Foco na guerra da Ucrânia ainda é militar, e não humanitário, diz representante de grupo antiminas

Cem dias após o início do conflito na Ucrânia, autoridades locais estimam que quase metade do território do país tenha a presença de explosivos não detonados, como bombas de fragmentação e outros tipos de armamentos convencionais, ou de minas terrestres, banidas pela Convenção de Ottawa, de 1997.

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Em entrevista ao GLOBO, Valon Kumnova, chefe de programas de ações relacionadas a minas do Centro Internacional de Genebra para a Desminagem Humanitária, destacou que, no momento, o foco dos governos ocidentais ainda é fornecer apoio militar aos ucranianos. Mas, segundo ele, há disposição para, no futuro, financiar ações de limpeza de áreas minadas, uma operação que pode levar algumas décadas para ser concluída.

Estamos vendo bilionários pacotes de ajuda militar para a Ucrânia, os EUA liberaram recentemente US$ 40 bilhões. Dentro dessas iniciativas, você vê algum tipo de preocupação com ações futuras para neutralizar explosivos usados em combate?

Os esforços agora estão concentrados em ajudar a Ucrânia a se defender, da melhor forma possível, dos ataques da Rússia. Em relação às minas, não há necessariamente uma falta de financiamento no momento, mas, na realidade, não há muito a ser feito agora. É possível realizar algumas ações, mas não uma ampla operação nacional relacionada às minas. O que pode ser feito neste momento é o que alguns dos serviços de emergência ucranianos estão fazendo, um trabalho fantástico e que protege muitos dos que estão se movimentando internamente e os refugiados que estão retornando.

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Eventualmente haverá espaço para uma ação mais intensa sobre as minas e explosivos não detonados, como ocorreu após outros conflitos no passado. Neste momento, quais ações você espera que sejam tomadas por governos e organizações internacionais?

Nesse momento, quando um trabalho de maior escala for possível, creio que será importante vermos como a comunidade internacional vai se mobilizar para fornecer o apoio necessário para remover as ameaças o mais rapidamente possível. Neste momento, há sinais de que esse apoio será dado, os sinais são positivos. Creio que o apoio seja proporcional à capacidade de implementar ações no terreno, e esperamos que ele aumente caso as condições permitam um trabalho mais amplo. Espero que os pacotes de ajuda humanitária aumentem e os de ajuda militar sejam reduzidos.

Além de minas explosivas, há relatos de que a Ucrânia foi atingida por bombas de fragmentação, que podem ser até mais perigosas do que minas, especialmente para crianças. Como está o trabalho de limpeza desses artefatos?

Há uma certa quantidade de organizações tentando trabalhar na Ucrânia, e boa parte do trabalho que precisamos fazer é relacionado ao apoio dado ao governo ucraniano, para que criem sistemas robustos para coordenar as atividades, e eles têm ótimas capacidades neste trabalho, já lidam com isso há muito tempo. Apesar de não haver confirmação oficial sobre o uso dessas bombas, creio que isso acontecerá quando as áreas afetadas forem liberadas para as equipes. Essas bombas podem ser devastadoras para os civis, crianças, mulheres e homens. Seu tamanho e suas cores atraem mais as crianças, e elas são letais. Nossa organização recentemente desenvolveu um guia sobre artefatos explosivos que está sendo usado na Ucrânia por organizações humanitárias e também para conscientizar as pessoas sobre o que acontece em seus países.

O presidente Volodymyr Zelensky disse, na quinta-feira, que a Rússia controla 20% do território ucraniano. Para organizações como a sua, o quão difícil é trabalhar ao lado de forças de ocupação, como a Rússia?

Temos que pensar no âmbito do trabalho humanitário, ele é realizado com base nas leis internacionais e nos princípios humanitários da neutralidade e afins. Então a ajuda vai estar disponível, não importa quem controle a área. Mas temos que pensar se a permissão de acesso será concedida, e não se sabe que tipo de trabalho está sendo realizado nessas áreas. Elas hoje podem estar sob controle russo, mas a guerra é fluida, as posições mudam, e uma área que você limpou hoje pode voltar a ser contaminada no dia seguinte.

Estamos falando no uso de minas terrestres em combate apesar de termos, desde 1997, um tratado internacional, a Convenção de Ottawa, que bane esse tipo de armamento. Ele foi assinado por 164 nações, mas não tem entre seus signatários três dos maiores fabricantes de armas do mundo, EUA, China e a própria Rússia...

Nós queremos muito que esses tratados sejam universalizados e passem a valer em todo o mundo, e há muito sendo feito para que isso aconteça. Esse [Convenção de Ottawa] é um dos mais bem-sucedidos tratados do mundo, com mais de cem signatários. É verdade que muitos não estão nessa lista, mas mesmo entre esse grupo há alguns que não usam ou produzem mais esse tipo de armamento, e que também fornecem ajuda para remover as minas, como é o caso dos EUA. Os signatários do tratado também acreditam que não há qualquer motivo para usar esse tipo de arma, que causa muito mais danos aos civis do que benefícios em ações militares.

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