Florista de Botafogo troca mudas de planta por alimentos para doação

Pedro Medeiros*
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"Troca-se duas mudas de hortaliças e flores por 1Kg de alimento não perecível". É difícil passar em frente à floricultura próxima ao Shopping Rio Sul, em Botafogo, Zona Sul do Rio, e não perceber o cartaz de mais de um metro. O projeto iniciado há sete anos pelo florista Fernando Antônio de Jesus consegue manter uma média de 100 quilos de doações, mesmo durante pandemia. O exemplo vem de infância em orfanato e da devoção católica, que segue à risca:

— Já me chamaram para conhecer as pessoas que beneficio, mas sempre recuso. Jesus ensinou que devemos fazer o bem sem olhar a quem — acredita o empresário.

A floricultura de Fernando Antônio na Rua Ramon Castilla tem mais de 30 anos. No interior do estabelecimento, há um espaço destinado aos mantimentos que, ficam guardados até o dia da doação mensal a uma das cinco instituições com as quais o empresário tem contato direto.

— São cinco instituições que eu ajudo: Casa São Francisco de Assis, em São João de Meriti; Congregação Missionária Madre Tereza de Calcutá, na Lapa; Santuário São Camilo de Lellis, na Usina; Hospital de São Francisco de Assis da providência de Deus Ordem Terceira, na Tijuca; Associação Maria Mãe, na Pça. da Bandeira e Aliança da Misericórdia, em Senador Camará. Todos os meses, uma delas é o destino das doações. Recebemos todos os tipos de alimentos não perecíveis, mas o principal e que nunca pode faltar é arroz, feijão e óleo, porque ajudamos a alimentar desde crianças a idosos — conta.

Natural de Minas Gerais, Fernando conta que, por falta de condições financeiras, sua mãe o colocou num orfanato, onde foi criado e ficou até os 13 anos. Os Natais na instituição só eram possíveis graças a doações de terceiros, o que plantou nele a necessidade de ajudar o próximo.

— Hoje, eu tenho contato com minha mãe biológica. Mas, sinceramente, eu não tenho qualquer interesse em saber o motivo de ter me colocado no orfanato. Pelo contrário, os acontecimentos são parte da minha biografia e sou grato por quem eu sou hoje e onde estou — revela.

Casado há 25 anos, pai de uma jovem formada em administração, Fernando diz que a filha é uma das responsáveis pelas doações não terem caído, apesar da pandemia. Ele tem conseguido manter a média de 100 quilos por entrega de doação, através dos pedidos por ajuda pelo perfil no Instagram da Ponto Verde Floricultura. Além do advento tecnológico, o florista conta com a colaboração da comunidade que habita os 18 prédios próximos em parceria à Alma, Associação de moradores da rua Lauro Muller e Adjacências.

— A gente faz sempre o possível para colaborar com essa ação tão bonita. O aluguel da quadra sintética, que é de nossa gerência, é mediante doação de 10 quilos de alimento por hora utilizada — diz Abílio Tozini, presidente da associação.

Fernando detalha que, apesar de muitos doarem e não aceitarem as mudinhas, as mais escolhidas são a de manjericão e alecrim.

— Mas alecrim é aquilo, né?! Tem que saber cuidar direitinho, porque é difícil mesmo — comenta. — O importante é que a corrente nunca se quebre. Eu faço por você, você faz por mim, e assim todos fazem do mundo um lugar melhor — finalizou.

*Estagiário sob a supervisão de Luciano Garrido.