Fios de cabelo, manchas de sangue e embalagens: peritos da PF colhem material genético de invasores para usar como prova

Na noite do dia 8 de janeiro, logo após manifestantes golpistas serem retirados das sedes dos três Poderes, um grupo de 40 peritos da Polícia Federal entrou em cena para colher vestígios deixados pelo grupo que invadiu e depredou os prédios do Palácio do Planalto, Supremo Tribunal Federal (STF) e Congresso Nacional.

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Fios de cabelo, manchas de sangue, lenços, garrafinhas d'água, embalagens de alimento e fragmentos de roupas receberam atenção especial dos peritos. isso porque fluídos do corpo, como sangue e saliva, são os que mais contém material genético e o DNA poderá ser utilizado para apontar a identidade de quem esteve no local naquele dia.

De olho nisso, todos os 1.159 suspeitos de participação nos atos golpistas tiveram o material genético recolhido assim que foram encaminhados às penitenciárias da Papuda e da Colmeia, no Distrito Federal. Esses dados serão cruzados com o que foi levantado na Praça dos Três Poderes.

Há ainda o chamado "DNA de toque", recolhido de superfícies lisas e aderentes, como os vidros e pisos dos Palácios. A análise das digitais deixadas nesses locais poderá também ser usado para identificar quem passou por ali.

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A PF ainda dispõe do acesso ao maior banco de dados biométricos das Américas, o do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no qual pode conferir as digitais que aparecem em objetos como nas poltronas dos ministros no Supremo, no painel Di Cavalcanti ou no relógio do Dom João VI — todos danificados pela ação dos vândalos.

O objetivo desses exames é determinar os presos que efetivamente participaram da invasão e do quebra-quebra às sedes dos Três Poderes.

Vídeos

Além das provas materiais, a perícia da PF também tem analisado milhares de imagens gravadas por câmeras de segurança no dia. São vídeos dos corredores, gabinetes e auditórios dos prédios públicos, da Praça dos Três Poderes, da Esplanada dos Ministérios e dos hoteis e pousadas onde os golpistas estavam hospedados.

O ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, determinou expressamente que a PF obtivesse a "filmagem de saguão" das hospedarias para a "identificação de eventuais participantes dos atos terroristas".

Nesse flanco, os investigadores recorrem ao processo de reconhecimento facial, que consiste em cruzar a imagem dos golpistas com banco de dados de imagens à disposição da PF, que vão desde câmeras de trânsito, do sistema prisional dos estados às redes sociais.

Não à toa, por determinação de Moraes, mais de 1.000 celulares foram recolhidos pela Polícia Federal junto aos presos. Os peritos têm programas próprios que captam todo o material - apagado ou não - dos aparelhos eletrônicos e permitem achar uma informação específica por meio de algoritmos.

Os dados dos celulares apreendidos com os suspeitos devem abastecer a PF de informações para a identificação dos golpistas.

Os investigadores ainda conseguem aferir a localização de cada suspeito com dados fornecidos pelas operadoras de telefonia. Basta que o celular dos alvos esteja ligado na hora dos atos golpistas. E muitos deles recarregaram a bateria dos aparelhos nas tomadas dos Palácios, conforme imagens de câmeras de segurança.

A perícia da PF também utilizou drones e scanners 3D para reconstituir as cenas de depredação na Praça dos Três Poderes e sedes do Palácio do Planalto, STF e Congresso. Por meio de laser infravermelho, os aparelhos recriam os ambientes em realidade virtual, o que permite que os investigadores analisem toda a dinâmica do fato em 360 graus e façam a comparação dos ambientes antes da destruição.

Segundo o presidente da Associação dos Peritos Criminais da Polícia Federal, Willy Hauffe, os laudos provenientes desses trabalhos de análise devem demorar entre 30 a 60 dias para serem concluídos.

— Todos esses vestígios vão me indicar a autoria e a materialidade dos fatos — disse ele, que é especializado em explosivos.

Os trabalhos da perícia da Polícia Federal foram coordenados por Carlos Eduardo Palhares, que é chefe da área de perícias externas do Instituto Nacional de Criminalística (INC).