Flip: 'O Brasil é racista, mas por muito tempo se pensou cordial', diz Rita Segato em mesa com Saidiya Hartman

A antropóloga argentina Rita Segato, a historiadora americana Saidiya Hartman e o crítico literário Luiz Mauricio Azevedo debateram raça e gênero sob a perspectiva decolonial de seus trabalhos da mesa "Entrar no bosque da luz", penúltima do sábado na 20ª Festa Literária Internacional de Paraty. A mediação foi da escritora e filósofa Djamila Ribeiro.

Muito aplaudida por sua atuação na implementação da política de cotas raciais no Brasil e em pesquisas sobre violência de gênero, Rita, professora emérita da Universidade de Brasília, expôs sua visão sobre a metáfora contida no título da mesa. Para ela, a entrada nessa bosque é como olhar para o espelho da rainha má dos contos de fadas. O reflexo mostra realidades escamoteadas e contesta conceitos antes tomados como verdadeiros. Deu como exemplo, a cordialidade do brasileiro:

— O Brasil é racista, mas por muito tempo se pensou cordial. Com o bosque da luz, lembrei da ideia do espelho, dessa luminosidade que mostra o que está oculto — disse Rita, que contou detalhes de sua atuação na formulação de políticas de cota na UnB a partir de um caso de racismo sofrido por um aluno, em 1998, quando professores não quiseram corrigir uma prova de um aluno do departamento de Antropologia. — Com esse caso particular, pensamos que, no Brasil, era indispensável garantir a permanência de estudantes negros e indígenas na universidade. E começou com a reprovação sumária de um aluno. Vou escrever um livro com todos esses detalhes antes de morrer.

A plateia que lotou a Tenda da Matriz teve a chance de ouvir a explicação da historiadora e escritora americana Saidiya Hartman, professora da Universidade de Columbia, sobre "fabulação crítica", estratégia de usar elementos da literatura na historiografia quando há uma ausência de documentos. Ela faz isso principalmente em "Perder a mãe" (Editora Bazar do tempo), em que narra sua viagem a Gana para recriar a rota marítima do comércio de escravos do Atlântico.

— Não penso em mim criando ficção, mas sim usando imaginação para conseguir contar histórias impossíveis. Como eu poderia contar uma história em que os registros documentais não existiam? (Em "Perder a mãe") Contei o caso de uma mulher negra assassinada num navio. Não foi registrado que ela tenha dito que queria morrer no navio negreiro, mas outra tinha disso isso. Tentei imaginar a história dela, criando por meio de detalhes. É uma pesquisa de arquivos exaustiva.

A americana ressaltou a importância de um trabalho multidisciplinar, com várias áreas do saber, para a transpor as dificuldades impostas por todos os agentes que pretenderam apagar memórias.

— Nós temos que ser criativos. Recontar com que está disponível, e não pensar no impasse da falta de documentos. Nós podemos superar esse obstáculo — disse Saidiya, que citou a conterrânea Toni Morrison, Nobel de Literatura, como exemplo da interdisciplinaridade entre literatura e História. — Morrison fez uma pesquisa histórica incrível para escrever o que escreveu. Isso é um grande presente para a historiografia.

O papel do crítico

No lugar de crítico, Luiz Mauricio Azevedo coube refletir sobre o cuidado ao analisar a literatura negra

—É muito difícil fazer crítica de objetos que são colocados como vulneráveis, que não merecem uma análise crítica. A gente não tem ideia para onde a gente tem que ir, é jogado nesse pesadelo. Como fazer crítica de obejtos de pessoas que a crítica social já destruiu? — disse Luiz, muito aplaudido quando entrou na questão político-racial ao falar de um" presidente da república que tinha dicção ruim, modos ruins, mas olhos azuis. —No Brasil, para ser presidente, você pode ser qualquer coisa desde que seja branco.