O que deveria preocupar Bolsonaro é a denúncia do MP-RJ, não a eleição nos EUA

Matheus Pichonelli
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Brazil's President Jair Bolsonaro presents a Brazil naitonal soccer team jersey to U.S. President Donald Trump after Trump gave him a U.S. soccer team jersey during a meeting in the Oval Office of the White House in Washington, U.S., March 19, 2019. REUTERS/Kevin Lamarque
Jair Bolsonaro e Donald Trump durante visita do brasileiro à Casa Branca em 2019. Foto: Kevin Lamarque/Reuters

Viralizou, nas últimas horas, um vídeo-paródia de Donald Trump pulando numa bola de plástico entre crianças em idade pré-escolar e se negando a devolver o brinquedo em janeiro de 2021. Pelo absurdo, era a imagem mais bem acabada do presidente norte-americano que vê seu adversário a um passo de vencer a disputa pela Casa Branca e se autoproclama vencedor prometendo contestar judicialmente a eleição em todos os estados.

Quem diria que a eleição na outrora “maior democracia do Brasil” ganharia ares da apuração em 2012 do desfile das escolas de samba em São Paulo, interrompida por um rapaz que rasgou as notas dos jurados do Grupo Especial?

Enquanto aguardam o resultado, sem esconder a torcida pelo ídolo, os aliados brasileiros lançam teses e teorias da conspiração nas redes, como a de youtubers com informação “em primeira mão” de que Trump possui provas e convicções de que a eleição foi fraudada. Outros já penduravam espantalhos sobre os riscos de a “esquerda” também ressurgir por aqui.

Jair Bolsonaro, o mais destacado fã do magnata, pode e deve se preocupar com o destino dos coirmãos, mas é melhor não se descuidar do próprio quintal.

Enquanto a apuração americana degringolava, seu filho Flávio Bolsonaro (Republicanos) era denunciado pelo Ministério Público do Rio por peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa no caso das rachadinhas.

Segundo o jornal O Globo, uma antiga assessora do então deputado estadual, hoje senador, confessou aos promotores que nunca atuou como funcionária de seu gabinete. Apenas recebia salários e devolvia 90% do valor. Entre 2011 e 2017, ela entregou a Fabricio Queiroz, também denunciado, cerca de R$ 160 mil.

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O jornal revelou ainda que Luiza Sousa Paes, a ex-assessora, se encontrou com Frederick Wassef, ex-advogado da família, em um hotel no Rio na mesma época em que foi chamada para prestar esclarecimentos sobre a movimentação, em dezembro de 2018. Wassef, que até outro dia abrigava Queiroz em sua casa em Atibaia (SP), teria orientado a ex-funcionária a não atender a convocação dos promotores.

O depoimento tem potencial para causar estragos nas hostes bolsonaristas.

Nos governos petistas quem complicou a vida de Antonio Palocci, ex-todo-poderoso ministro da Fazenda, foi o caseiro Francenildo. Fernando Collor viu o impeachment se aproximar após o motorista Eriberto França dizer que transportava dinheiro enviado por Paulo Cesar Farias para pagar contas pessoais do então presidente -- que, aliás, acaba de ser elogiado por Bolsonaro.

Nos próximos dias as atenções estarão voltadas à ex-assessora. Ela pode desencadear um fio de explosivos com ligações até o Planalto. Só a primeira-dama Michelle Bolsonaro, vale lembrar, recebeu R$ 89 mil de Queiroz.

Bolsonaro e família têm razão em acompanhar com apreensão os rumos da eleição americana, que pode ter como resultado relegar aos aliados do Sul o título de pária-sem-par da comunidade internacional.

Mas o que deve gelar a espinha do capitão são os passos do Ministério Público em direção aos filhos. Da última vez que falou sobre o assunto, Queiroz, que hoje cumpre prisão domiciliar, classificou a investigação como “uma pica do tamanho de um cometa para enterrar em nós”.