Flamengo: torcedoras do time criam primeiro consulado do time só para mulheres

Leda Antunes
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Criado em abril deste ano, o 'Meninas SRN' é o primeiro consulado exclusivo para mulheres torcedoras do Flamengo

RIO - Lugar de mulher é no meio da torcida de um estádio de futebol? É sim. Mas mesmo o corretor automático do Google corrige a palavra “torcedoras”. ‘Você não quis dizer ‘torcedores?’, questiona o sistema. Não, Google, estamos querendo dizer torcedorAS. E estamos falando das mais fiéis, que fazem tudo pelo time do coração.

A estudante Gabrielle Santos, 18 anos, é uma delas. Ela pisou pela primeira vez no Maracanã aos 13 anos, depois de muito insistir para que o seu pai — um flamenguista fanático — a levasse para assistir um jogo do Flamengo. Na sua estreia torcendo no estádio, amargou um empate com o Duque de Caxias, em 2014.

— Foi péssimo, mas naquele momento eu soube que o Flamengo era a minha vida. Hoje sou mais doida pelo time que meu pai — conta.

Ela é uma das criadoras do primeiro consulado de torcedores do Flamengo exclusivo para mulheres, o Meninas SRN (Saudações Rubro Negras), de Saquarema, na região dos Lagos. O grupo foi criado em novembro do ano passado e se tornou um consulado oficial reconhecido pelo time em abril deste ano. Os consulados e embaixadas do time são grupos criados de forma espontânea pela torcida, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, que se encontram para assistir aos jogos e trabalha para atrair sócios-torcedores.

— Ainda há muito desrespeito. Os homens acham que sabem mais. Se a gente fala que é torcedora, já perguntam a escalação do time, como se a gente tivesse que provar que sabe. Também rola muito assédio. Uma vez, um cara chegou a roubar um beijo de uma amiga no estádio. Se a gente está na companhia das amigas, consegue se proteger mais, se sente mais segura e confortável — diz Gabrielle, explicando o que as motivou a criar o grupo.

A insegurança ainda faz com que Laryssa Guedes, 19 anos, frequente pouco os jogos no estádio. Ela também é uma das criadoras do consulado feminino e cuida das redes sociais do grupo. Nascida e criada em uma família de flamenguistas, sua paixão pelo time vem desde pequena. Foi o incômodo com a forma como as torcedoras e as jogadoras são tratadas no mundo do futebol que a motivou criar um grupo exclusivo para mulheres.

— Eu e outras sete meninas que faziam parte de um grupo do Flamengo compartilhávamos do mesmo sentimento de que as mulheres não ocupam nem metade do espaço que têm direito no esporte e não têm o respeito necessário. A gente decidiu criar o grupo de meninas para mudar essa situação. O projeto cresceu rápido, aí um amigo nos incentivou a formalizar o consulado — afirma.

Hoje, o consulado Meninas SRN já tem 225 integrantes. Elas mantêm contato por WhatsApp e, quando podem, algumas vão juntas ao Maracanã. Quando não conseguem ir ao estádio, assistem ao jogo juntas em algum bar ou na casa de uma das integrantes. Nesta terça-feira (17), dia da semifinal do Mundial de Clubes, elas não poderão se reunir em função do trabalho. Mas a expectativa é que o Flamengo chegue até a final e elas possam comemorar a vitória juntas no próximo sábado (21).

Ansiosas para o jogo de hoje e comemorando os títulos conquistados pelo Flamengo em 2019, Gabrielle e Laryssa acreditam que, para o futebol ser mais acolhedor para as mulheres, só é preciso respeito.

— Hoje, eu vejo muito mais mulheres nos estádios. Mas os homens ainda têm que aprender a respeitar os espaços das mulheres e as mulheres têm que se manifestar mais, têm que ir ao estádio mesmo, não podem se privar disso — afirma Gabrielle.

— A gente só quer respeito. E isso não é o mínimo, é o essencial. As mulheres podem sim torcer, comentar e fazer o que quiserem no meio do futebol, pois esporte não tem gênero, tem sentimento — diz Laryssa. Para ela, o respeito não pode ficar restrito à torcida, mas também deve se refletir no clube, com salários e visibilidade igual para os times femininos.

— As mulheres ainda são muito injustiçadas no futebol e não têm a mesma visibilidade ou o mesmo salário que os jogadores homens. Isso é visível em vários clubes onde o elenco masculino tem toda uma estrutura e o feminino, não. Um futebol acolhedor para as mulheres é um futebol com mais igualdade — reforça.