Fluminense: 'Respirava e sentia que o ar não vinha', diz Luccas Claro sobre a volta ao futebol após a Covid-19

Marcello Neves e Rafael Oliveira
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Mailson Santana/Fluminense FC

Poucas pessoas podem fazer uma retrospectiva de 2020 classificando o ano como positivo. Uma delas é Luccas Claro. Não que ele tenha passado ileso pela pandemia de Covid-19 ou de seus reflexos. Mas o defensor de 29 anos também guarda boas lembranças do último ano. Iniciou a temporada como quarto zagueiro do elenco do Fluminense e cogitou deixar o clube. Mas, ao longo dos 12 meses, conquistou seu espaço e virou o grande destaque da zaga tricolor. Não à toa, seu provável retorno (está recuperado de lesão na coxa direita) no Fla-Flu desta quarta, pelo Brasileiro, é recebido com alívio pela torcida e pelo técnico Marcão.

— Foi um ano bem legal profissionalmente. Está sendo. Estou em um clube grande como o Fluminense, e estou podendo ajudar. A repercussão é muito grande. Por mais que agora a gente tenha se distanciado um pouco da liderança, é diferente você estar brigando na parte de cima da tabela e não precisar ficar fazendo contas na parte de baixo — disse Luccas ao GLOBO.

A boa fase e a importância adquirida no elenco levaram a uma renovação de contrato até o fim de 2022. Uma valorização que ele alcançou através da segurança defensiva refletida nos números. De acordo com o site Sofascore, especializado em estatísticas, foram apenas dois dribles sofridos em todo o Brasileiro até aqui e 71% de êxito nos duelos aéreos.

Na frente, vem o diferencial. Com facilidade para os gols, marcou cinco em 31 jogos na temporada. No elenco, só fica atrás do trio Evanilson (que deixou o clube em setembro), Marcos Paulo e Nenê. Os dois primeiros registram oito. O meia, 20.

Cobrança por gols

O zagueiro igualou sua melhor marca na carreira (também fez cinco, em 2016, pelo Coritiba). E, como ainda restam 11 rodadas do Brasileiro, pode ampliá-la. É o que ele mesmo espera. Embora não seja cobrado por gols, Luccas Claro revela que fica ansioso sempre que se vê em jejum particular. Como agora. O último foi oito jogos atrás, em 25 de outubro, na vitória sobre o Santos.

— A bola parada ajuda muito e vence os jogos. Então me cobro muito por gols. Não tenho uma meta estipulada, mas se ficar cinco partidas sem marcar já me incomodo — admite o jogador, que chegou a ser meia e volante no infantil do Athletico-PR. — No rachão, jogo como atacante. E marco meus gols. O Muriel até brinca para eu virar logo atacante. Mas não dá, me encontrei como zagueiro.

O Fluminense pode ser considerado o ponto alto de sua carreira. Embora seja natural de Ribeirão Preto (SP), foi revelado no Coritiba, onde atuou por seis temporadas. Já estava no elenco nas duas campanhas em que o time foi à final da Copa do Brasil (2011 e 2012), mas passou a ter mais oportunidades a partir de 2013. De 2016 a 2019, viveu a experiência de atuar na Europa. Pelo Gençlerbirligi-TUR, foi da queda inédita do clube para a Segunda Divisão à alegria de recolocá-lo de volta à elite. Ao rever o caminho traçado até aqui e o ponto em que chegou, Claro lembra de uma conversa tida justamente com um ídolo tanto no Coxa quanto na Turquia:

— Quem me falou isso uma vez foi o Alex, no Coritiba: que a melhor idade dos zagueiros é entre 28 e 29 anos. Hoje estou podendo comprovar o que ele falou. E espero manter por muito tempo.

‘Me sentia morto’

Nem todas as lembranças de 2020 ele vai querer guardar. Em setembro, tornou-se mais um brasileiro infectados pela Covid-19. Passou dez dias isolado em um hotel. As dores na cabeça e nas costas e a perda do paladar não foram os únicos problemas.

— O mais difícil foi dormir. Pensava em como iria acordar. Não sabia se ia passar bem, se ia ter dificuldade na respiração. Mas a cada dia fui melhorando — conta o atleta, que descreveu as dificuldades da retomada. — Foram muito difíceis as três primeiras semanas. No primeiro jogo, contra o Bahia, pensava que não tinha condição nenhuma de jogar. Me sentia morto nos treinos. Mas cada um reage de uma forma. O torcedor tem que ter um pouco de paciência quando o atleta volta de Covid. Tem que respeitar o tempo de cada um. Precisei de 20, 25 dias para me sentir bem completamente. Respirava e sentia que o ar não vinha.

O respeito ao tempo parece ter sido seu maior aprendizado de 2020. Seja o que o organismo precisa para se recuperar, seja o necessário para conquistar seu espaço em campo. Hoje, ele já passa até por carioca. Durante a entrevista, feita por chamada de vídeo, Claro mostrou sua segunda paixão depois do futebol: o samba. Em sua casa, guarda um repique, um tantã e um pandeiro. A julgar pelas referências, entende do assunto.

— Sou do interior de São Paulo, mas gosto de samba. Meu pai torce pela Vila Isabel. Então fecho com ele. Para mim, o maior grupo de todos é o Fundo de quintal. Mas gosto também de Zeca Pagodinho, Diogo Nogueira, Reinaldo, o príncipe do pagode...

É de um samba, inclusive, que ele lembra ao escolher uma música que represente sua vida: “Sem retroceder”, do sambista Carica.

— Ele fala que cresceu e que deu a volta por cima com honestidade. Eu me vejo dentro dessa música.