Foco em cirurgia e artigos sobre intubação de paciente com Covid: saiba quem é Alicia Muller, aluna de Medicina da USP suspeita de desviar R$ 927 mil

Suspeita de ter desviado cerca de R$927 mil reais do fundo de formatura da turma de medicina da Universidade de São Paulo, a estudante Alicia Dudy Muller, de 25 anos, carrega um currículo de destaque, ao menos na área acadêmica. Em entrevista ao jornal da USP em 2018, ano em que ingressou na faculdade após três anos de cursinho pré-vestibular em uma das instituições mais renomadas do país, o Poliedro, a jovem disse que tem o sonho de se especializar na área cirúrgica.

Moradora do Ipiranga, bairro de classe média de São Paulo, Alicia terminou o ensino médio em 2014, na Escola Técnica Estadual (Etec) Getúlio Vargas, segundo seu currículo. Antes de ser aprovada em medicina, ela passou em Farmácia, em 2017, chegou a fazer matrícula, mas decidiu insistir na área médica e foi aprovada em 2018.

“O que me motivou a continuar prestando medicina é a cirurgia. Eu ainda não tenho noção em que área me especializar, se seria neuro (neurologia) ou onco (oncologia). Essas duas são as que mais me atraem porque tem muito o que pesquisar. (Tenho) curiosidade mesmo de estar ali lidando com aquela situação de tratar uma pessoa, ter a sensibilidade de você com o tato identificar o que está acontecendo, porque é muito sensível, delicado e desafiador. É uma coisa que eu gosto”, disse alícia em fevereiro de 2018.

Na ocasião da matrícula, a mãe da jovem, Cristina Muller, estava presente e defendeu com orgulho a dedicação da filha em querer ser médica.

“A minha filha Alicia fez cursinho três anos, foram duros, sempre imaginava que ela ia passar e não conseguia entrar. (Quando passou) foi uma felicidade imensa”, disse Cristina na época.

Já na universidade, Alicia publicou artigos em parceria com colegas sobre intubação de pacientes com Covid-19 e outros tratamentos para pessoas com a doença, conforme a página do currículo Lattes. Ela também fazia parte do Laboratório de Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Em setembro do ano passado, dados de registro de abertura de empreendimentos mostram que Alícia abriu uma empresa com apenas R$ 1. Enquadrada como Microempreendedor Individual (MEI), a empresa ainda está com CNPJ ativo.

Além das suspeitas de fraudes que Alicia já responde, consta no Portal da Transparência do Governo Federal que a aluna do curso de Medicina da USP recebeu R$ 3 mil de Auxílio Emergencial. O benefício é destinado apenas a pessoas de baixa renda.

Segundo o Portal da Transparência, ela teve depositados em sua conta bancária, entre junho e novembro de 2020, R$ 3 mil em cinco parcelas de R$ 600. Os valores não foram devolvidos à União.

Após o caso de desvio de verba da formatura ser revelado e denunciado por estudantes da turma 106A, agentes da Delegacia Especializada em Investigações Criminais (DEIC) de São Bernardo do Campo solicitaram a quebra de sigilo bancário de Alícia Muller. A jovem alega ter sofrido um golpe e perdido os R$ 927 mil.

O pedido de quebra de sigilo foi feito, no entanto, no âmbito de outra investigação, relativa a possíveis crimes de estelionato e lavagem de dinheiro contra uma lotérica na Vila Mariana, na Zona Oeste paulistana. Alícia teria feito apostas de altos valores via Pix diariamente no estabelecimento.

No dia 12 de julho de 2022, porém, deixou um prejuízo de R$192.908,47 ao não efetuar o pagamento agendado. O valor total apostado pela jovem seria de R$ 416 mil.

O caso do dinheiro da formatura é investigado, por sua vez, como apropriação indébita. Segundo colegas do curso de Medicina, a jovem disse ter transferido a quantia para uma conta sua. Posteriormente, aplicou cerca de R$ 800 mil do montante em um suposto esquema fraudulento da empresa 'Sentinel Bank''. Ao não conseguir reaver o dinheiro, usou o restante da soma para contratar advogados. Um boletim de ocorrência foi feito na última terça-feira.

"Escrevo para dizer que não temos dinheiro. Com toda dor, culpa e arrependimento que vocês podem imaginar. (...) Nosso dinheiro foi todo repassado para a Sentinel Bank, uma investidora que, no fim das contas, não se passava de um grande golpe e nunca mais retornou nem com o dinheiro investido, nem com os rendimentos", escreveu Alicia.

Ao GLOBO, a mãe da estudante relatou que a jovem está reclusa e desmentiu boatos de que ela teria viajado aos Estados Unidos ou colocado silicone. Segundo a mãe, a filha contou a ela o mesmo relato de ter sido vítima de uma fraude e que ela pretende concluir o curso.