'Flordelis: questiona ou adora': série documental analisa todos os ângulos do assassinato do pastor Anderson

No dia 11 de agosto de 2021, a então deputada Flordelis (PSD-RJ) treinava, em seu gabinete na Câmara Federal, o discurso que faria no Plenário antes da votação para a cassação de seu mandato. Acusada de mandar matar o marido, o pastor Anderson do Carmo, assassinado a tiros na porta de casa, em Niterói, em junho de 2019, Flordelis tentava convencer os colegas de sua inocência, mas acabou sendo destituída do cargo, por 437 votos favoráveis (7 contrários e 12 abstenções). O momento foi registrado de perto pela equipe de “Flordelis: questiona ou adora”, primeira série documental do Globoplay em parceria com O GLOBO, cujos dois primeiros episódios estreiam amanhã na plataforma.

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Em seis capítulos, a produção parte do crime, que desestabilizou a família de 55 filhos do casal, para contar a trajetória de Flordelis, de mulher pobre da favela do Jacarezinho, no Rio, à liderança evangélica aliada ao presidente Jair Bolsonaro. O título “Questiona ou adora” é inspirado num dos sermões da pastora — que abriu uma Igreja, o Ministério Flordelis, que chegou a ter cinco filiais e hoje não existe mais —e no título de um de seus CDs como cantora gospel.

‘Tragédia brasileira’

Antes mesmo do sucesso nos púlpitos e nas paradas musicais, seu altruísmo em abrigar dezenas de crianças já fizera dela um nome recorrente na mídia carioca, que enxergava em seu instinto maternal uma alternativa às carências do Estado.

—Esta é a história de uma tragédia brasileira — diz Mariana Jaspe, roteirista e diretora da série. — Flordelis era muita coisa ao mesmo tempo: uma menina com o dom da revelação que se torna pastora de uma igreja de próprio nome, superartista gospel. Mãe solteira e também mãe de filhos afetivos. Mulher que sai da miséria, vira estrela e perde tudo, inclusive a própria liberdade.

Sem imunidade parlamentar, a carioca está presa preventivamente desde 13 de agosto do ano passado. O julgamento dela, de três filhos e de uma neta, todos acusados de envolvimento no crime, começa na próxima segunda-feira, em Niterói. O filho biológico Flávio já foi condenado, em novembro de 2021, a 29 anos e três meses por atirar em Anderson. O adotivo Lucas recebeu pena de sete anos e meio por ter comprado a arma. Carlos (filho afetivo) e Adriano (filho biológico) foram condenados por associação criminosa e estão em liberdade condicional.

Análise

Há dez anos cobrindo ocorrências de polícia, a repórter Carolina Heringer acompanhou pelo GLOBO todo o caso. Ela e Thiago Prado, editor de Política, são os nomes do jornal envolvidos no projeto da série, que tem depoimentos de investigadores, filhos e netos do casal, testemunhas, jornalistas, o estrategista político e a advogada de Flordelis.

De folga no fim de semana do crime, Carolina entrou na pauta na segunda-feira “e nunca mais saí”, ela diz. Logo abriu duas frentes de trabalho: além da cobertura a do assassinato em si, também mergulhou do passado de Flordelis e de Anderson. Sentia-se incomodada com alguns buracos na trajetória do casal.

—Eles são muito misteriosos. Desde o início, tive curiosidade em desvendar essa família e esses dois personagens principais. Vi muitas lacunas e incompatibilidades — diz a repórter. — Por exemplo, na data em que eles diziam ter se casado, o Anderson era menor de idade. Ninguém nunca havia questionado isso, nem na igreja.

Flordelis está no título, mas Anderson é elemento tão importante quanto a mulher na produção. Entender o contexto da entrada dele na vida dela e seu modus operandi no império é fundamental para entender quem ela é. Os dois viviam numa simbiose, em casa, na Igreja e, principalmente, no meio político.

— Quando Flordelis se elegeu, teve muita dificuldade de circular em Brasília — diz Thiago Prado. —Tento mostrar como o Anderson é o grande responsável pelo mandato dela.

Desafio de contar mais de uma versão

O assassinato que colocou Flordelis e sua grande família nas manchetes aconteceu há pouco tempo para os parâmetros dos true crime, que usualmente mergulha em crimes com mais distanciamento histórico. “Flordelis: questiona ou adora” começou a ser discutida em 2020, um desafio ainda maior para a produção, já que, na época, nenhum julgamento ainda havia ocorrido.

— A historia continuava acontecendo enquanto a gente ia filmando. Íamos adaptando o nosso roteiro com todas as revelações inesperadas e reviravoltas — diz Gustavo Mello, da Boutique Filmes, que produziu a série. — Havia o desafio gigantesco de manter o extremo rigor e uma visão respeitosa dos personagens retratados. Temos uma história familiar com muitas versões. Nosso foco era trazer visão humana e não reforçar cobertura sensacionalista.

Convencer a família a dar depoimentos, principalmente a parte que sempre acreditou na inocência de Flordelis (como Rafaela, na foto, neta biológica dela, filha de Simone, que será julgada também na segunda-feira), foi outro desafio da equipe.

—Eles acham que ela foi muito massacrada, principalmente por canais de YouTube — diz a repórter Carolina Heringer. — Ficamos incomodados enquanto não conseguimos a participação deles. Nunca foi a intenção contar apenas uma versão da historia. Aprendi uma coisa como repórter de polícia: tudo sempre tem mais de um lado, por mais banal que um episódio pareça.

Todos esses lados contemplados, diz Mariana Jaspe, faz com que a série seja “zero opinativa”:

— Por ser uma história atual, tivemos muito cuidado para não estabelecer verdades. Não tecemos opiniões.

Para ouvir

Junto com a série documental, o Globoplay lança um podcast, disponível em todas as plataformas de áudio, apresentado por Leandro Neko e Jeska Grecco, com análises e detalhes dos bastidores do trabalho feito pela produção. A roteirista e diretora Mariana Jaspe, por exemplo, foi uma das entrevistadas. Carolina Heringer e o editor de política do GLOBO, Thiago Prado, também estão na lista.