'Fiquei em choque, tremi minha perna na hora', disse mãe sobre queda de filha sonâmbula do 3º andar de hotel

Rodrigo de Souza
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RIO — Na madrugada do dia 5 de fevereiro, a cuiabense Angélica Oliveira foi acordada na suíte que ocupava no quarto andar do Olinda Rio Hotel, em Copacabana, com a notícia de que sua filha havia caído de um apartamento no terceiro andar. Naquela noite, a fisioterapeuta Talyssa Taques, de 27 anos, que trabalha na linha de frente do combate à Covid-19 em dois hospitais em Mato Grosso, resolveu aproveitar o primeiro fim de semana de descanso que tinha após quase um ano de trabalho intenso para encontrar uma amiga de profissão, que também estava na cidade. As duas retornaram para o hotel de Uber depois que os outros familiares da jovem já haviam se recolhido. Por volta das 4h30m, a fisioterapeuta se levantou para ir ao banheiro, caminhou até a janela do apartamento e, durante um episódio de sonambulismo, escorregou e caiu.

A narração de Angélica é permeada pelo sofrimento de uma mãe desesperada. Quando soube da queda, mesmo sem forças, Angélica correu ao auxílio da filha.

— Fiquei em choque. Tremi minha perna na hora. A sorte é que eu estava com meu marido no momento do acidente, ele me deu apoio — conta a corretora de imóveis.

Segundo Angélica, depois de cair, Talyssa chegou a ficar desacordada por um tempo. Quando despertou, viu que não conseguia se mover e gritou por socorro. Foi encontrada em frente ao porão do prédio por um segurança do hotel. Em seguida, foi socorrida e levada para a UTI do hospital particular Albert Sabin, onde está internada há 18 dias.

Talyssa foi diagnosticada com uma fratura de achatamento vertebral, com compressão da medula. Na semana passada, ela passou por uma cirurgia de toracotomia (abertura da cavidade torácica), em que foi realizada uma artrodese (junção de articulações) anterior e posterior. A operação foi um sucesso, e a paciente passa bem. Embora esteja consciente e acordada, Talyssa não pode falar com a imprensa, pois equipamentos eletrônicos, como celulares, não são permitidos na UTI. Além disso, só a mãe dela, que a acompanhou todo dia ao longo das quase três semanas de tratamento, pode entrar na unidade.

Apesar disso, com a ajuda da família, Talyssa conseguiu transmitir um recado pelas redes sociais. "Hoje sinto na pele o que é ser paciente e ter paciência de que tudo tem seu tempo. Hoje, mais do que nunca entendo a minha profissão e valorizo cada vez mais", postou a fisioterapeuta na terça-feira, dia 16, no Instagram.

Sonambulismo

No hospital, Talyssa também descobriu de um neurologista que sua queda tinha sido provocada por um episódio de sonambulismo. A fisioterapeuta não tinha crises como esta desde a infância, conta Angélica. O distúrbio voltou devido à privação de sono, efeito das longas jornadas de trabalho que a fisioterapeuta enfrenta nos hospitais onde trabalha, o pronto-socorro de Cuiabá e o Hospital São Mateus.

— Ela dá plantão de 12 por 24 horas em um hospital e, no outro, dá plantão noturno. Ela não dizia estar ansiosa ou nervosa, mas reclamava muito do cansaço. Os últimos episódios aconteceram na infância. Depois de adolescente, ela não teve mais sonambulismo — conta a mãe.

Pelas redes sociais, Talyssa também pediu ajuda para voltar a sua cidade natal, Cuiabá. Sua família não tem recursos para arcar com os honorários do Albert Sabin, que já ultrapassam a marca dos R$ 20 mil. O convênio de saúde da fisioterapeuta não cobre os procedimentos feitos em outro estado. Os médicos do hospital particular solicitaram a transferência da paciente à cooperativa, que deu 30 dias para a resposta.

Diante da incerteza, ela e sua família criaram uma vaquinha virtual para cobrir os custos de sua remoção em UTI aérea, estimados em R$ 89 mil. Até o início da tarde desta terça-feira (23), Angélica já conseguiu arrecadar R$ 25.790,00.

— Minha filha é uma pessoa muito dedicada, focada, trabalha demais e merece muito. Ela não parava de trabalhar desde março. Para mim está sendo muito difícil, correria para lá e para cá. Queremos muito voltar para Cuiabá. Com a família toda reunida em casa, ela vai ter o suporte de que precisa — diz Angélica.