Fiocruz defende inclusão de pessoas que cuidam de parentes idosos na fila da vacinação

Evelin Azevedo e Renato Grandelle
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Arquivo pessoal

RIO — Uma nota técnica divulgada esta quinta-feira pela Fiocruz propõe mudanças nos critérios de prioridade da vacina contra a Covid-19. Pesquisadores do Comitê de Saúde da Pessoa Idosa da fundação propõem, além de os idosos com limitação da capacidade funcional sejam considerados prioridade independentemente de sua faixa etária, que a imunização também contemple os seus cuidadores, sejam eles familiares ou profissionais.

De acordo com cientistas, cerca de 5,2 milhões de idosos necessitam de ajuda para atividades cotidianas — em pelo menos 80% dos casos (aproximadamente 4,2 milhões), o trabalho é exercido por familiares; nos outros casos, por pessoas remuneradas.

Trata-se de um trabalho cada vez mais urgente. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad) do IBGE apontaram que o número de familiares que se dedicavam aos cuidados de indivíduos de 60 anos ou mais saltou de 3,7 milhões em 2016 para 5,1 milhões em 2019.

Ainda assim, esta multidão de cuidadores informais é “invisível” aos olhos do poder público, segundo Dalia Romero, coordenadora do Grupo de Informação de Envelhecimento da Fiocruz e coautora da nota técnica, intitulada “Acesso prioritário à vacinação contra a Covid-19 para as pessoas com limitações funcionais e seus cuidadores”.

— Não é um trabalho valorizado, nem reconhecido pela população. Os cuidadores profissionais têm acesso à vacinação, mas não contam com uma estrutura formal que proteja sua atividade — critica. — A situação dos familiares é pior ainda, porque não têm direito sequer à imunização. Acredito que ao menos um deles, aquele que leva o idoso ao posto de saúde, deveria ser vacinado.

'Vamos falhar se o único critério for idade'

O resultado do levantamento Cuida-Covid, realizado entre agosto e novembro de 2020, expôs a fragilidade dos cuidadores de idosos. De acordo com os resultados preliminares, 91,4% daqueles que exercem a função são mulheres, quase 60% têm 50 anos ou mais e quase 40% sofrem de alguma enfermidade considerada de risco, se houver contágio por Covid-19, como hipertensão, diabetes, asma, doenças cardiovasculares ou câncer.

— Vamos falhar no combate à pandemia se o nosso único critério para a vacinação for a idade — avalia Romero, que também é pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz. — O envelhecimento é desigual. Uma pessoa de 75 anos pode ter melhores condições de saúde que uma de 60 anos. Isso está relacionado, por exemplo, à desvantagem socioeconômica, à falta de acesso a um sistema de saúde de qualidade. Por isso, é muito mais justo priorizarmos pessoas que sofrem limitações por capacidade funcional, seja por doença ou por não conseguir cumprir atividades como tomar banho, vestir-se, alimentar-se ou caminhar em um cômodo.

Cuidadores precisam se sentir seguros para cuidar dos idosos

A corretora de imóveis Leila Ramos, de 59 anos, deixou de trabalhar em 2016 para cuidar exclusivamente da mãe, de 88 anos. Ela foi diagnosticada com demência. Apesar de ter outros dois irmãos, ela que ficou responsável por cuidar da mãe sozinha. De acordo com Leila, não há necessidade de contratar um cuidador profissional porque sua mãe ainda tem muita autonomia. Ela dá o apoio necessário, cuidando da comida, dos horários do remédio e levando aos médicos. Para ela, os cuidadores deveriam, sim, ser vacinados juntos com os idosos.

— Não adianta a gente colocar aquele cinturão de proteção da pessoa (idosa) em casa se os cuidadores que estão em contato direto com eles não forem vacinados? Não sei quando serei vacinada porque não tenho nenhuma comorbidade. Mas sou eu quem vou à rua, e isso é um risco. Sei que é complicado dividir as vacinas que estão chegando, mas acredito que os cuidadores deveriam ser vacinados, sim — afirma.

Já Donália Cândida Nobre, de 53 anos, assistente social do Instituto Envelhecer da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, passou a cuidar sozinha da mãe de 86 anos durante a pandemia. Desde 2010, a idosa foi diagnosticada com Alzheimer, e há seis anos, com Parkinson. Antes de o coronavírus chegar ao Brasil, a idosa recebia a assistência de uma cuidadora, que deixou de exercer a função por causa do risco de contaminação, e agora fica com os afazeres domésticos. No início, Donália recebeu o auxílio da filha, de 20 anos, que deixou de a ajudar com frequência quando voltou a estudar na universidade, à distância.

— Os cuidadores são um grupo extremamente vulnerável e deveriam tomar a vacina. Há nove dias minha mãe caiu e quebrou o antebraço. Ficamos três dias no hospital para fazer a cirurgia. E é uma tensão e sensação de insegurança que você tem, porque todo o cuidado que tivemos este tempo inteiro dentro de casa pode não ter servido de nada por ela ter ficado dias no hospital aguardando a cirurgia. Meu medo é de ter pego o vírus nessa situação e passar para ela. Por isso, acho primordial os cuidadores tomarem a vacina também, pois nos sentiremos seguros para oferecer o apoio necessário.

Gilvania Aquino, de 62 anos, cuida da mãe há aproximadamente dez anos. No entanto, ela reveza os cuidados com os irmãos e também com cuidadores profissionais. Sua matriarca, de 87 anos, foi diagnosticada com demência e, por isso, necessita de auxílio para realizar suas necessidades básicas diárias como tomar banho, trocar de fralda, alimentar-se, tomar o remédio na hora certa, entre outras atividades. Gilvania, assim como os irmãos, tem hipertensão e diabetes, fatores que aumentam o risco do desenvolvimento da forma grave da Covid-19.

— Ao ser vacinada, eu ficaria muito mais tranquila para cuidar dela, uma vez que diminuiria o risco de ela contrair a doença através de meu contato, como também entre os outros familiares e cuidadores. Além disso, seria importante para evitar levar a contaminação ao meu marido que também é idoso.