Fiocruz cria aplicativo para mapear zonas de risco para população LGBT no Brasil

DHIEGO MAIA
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ. 21/11/2016. Sede da Fundação Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro. (Foto: Lalo de Almeida/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) criou um aplicativo para mapear as áreas do país consideradas mais violentas para a população LGBT.

Quem vai apontar as zonas como seguras ou não serão os próprios usuários. A meta é reduzir os ataques registrados principalmente à noite em ruas e avenidas do país.

A ferramenta também contará com um botão do pânico. Quando acionado, ele enviará uma mensagem de socorro automática para cinco pessoas de confiança cadastradas pela vítima.

O grupo de apoio também receberá a localização da ocorrência, telefones da Polícia Militar, dos serviços de resgate da cidade e o endereço da delegacia mais próxima de onde o fato ocorreu.

Quem presenciar situações de violência contra travestis, trans, gays, lésbicas e bissexuais também poderá fazer um registro na plataforma, apontando o local e o grau de violência sofrido pela vítima.

Como o aplicativo será construído de forma colaborativa, áreas violentas apontadas como seguras serão atualizadas pelos próprios usuários. As informações também serão verificadas em dados públicos fornecidos pelos governos dos estados.

O aplicativo recebeu o nome Dandarah, uma referência à travesti Dandara Kethlen, 42, que foi brutalmente assassinada no Ceará em fevereiro de 2017.

Dandara foi espancada na rua e morta a tiros em um bairro da periferia de Fortaleza. O linchamento foi filmado pelos próprios agressores, e as imagens grotescas do crime viralizaram na internet e causaram repercussão internacional.

Os cinco envolvidos no assassinato foram condenados na Justiça um ano depois. As condenações variam entre 14 e 21 anos de reclusão.

A intenção da Fiocruz com a tecnologia é sistematizar as formas de violência mais recorrentes contra os LGBTs e atacar o principal problema: a subnotificação dos casos.

"Queremos criar um ecossistema digital para auxiliar o combate à violência contra essa população a partir de um banco de dados em que conste até mesmo o perfil do agressor", diz Angélica Baptista Silva, especialista em saúde digital e pesquisadora da Fiocruz.

Hoje, o monitoramento de assassinatos de LGBTs é feito por entidades da sociedade civil organizada, como o Grupo Gay da Bahia e a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Os levantamentos realizados pelas entidades baseiam-se em casos divulgados na imprensa. Segundo a Antra, 163 pessoas trans -a maioria, travestis (158)-, foram mortas de forma violenta em 2018, ante 179 casos noticiados no ano anterior.

Para a Antra, a queda aparente das ocorrências divulgadas pela mídia pode sugerir a diminuição no número de assassinatos. "Mas análise mais profunda traz um questionamento sobre o aumento da quantidade de casos não notificados pela mídia, em cerca de 30%, elevando assim o índice de subnotificação, sendo que em 2017 foram 34 casos não noticiados, contra 44 em 2018", de acordo com trecho de relatório da entidade.

"Com o apoio de quem viu, de quem conhecia a vítima, achamos que poderemos reduzir essa subnotificação a partir do momento em que o aplicativo passar a ser usado por mais gente de várias partes do país", avalia a pesquisadora da Fiocruz.

Antes de ficar pronto, o Dandarah passou por testes nas cidades de Aracaju (SE), Uberlândia (MG), Brasília (DF), Belém (PA), Niterói (RJ), Salvador (BA), Francisco Morato (SP) e Rio de Janeiro (RJ) e registrou um alcance de 130 pessoas LGBTs.

Entidades parceiras, como a própria Antra e a ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos), prestaram consultoria e forneceram conteúdos que serão divulgados pela ferramenta.

O Dandarah será oficialmente apresentado no dia 18 deste mês em evento no Centro de Estudos Miguel Murat de Vasconcellos, no Rio de Janeiro. Mas já está disponível, na versão Beta, na Play Store. Em breve também estará na App Store.

Ele foi criado por um grupo de sete pesquisadores do projeto Resistência Arco-Íris a partir de R$ 500 mil captados de uma emenda parlamentar do ex-deputado Jean Wyllys. O recurso também é investido em outras iniciativas.