Flexibilização no Rio: infectologista aponta necessidade de mais medidas de controle em nova fase

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Foto: Hermes de Paula em 03-11-2020 / Agência O Globo
Foto: Hermes de Paula em 03-11-2020 / Agência O Globo

O anúncio da nova fase de flexibilização, batizada de "período conservador", pelo prefeito do Rio, Marcelo Crivella, foi acompanhado por críticas por parte da comunidade científica, em especial quanto ao município ter adquirida a "imunidade de rebanho". A entrada num período com mais permissões — de permanência na areia das praias à volta do serviço self-service em restaurantes — exige um acompanhamento ainda mais de perto para identificar a curva de crescimento de casos e óbitos devido à Covid-19.

O monitoramento seria intensificado através de mais testagens, com resultados mais rápidos e precisos, testes mais baratos e gratuitos e mais postos para este atendimento, defendeu o infectologista Marcos Junqueira do Lago, do Hospital Universitário Pedro Ernesto da UERJ, em entrevista ao "Bom Dia Rio", da TV Globo, nesta quarta-feira.

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O especialista destacou que a oscilação no número de casos e óbitos no Rio faz parte do ciclo natural da epidemia que sofre, entre outros fatores, influência da estação do ano. O município passa pela primavera e aguarda a chegada do verão, diferente do hemisfério norte, na expectativa do inverno, que já acompanha o crescimento das infecções, com destaque para a Europa, em temor por uma segunda onda.

— A gente nunca chegou a fazer aqui no Rio de Janeiro um lockdown, realmente um controle efetivo, completo. Então, seguimos um pouco o ciclo da epidemia e agora, de fato, o número de casos e de óbitos vem diminuindo, e a população começou a sair mais e as medidas de flexibilização, elas precisam ocorrer, não tem muito como você não ter medida de flexibilização. Mas o que eu pontuaria, que eu acho o ponto mais importante agora é se você vai fazer medida de flexibilização, e essa decisão é muito difícil de fato, mas, se você vai fazer, em contrapartida tem que intensificar as medidas de controle — disse o infectologista.

E explicou, durante o "Bom Dia Rio":

— Ou seja, aumentar os postos de testagem gratuitos, aumentar o monitoramento dos novos casos, fazer isso com mais rigor, e isso precisa não só de investimento de dinheiro, precisa de investimento de gestão, precisa de equipe, precisa de gente fazendo isso o tempo todo, ali no minucioso. Porque isso é importante justamente nesse momento, que a gente está vivendo agora o final da primavera e o início do verão. É natural que o número de casos diminua um pouco. Mas a gente precisa olhar isso com lupa porque se houver um aumento no número de casos, a gente não precisa esperar até a hora que aconteçam as mortes para voltar para trás um pouquinho.

Marcos Junqueira do Lago afirmou que é possível haver um aumento significativo de infecção pela Covid-19 sem a chegada de uma nova onda, num momento em que há aumento da flexibilização sem uma "diminuição tão robusta", mas razoável. No próximo ano, os meses de fevereiro e março vão requerer atenção, com a proximidade do outono. Ele também contestou a afirmação de que o município alcançou a "imunidade de rebanho".

— Apesar da gente ter tido uma liberação muito grande, ter tido muitos casos, isso não foi suficiente, nem de longe, os estudos estão mostrando, para criar a tal imunidade de rebanho. É difícil precisar o número, mas a gente não tem mais de 20% da população infectada. E para a imunidade de rebanho tem que ter 80%.

O infectologista salienta que é preciso lembrar de que, apesar das flexibilizações, a pandemia não chegou ao fim. A queda no número de casos, segundo Lago, não impacta num fator importante: a gravidade da infecção pela Covid-19.

— A sua chance hoje de se infectar diminuiu um pouco, mas ela ainda é bastante significante. E se você ficar doente, a sua chance de ter uma doença grave continua a mesma. A doença não melhorou. Infelizmente, se alguém pega Covid, pode e deve ficar preocupado, que é uma doença potencialmente muito grave e em um número pequeno de pessoas, mas significante, pode ter sequelas e pode até morrer. Isso continua igual. A chance de pegar diminuiu, mas a gravidade da doença continua a mesma, não mudou nada.