Fluminense viu tragédia na região serrana vitimar zagueiro e mudar temporada há 90 anos

Marcello Neves
1 / 4

thumbnail_trem.png

Acidente do Fluminense

“O emocionante desastre na Serra de Therezopolis”. Foi assim que a manchete da revista ‘O Malho’ descreveu o acidente que envolveu toda a delegação do Fluminense em 9 de março de 1930. Se hoje a pandemia do novo coronavírus mudou o planejamento da pré-temporada tricolor, o clube precisou superar algo tão ruim quanto há 90 anos: um acidente que deixou dezenas de feridos e oito mortos, incluindo o zagueiro Jorge Tavares Py.

Era início de temporada em 1930, quando o Fluminense voltava de Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro. O trem, meio de transporte mais popular da época, que levava a delegação desgovernou nos trilhos, tombou e causou um violento choque entre vagões. Os relatos da época mostravam o clima de tensão que tomou conta do ambiente.

A delegação tricolor retornava ao Rio após vencer o União Football Club por 5 a 1, no Estádio Jorge Pereira da Silva, em partida válida pelo “Troféu Cidade de Theresópolis”. No acidente, a composição desgovernou e o zagueiro Jorge Py tentou acionar os freios do vagão, mas o trem saltou da linha e se chocou contra o barranco.

- Ouvi diversas vezes o nome do Jorge Py em minha casa. Certo dia, estávamos retornando para Teresópolis, em 1979. Houve um acidente de carro na estrada, ficamos no engarrafamento e o meu pai me contou que ali embaixo havia ocorrido a batida do trem. Ele tinha uma cicatriz no braço por conta do desastre. Ele costumava mostrar aos amigos, para falar da experiência – explica o músico Ivan Mariz Filho, que herdou o mesmo nome do pai, Ivan Mariz.

Ivan Martiz foi o autor de um dos gols daquela partida. Preguinho marcou os outros quatro. No dia seguinte, a revista 'O Malho' reconstituiu o acidente.

“Às 17 horas de domingo deixou Therezopolis a composição. Dirigida pelo maquinista Manoel Virgilio e tendo como foguista Mario dos Santos. Os dois carros vinham repletos de passageiros, incluindo a delegação do Fluminense, que fora à cidade serrana a convite de um combinado local para uma partida amistosa. A composição descia a serra a princípio com lentidão, sustendo os dois carros, que pareciam funcionar rigorosamente e sem que nada fizesse prever a catástrofe. Quando menos se espera, e por motivo que ainda está sendo apurado, a locomotiva perdeu o controle da manobra, e já agora, sem poder conter o peso dos dois carros lotados, despenha-se serra abaixo, desgovernada. Momentos depois já não se continham mais, abafando as senhoras e as crianças, com os seus gritos de pavor, o barulho infernal da carreira desesperada do trem”, escreveu a publicação, que também falava do momento do choque entre os vagões:

“Alguns passageiros, dos menos calmos, correram às plataformas dos carros para se atirarem fora. Nesse momento chegou à composição a curva chamada ferradura, e a locomotiva, saltando dos trilhos, tombou de encontro a uma barreira, fazendo os carros entrechocarem-se violentamente. Lamentos doloridos e pedidos de socorro partiam de toda a parte. Oito mortos, algumas dezenas de feridos. A família mais atingida pela desgraça foi a do senhor Horacio Costa, estimado comerciante da nossa praça. Suas duas filhinhas, Vera e Aida, mortas de um modo trágico, esmagadas na engrenagem dos carros. Passados os primeiros momentos, os passageiros salvos foram a socorro dos companheiros de viagem”.

Posteriormente, o Fluminense viria a honrar os compromissos com a família de Jorge Py e com os atletas tricolores que se abalaram emocionalmente.

- Meu pai comentou que o elenco decidiu, em uma reunião após o acidente, que iriam continuar honrando a camisa do Fluminense. O time continuou jogando, mas perdeu o foco, levando alguns anos para conseguir se erguer das cinzas, mas em 1936 a coisa mudou, Graças a Deus - conta Ivan, fazendo referência ao título do Campeonato Carioca de 1936, onde o Fluminense se tornou campeão em cima do Flamengo.

Para Dhaniel Cohen, do Flu-Memória, o acidente foi um dos momentos mais tristes da história do Fluminense.

- Abalado com a tragédia, o time não teve um bom desempenho no Campeonato Estadual, ficando em sexto lugar na classificação final. Ainda assim, quatro meses depois do desastre em Teresópolis, cinco atletas tricolores disputaram a Copa do Mundo de 1930, no Uruguai, a primeira da história. Veloso, Fernando, Fortes, Ivan Mariz e Preguinho defenderam a Seleção Brasileira na competição - conta Cohen.

Em 13 de agosto de 1931, o Fluminense recebeu a “Taça Jorge Py”, após vencer por 3 a 2 uma partida realizada no Estádio das Laranjeiras entre o Fluminense e a Seleção da Federação Gaúcha em favor da família de Jorge Py. A renda foi revertida para o menino Milton, filho do atleta falecido.