados brasileiros, representa um risco significativo para o contínuo surgimento e disseminação de novas variantes".

Na quinta-feira (25), o Brasil bateu o recorde, desde o início da pandemia, do número de pessoas mortas em apenas um dia pela Covid-19: 1.582 vítimas.