Flagra na cueca e em caixas: casos de políticos pegos com dinheiro se arrastam na PGR

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(Foto: Getty Images)
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Duas investigações que flagraram aliados do governo do presidente Jair Bolsonaro manuseando dinheiro vivo continuam à espera de um desfecho da Procuradoria-Geral da República (PGR): tanto o senador Chico Rodrigues (DEM-RR) quanto o deputado Josimar Maranhãozinho (PL-MA) não foram denunciados, tampouco seus inquéritos foram arquivados. O primeiro caso se arrasta há quase dois anos, e o segundo, desde outubro do ano passado.

O então vice-líder do governo no Senado Chico Rodrigues foi alvo de uma operação da PF em outubro de 2020 que mirava em suspeitas de desvios de emendas do Ministério da Saúde. No dia 15 daquele mês, os agentes chegaram à casa do parlamentar nas primeiras horas da manhã e, diante da resistência de uma funcionária em recebê-los, só conseguiram entrar depois de desmontar o portão da residência. Durante a abordagem, os policiais perceberam um volume incomum na bermuda do senador e, depois de revistá-lo, encontraram R$ 15 mil entre suas nádegas. Ao ser questionado se ainda escondia outros valores, Rodrigues entregou aos agentes mais R$ 17 mil em espécie.

Sob pressão do escândalo, Rodrigues acabou se licenciando do mandato dias depois, mas retomou o posto, de forma discreta, em fevereiro do ano passado. Em agosto, a PF concluiu a investigação e indiciou o senador pelos crimes de peculato, advocacia administrativa, lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça, apontando que os recursos eram provenientes dos desvios de emendas. As evidências levantadas no inquérito, contudo, foram insuficientes para a Procuradoria-Geral da República (PGR), sob o comando de Augusto Aras, denunciar o parlamentar. A PGR pediu mais diligências para concluir o caso, entre elas, a obtenção de outros documentos e a tomada de novos depoimentos. Esse pedido foi autorizado em fevereiro passado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que enviou o processo novamente para a Polícia Federal, onde se encontra atualmente.

Passados quase dois anos, a defesa de Rodrigues pediu o arquivamento do caso sob argumento de que não foram encontradas provas contra o senador. “A verdade é que os documentos que sobrevieram após o relatório policial não indicam ilícito algum (...), muito menos o alegado ‘provável recebimento de propina’ do ‘esquema envolvendo verbas para o combate à Covid-19’”, argumentaram os advogados. A PGR discordou e pediu o prosseguimento da investigação.

Caixa recheada

Na investigação envolvendo o deputado Josimar Maranhãozinho, o enredo é semelhante. O parlamentar do PL, mesmo partido do presidente Bolsonaro, também foi flagrado com dinheiro vivo, num vídeo gravado pela PF, com autorização judicial, em que aparece mauseando caixas com recursos em espécie (assista ao vídeo aqui).

O deputado federal alocou R$ 15 milhões em emendas destinadas à área da saúde para diversas prefeituras do Maranhão, seu estado. Alguns dos municípios beneficiados contrataram, com dispensa de licitação, empresas que seriam ligadas ao próprio parlamentar. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão de combate à lavagem de dinheiro, identificaram “vultuosos saques” nas contas dessas firmas.

Segundo a PF, os valores eram devolvidos ao congressista para abastecer uma suposta organização criminosa da qual Maranhãozinho faria parte. Por isso, os investigadores obtiveram autorização para realizar uma ação controlada e gravar a movimentação no escritório do parlamentar no Maranhão. Um dos vídeos, por exemplo, mostra o deputado entregando uma caixa de dinheiro a um interlocutor. Na gravação feita pela PF, o próprio deputado afirma que na caixa continham R$ 250 mil.

Instalação de câmera na madrugada e falha em equipamento: os bastidores da ação da PF que flagrou deputado do PL com caixa de dinheiro

Em dezembro, a PF finalizou o inquérito e imputou a Maranhãozinho os crimes de peculato e lavagem de dinheiro no desvio de emendas. A investigação concluiu que o deputado desviou recursos de emendas destinados a prefeituras de seu estado, por meio de pagamentos a empresas ligadas a ele. De acordo com a polícia, os valores eram sacados e devolvidos ao parlamentar, que também os redistribuía a aliados.

Procurada, a defesa do deputado não quis se manifestar. Em outras ocasiões, Maranhãozinho negou irregularidades e disse que a imagem retratava a sua atividade empresarial na pecuária “com compra e venda de gado e equipamentos com órgãos privados”.

Sem definição

O caso, então, foi enviado para que a PGR analisasse se havia provas suficientes para apresentar uma denúncia contra o parlamentar ou se solicitaria o arquivamento. Oito meses depois, entretanto, a equipe de Augusto Aras ainda não definiu qual será o destino da investigação. Integrantes da Procuradoria-Geral da República dizem que o material ainda está sob análise. Procurado, o órgão não se manifestou.

Desde quando chegou ao comando da PGR, em setembro de 2019, Aras vem sendo criticado por colegas de carreira por sua atuação em casos envolvendo Bolsonaro e seus aliados. O procurador-geral passou a ser cotado por integrantes do governo e do Congresso como candidato a assumir uma cadeira de ministro do Supremo por indicação do atual presidente da República.

Aras jamais negou o desejo de se tornar um membro da Corte. Até agora, porém, Bolsonaro já nomeou dois integrantes para o STF: o ex-desembargador Kassio Nunes Marques, que tomou posse em novembro de 2020, e o ex-ministro da Justiça André Mendonça, em dezembro de 2021.

Relembre os casos

Dinheiro nas nádegas: Chico Rodrigues ficou conhecido como o senador que escondeu R$ 15 mil nas nádegas. Ele era vice-líder do governo no Senado quando foi alvo de uma operação da PF em outubro de 2020 que investigava desvio de emendas do Ministério da Saúde. Constrangido, licenciou-se do mandato, mas voltou ao cargo em fevereiro de 2021. A PF o indiciou pelos crimes de peculato, advocacia administrativa, lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça, mas a PGR não viu razão para denunciá-lo e pediu mais diligências.

Caso Josimar Maranhãozinho: O deputado é acusado de receber irregularmente, por meio de empresas ligadas a ele, verbas de emendas que o próprio destinava a prefeituras do Maranhão, seu estado, para a área de saúde. Segundo a PF, os valores abasteceriam uma organização criminosa. Em dezembro, a PF imputou a ele os crimes de peculato e lavagem de dinheiro, e o caso foi enviado à PGR, que deveria decidir por denúncia ou arquivamento. O caso ainda está sob análise.

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