Fiocruz: coleção de fungos da instituição completa 100 anos de história

Tudo começou em meados de 1992 quando o Diretor do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), na época, Carlos Chagas, enviou Olympio da Fonseca para estudar micologia (estudo dos fungos) nos EUA. Quando retornou, nos últimos dias daquele mesmo ano, Olympio trouxe em sua bagagem mais de 800 exemplares de organismos que dariam origem a atual Coleção de Culturas de Fungos Filamentosos (CCFF) do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) que completou 100 anos nos últimos dias de 2022.

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Na laranja estragada ou no jardim de casa. Na floresta ou em pratos de restaurantes. Agente etiológico de micoses em praias ou aliado na produção de medicamentos. Os fungos estão por toda parte e possuem grande diversidade. A CCFF manteve viva milhares de amostras conservadas dentro do campus Manguinhos-Maré da Fiocruz no Rio.

Em constante processo de manutenção e renovação, a Coleção preserva atualmente centenas de espécies de fungos filamentosos, com suas características biomorfológicas e genéticas originais, mantidas em técnicas de óleo mineral estéril, liofilização e criopreservação – a depender da necessidade de cada organismo.

Espécimes históricos

Entre os espécimes depositados na Coleção, está a histórica cepa original do fungo Penicillium notatum, cedida pelo Instituto Butantan, usada por Alexander Fleming na descoberta da penicilina (medicamento administrado contra infecções bacterianas). Também compõem o acervo os materiais utilizados pelo cientista norte-americano Charles Thom para escrever o clássico livro The Penicillium, publicado em 1930, no qual há várias referências à CCFF.

“Aqui temos um testemunho das fases científicas não apenas da instituição, como também do país. Conseguimos ver as mudanças nos temas de interesse que predominavam nas diferentes épocas através dos depósitos das amostras e, ainda, vemos a evolução tecnológica por meio dos métodos de conservação”, diz Áurea Maria Lage de Moraes, atual curadora da Coleção e chefe do Laboratório de Taxonomia, Bioquímica e Bioprospecção de Fungos do IOC/Fiocruz.

As cepas depositadas na CCFF são provenientes do solo, ar, material vegetal, animal e humano e possuem representação geográfica variada, com predomínio da América do Sul. De acordo com a curadora, a diversidade do material é um reflexo da expansão nos conceitos da micologia.

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“Além dessas cepas mais históricas, temos exemplares que são indicadores de biomas que não existem mais, muito importantes para o registro da biodiversidade. Esses fungos podem ajudar pesquisadores a entenderem melhor como eram determinadas regiões”, conta Simone Quinelato Bezerra, curadora adjunta da Coleção.

Outros serviços que fazem parte da rotina da CCFF são caracterização taxonômica, isolamento, identificação e autenticação de fungos, assessoramento técnico-científico, fornecimento de procedimentos, consultoria e formação de recursos humanos. “A Coleção não é apenas um local para depósito de espécimes. Aqui se trabalha com os diferentes potenciais do nosso material biológico nos campos da ciência, educação, gestão e, mais recentemente, em projetos ligados à biotecnologia. Aqui se produz ciência”, destaca Simone.

A Coleção também está envolvida em colaborações interinstitucionais. No viés de restauração e manutenção, a CCFF avalia a presença de fungos em objetos históricos (como quadros, esculturas e livros) e a possibilidade de contaminação pelo ar. “Temos parcerias com organizações, museus, bibliotecas e universidades. Um dos principais exemplos é o Arquivo Nacional, que frequentemente nos procura para manutenção da boa qualidade do ar, imprescindível no armazenamento de papéis”, lembra Aurea.

Reformas para o futuro

O atual espaço que abriga a Coleção se prepara para passar por uma grande reforma de adequação da infraestrutura. O plano, de acordo com as curadoras, é adequar o antigo espaço ao formato de Centro de Recursos Biológicos (CRB) — prestadores de serviço com acervos de material biológico cultivável e autenticado, com banco de dados contendo informações moleculares, fisiológicas e estruturais.

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“Estamos trabalhando há alguns anos neste planejamento estratégico. Já nos enxergamos como um CRB em preparação e estamos profissionalizando a equipe para a nova etapa. Vamos oferecer o máximo do potencial deste rico acervo”, conclui Aurea.