Fluminense: Como Marcão superou turbulências e recolocou o tricolor na briga pelo G4

Rafael Oliveira
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Pode-se dizer que a trajetória do Fluminense no Brasileiro era tranquila até a saída de Odair Hellmann. A troca no comando técnico, com a entrada de Marcão, desestabilizou a viagem dos tricolores, que passaram por turbulência e se afastaram do caminho para a Libertadores. Depois de 12 rodadas, a presença assegurada no torneio e a possibilidade concreta de ir para a fase de grupos são resultado da evolução do interino na condução do time. Um progresso que confirma seu amadurecimento enquanto treinador e premia sua convicção num estilo de jogo.

Marcão encontrou um Fluminense que passara os últimos 11 meses priorizando — ainda que com eventuais concessões — a compactação das linhas defensivas e o ataque em velocidade. Auxiliar interino durante a passagem de Fernando Diniz pelo clube, em 2019, o ex-volante se identificou com o estilo do treinador, que valoriza a posse de bola e a construção em toques curtos a partir do goleiro. Promover esta troca com o campeonato em andamento cobrou seu preço.

Nas primeiras quatro partidas, o aproveitamento da equipe foi de apenas 33,3% dos pontos. Hoje, a realidade é outra. Sob o comando de Marcão, o Fluminense conquistou 58,3% dos pontos disputados. O índice é superior ao das 24 rodadas com Odair (54,1%).

— O Marcão veio de um trabalho do Diniz, que jogava de uma forma. Depois, mesmo trabalhando de dentro, com o Odair, era um outro modelo. Eu gosto, a gente respeita muito o trabalho do Fernando — comentou o próprio Marcão após a vitória sobre o Ceará.

Um raio-x das últimas 12 rodadas do Fluminense permite entender como esta volta por cima foi dada. Ao mudar a forma do time atuar, Marcão não conseguiu, num primeiro momento, deixá-lo mais ofensivo. Pelo contrário. O que se viu foi uma equipe exposta aos adversários. A média de conclusões foi de 7,5 por partida nas primeiras quatro rodadas com o interino. Enquanto isso, a de finalizações dos rivais contra a meta tricolor foi de 10,5. A consequência apareceu na relação entre gols feitos e sofridos: 1,25 contra 1,5.

É importante destacar que a dificuldade natural dos atletas em se habituar à nova forma de jogar não foi o único obstáculo colocado diante de Marcão. O ex-volante foi diagnosticado com Covid-19 ainda em seus primeiros dias na função e precisou se afastar por dez dias. Neste período, quem comandou as atividades foi o auxiliar Aílton Ferraz.

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Cumprido o isolamento e bancado pela diretoria após a contestação inicial, Marcão arregaçou as mangas. Primeiro, tornou o time mais perigoso na frente. Hoje, o Fluminense tem médias melhores tanto de finalizações (9,5 por jogo) quanto de gols marcados (1,5).

O desafio maior foi recuperar a solidez da defesa. A média de gols sofridos chegou a piorar. Após oito jogos, era de 1,75. Somente após a sequência de quatro partidas sem ser vazado (encerrada nos 3 a 1 sobre o Ceará, na última rodada) o Fluminense conseguiu, enfim, torná-la menor do que a de gols feitos.

Mudança nas peças

Marcão promoveu mudanças não só na organização da equipe (voltou a atuar com um trio ofensivo) como também nas peças. O retorno de Egídio no lugar de Danilo Barcelos fez o lado esquerdo voltar a ser forte. No meio, Martinelli se revelou um grande achado. Seguro na marcação e à vontade na frente, o garoto de Xerém é, hoje, o melhor do Fluminense. Mais leve que Hudson, Yago também mostrou que deve ser o titular. Já a volta da boa fase de Nenê resolveu a criação.

Luiz Henrique e Lucca tanto completam a primeira linha de quatro quando a equipe está sem a bola como são a válvula de escape pelos lados para compensar as limitações de mobilidade dos veteranos Nenê e Fred. O camisa 9, por sinal, entendeu seu papel neste retorno ao time e usa sua experiência e visão de jogo para pôr os companheiros em condição de concluir — mas sem deixar de explorar sua qualidade nas finalizações.

Para completar, Marcão encontrou uma solução para a dificuldade do centroavante em atuar por 90 minutos e de emplacar sequência de jogos ao promover John Kennedy para o elenco profissional. Fruto de seu olhar apurado para a base, já que era o treinador do time sub-23 antes de assumir o principal.

É para lá, aliás, que o interino deve voltar após o Brasileiro. O sub-23 representará o Fluminense no início do Carioca. Já o elenco principal ficará aos cuidados de Roger Machado, acertado com a diretoria. Marcão não demonstra frustração e até elogia o substituto. Mas, em pleno amadurecimento, não esconde se sentir pronto para voos próprios.

— O momento que o Marcão achar que tem que sair ou que o presidente falar “Marcão, seu espaço não é mais esse aqui”, não vai ter problema. O Marcão vai para o mercado, vai tentar o emprego dele. Mas, hoje, está extremamente feliz — afirmou o técnico.