Fiocruz minimiza suspensão da vacina da Oxford na Europa e diz que cautela faz parte do processo

RAQUEL LOPES E DANIELLE BRANT
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Um dia após vários países da da Europa suspenderem temporariamente a aplicação de vacinas da Oxford/AstraZeneca, a Fiocruz, que fabrica o imunizante no Brasil, afirmou que a medida foi tomada por cautela dos países, mas ressaltou que a decisão deve ser respeitada e observada. A avaliação foi feita por Nísia Trindade, presidente da Fiocruz, que participou nesta terça-feira (16) de reunião virtual da comissão externa da Câmara que acompanha as medidas de enfrentamento à Covid-19. Desde a semana passada, ao menos 19 países europeus, entre eles Alemanha, França, Itália, Espanha e Portugal, e a Indonésia anunciaram a interrupção da aplicação da vacina da AstraZeneca para se certificarem de que não há relação com efeitos colaterais mais graves. As suspensões começaram após casos de morte por trombose na Dinamarca e na Áustria, e se ampliaram apesar de recomendações contrárias tanto da OMS (Organização Mundial da Saúde) quanto da EMA (agência regulatória europeia). Nesta terça, a agência europeia defendeu manter a aplicação da vacina. Trindade ressaltou que a suspensão era temporária e que ocorreu enquanto “são avaliados os eventos adversos relacionados com cautela, como precaução, diante da vacinação.” “É importantíssimo dizer que faz parte da cautela essa avaliação de todas as vacinas. Nós na Fiocruz temos ampla experiência com esse tipo de farmacovigilância e frisamos que tanto a agencia europeia EMA quanto a Organização Mundial da Saúde não recomendaram a interrupção da vacinação”, afirmou. “Mas são cautelas dos países que, naturalmente, têm que ser não só respeitadas, mas observadas.” A presidente da Fiocruz ressaltou que, até agora, 17 milhões de pessoas foram vacinadas na União Europeia e no Reino Unido e que não há evidência de risco aumentado, “seja para trombose, seja para embolia pulmonar”. “Os eventos relatados são num número menor do que seria observado inclusive em relação à população ou grupos que normalmente têm esses eventos, independentemente da vacinação”, ressaltou. Na reunião, a presidente da Fiocruz ressaltou que há um estudo em parceria com a Universidade Oxford para verificar se a vacina também é eficaz contra a variante brasileira, identificada pela primeira vez na Amazônia. “Faz parte do nosso programa, inclusive do registro junto à Anvisa, um estudo das variantes. Estão sendo concluídos os estudos em parceria com a universidade Oxford com relação à variante P.1 [brasileira]”, disse. Trindade destacou que até o momento a vacina se demonstrou eficaz em relação à variante do Reino Unido nos estudos. “Mas o que é importante frisar: quanto mais vacinarmos, menos risco de desenvolvimento de novas variantes, mais proteção nós teremos inclusive em relação a esse aspecto que é comum aos vírus.” Segundo a Reuters, dados preliminares do estudo indicam que a vacina induz resposta adequada contra a variante de Manaus do coronavírus. O cronograma de entrega de vacinas apresentado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) ao Programa Nacional de Imunizações sofreu alteração no primeiro semestre. Ele prevê a entrega de 8,9 milhões de doses a menos no mês de abril. Trindade disse que vai entregar 3,8 milhões em março, 21,1 milhões em abril, 26,8 milhões em maio, 27,4 milhões em junho e 21,2 milhões em julho. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, havia dito na segunda-feira (15) que a previsão era de 3,8 milhões de doses em março; 30 milhões em abril; 25 milhões em maio; 25 milhões em junho; e 16,6 milhões em julho. A coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, Francieli Fontana, apresentou o cronograma de outras vacinas que serão entregues ao longo do ano. Ela disse que a previsão é vacinar todo o grupo prioritário até junho, mas isso pode não ocorrer se alguns imunizantes não forem aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). “Caso as vacinas da Precisa (Covaxin) e da União Química (Sputnik V) avancem na submissão de seus resultados para a Anvisa, tenha a aprovação e o registro saia para uso emergencial, talvez até junho a gente consiga trabalhar (grupo prioritário)”. Já a promessa de Pazuello era de que o grupo prioritário terminaria de ser vacinado em maio. Ele havia acrescentado no cronograma as vacinas da Pfizer e da Janssen, que tiveram o contrato concluído na segunda-feira (15). Nereu Henrique Mansano, representante do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), disse que o PNI está tendo que definir a prioridade dentro do grupo prioritário para fazer a distribuição do imunizante, tendo em vista o quantitativo de vacinas disponibilizado até o momento pelos laboratórios. Ele ressaltou que, com uma previsibilidade maior de entrega, haverá a possibilidade de os estados não guardarem mais a segunda dose da vacina Coranavac, fabricada pelo Instituto Butantan. O assunto poderá ser estudado junto ao Ministério da Saúde, acelerando o número de vacinados. “Foi necessário fazer a reserva, mas concordo que a partir de agora, havendo um pouco mais de conforto e de previsibilidade, a gente possa estudar não fazer mais essa reserva a partir de próxima etapa."