Flávio Rocha é uma versão piorada de João Doria

“Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis”, afirmou Bertold Brecht. Conforme se aproximam as eleições, intensifica-se a busca por um nome que corresponda à atmosfera novelizada que tomou conta da política institucional brasileira nos últimos tempos. Cria-se, assim, um terreno fértil para o surgimento do que se convencionou a chamar de outsiders, ou políticos que se apresentam como não-políticos, ignorando a obviedade de que mesmo a negação da política é uma das muitas expressões desta.

Os outsiders também seguem determinado padrão: são em regra homens brancos, empresários, ricos e mostrados como bem-sucedidos em suas aventuras empreendedoras. Diferentemente da nossa classe política, prosperaram longe do dinheiro público, de modo que, já endinheirados, não precisam dele para sobreviver. Daí vêm sua aura incorruptível e a nobreza de suas intenções, montadas a galope no resplandecente alazão do altruísmo.

Essa narrativa deu relativamente certo nas últimas eleições. O êxito eleitoral de João Dória é talvez a mais emblemática vitória de um membro do clube.

Não demorou muito, entretanto, para que o midiático prefeito – doido, assim como todo grande empreendedor de sucesso, por benevolentes subvenções estatais -passasse de outsider para insider, frustrando as fantasias do pessoal que, enquanto bebe sua cerveja sem álcool, espera a salvação messiânica no lombo de um unicórnio.

Dória, não custa realçar novamente, ficou rico sem produzir um parafuso sequer – e contando com generosos aportes de dinheiro público, claro.

Mas, enquanto prevalecer a visão infantilizada e novelizada da política, a busca por super-heróis deve continuar. As crianças mal-intencionadas da milícia auto-intitulada “Movimento Brasil Livre”, por exemplo, mal se divorciaram de Dória e já engataram um romance com outro membro da patota: o empresário Flávio Rocha, proprietário do grupo Guararapes.

Rocha é uma caricatura ambulante

Como todo bom liberal, gosta de propagandear as virtudes olímpicas do livre-mercado. Curte também a defesa de um Estado microscópico que possibilite que a sacrossanta livre-iniciativa ocupe os sulcos deixados pelo malfazejo poder público. Todavia, seguindo a cartilha do vanguardismo empreendedor, deseja este minimalismo só para os outros. É ao menos o que demonstram os 1,4 bilhão recebidos do BNDES e as nada discretas isenções fiscais das quais se beneficia sua empresa.

Em seu recente namorico com o MBL, que já o alçou ao posto de candidato presidencial do clã, Rocha trabalha intensamente para intensificar sua caricatura de herói-liberal-messiânico-anti-Estado, ainda que tenha se mostrado um péssimo prospector de mercado ao afirmar a sandice de que a queda de Dilma causaria uma “volta instantânea de investimentos”.

Nos últimos dias, virou seu profundo poder analítico contra o MST, mostrando que leva mesmo a sério esse negócio de seguir roteiros. Em um dos vídeos em que se dirige aos sem-terra, Rocha questiona aos seus interlocutores se já viram algum saco de feijão produzido pelo MST, deixando claro que espera encontrar nas prateleiras dos mercados produtos com a imagem de um camponês segurando um facão ao lado de uma camponesa com o mapa do Brasil ao fundo.

Contudo, não sabe o empresário que o movimento organiza sua produção por meio de cooperativas, que possuem seus respectivos Cadastros Nacionais de Pessoa Jurídica (CNPJ), sendo suas informações e eventuais nomes de fantasia os encontrados nos rótulos de seus produtos.

É triste constatar que a sagaz e diferenciada visão empreendedora de Rocha não tenha sido suficiente para que cogitasse a hipótese de que movimentos sociais não possuem registro em juntas comerciais.

Não alimentemos, portanto, expectativas de que assimile a informação de que o MST não apenas produz feijão (orgânico), mas arroz (também orgânico, e em quantidade maior que a de qualquer outro produtor na América Latina).

Noutro vídeo, Rocha esbraveja contra as mulheres do movimento, qualificando-o de vagabundo e terrorista por ter ocupado e paralisado a produção de uma das fábricas da Guararapes no dia 08 de março. O mais interessante nesse episódio é o fato de um sujeito que, aos 36 anos de idade, ainda vivia da mesada do pai, achar que tem autoridade para chamar quem quer que seja de vagabundo.

Ainda: trata-se de alguém cujo empreendedorismo – a ausência de aspas é intencional – possui os dois pés em recursos estatais e que administra um império herdado e construído também segundo essa dinâmica (sem perder de vista aquele toque escravocrata indissociável do liberalismo raiz, evidentemente).

Rocha é a cara cuspida e escarrada daquilo que a apologética neoliberal chama de meritocracia.

Em entrevista recente ao El País, Noam Chomsky afirma, categórico, que o neoliberalismo existe somente para os pobres: “o mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos”.

Alberto Carlos Almeida, cientista político e diretor do Instituto Análise, concorda com Chomsky. Em seu perfil no Facebook, relatou que toda vez que vê uma empresa ou setor de sucesso, procura no Google os estudos sobre o apoio estatal que recebeu. Encontra, obviamente, em 100% das vezes.

Nomes como João Dória e Flávio Rocha são exemplos claros de que já passou da hora de crescer e parar de acreditar no mito infantil do empreendedorismo de garagem.

Gustavo Freire Barbosa é Advogado.