'Foi como se tivesse saído do meu corpo', diz Steven Spielberg, sobre filmar o intimista 'Os Fabelmans'

Em entrevista realizada para a divulgação de “Os Fabelmans”, a partir de quinta-feira nos cinemas brasileiros, Steven Spielberg reviveu a emoção de ver pela primeira vez Michelle Williams e Paul Dano caracterizados como Mitzi e Burt Fabelman, respectivamente matriarca e patriarca da família fictícia, mas nem tanto, que batiza o filme.

— Foi como se tivesse saído do meu corpo, testemunhado de fora um acidente de carro que eu havia sofrido, e o filmado em câmera lenta — conta o vencedor do Oscar por “A lista de Schindler” e “O resgate do soldado Ryan”. — Em seguida, os vi novamente e não enxerguei Michelle ou Paul, mas sim Leah e Arnold, minha mãe e meu pai. Me emocionei muito. Os atores perceberam e nos abraçamos os três. E o drama que jurei evitar aconteceu já no primeiro dia de filmagem.

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Vencedor do principal prêmio em Toronto do ano passado, o longa de duas horas e 31 minutos é cotado para várias indicações ao Oscar — além de Michelle Williams, Dano, filme, direção e roteiro, são consideradas barbadas as nomeações do jovem Gabriel LaBelle (que vive Sam, alter ego de Spielberg) e Judd Hirsch, na pele do excêntrico tio Boris.

Unanimidade da crítica na Zona Norte do planeta, com aprovação de 91% no Rotten Tomatoes, a produção estimada em US$ 40 milhões fracassou, no entanto, nas bilheterias americanas, faturando até o momento pouco mais de U$ 12 milhões nos EUA. Produtores e estúdio apostam que os polegares levantados no mesmo agregador de resenhas (“The Fabelmans” tem 82% de aprovação de quem o viu nos cinemas), o lançamento mundo afora e o impacto de eventuais estatuetas no Oscar aumentem o fôlego do projeto mais intimista de Spielberg.

Na conta dos títulos “adultos” do diretor, o filme é dedicado a seu Arnold e dona Leah. “Os Fabelmans” é traduzido por Spielberg como “minha quase autobiografia cinematográfica”. O quase, neste caso, é uma concessão feita aos limites da memória do criador de 76 anos, personagem central de Hollywood desde os anos 1970, responsável por “Tubarão” e “E.T.”, “Indiana Jones” e “A cor púrpura”, “A lista de Schindler” e “Jurassic Park”, entre tantos outros.

— Nos meus filmes, eu querendo ou não, minha vida respingou no lado de lá da tela. Mas com “Os Fabelmans” não houve nem metáfora, foi tudo memória mesmo — diz Spielberg.

“The Fabelmans” nasceu durante a pandemia e começou a ser filmado um ano após a morte de Arnold. Com a ajuda do roteirista Tony Kushner (da obra-prima “Angels in América”), seu parceiro em “Munique”, “Lincoln” e “Amor, sublime amor”, Spielberg voltou à infância e reviveu seu período formativo, anos em que viveu perigosamente, filmando, entre outros tópicos, o fim do casamento de seus pais. Literalmente.

Uma das cenas centrais de “Os Fabelmans”é a descoberta por Sam do romance secreto, semiplatônico, entre sua mãe e o melhor amigo do pai, vivido no filme por Seth Rogen. Ela se dá quando o adolescente, já fascinado pelo cinema, filma uma das férias da família. A troca de olhares e os toques furtivos entre Mitzi e Benny (inspirados em Leah e seu segundo marido, Bernard Adler) os entrega na sala de edição improvisada do futuro diretor.

— Um dos motivos para eu dirigir “Os Fabelmans” foi justamente a necessidade que tive de refletir sobre este momento, que se tornou nosso maior segredo, meu e dela — conta Spielberg. — Foi quando deixei de percebê-la apenas como minha mãe e passei a vê-la como uma pessoa. Às vezes, esta epifania acontece quando você tem 40 e seus pais, 65 anos. No meu caso, tinha apenas 16 anos, e aquilo mudou minha vida para sempre.

História sobre perdão

Em um de seus melhores desempenhos, Michelle Williams revela a angústia da pianista que trocou as salas de concerto para criar quatro filhos e apoiar a carreira do marido, gênio da computação, com um olhar para a câmera de Sam, ou melhor, Spielberg. Traição, divórcio, implosão da família, revolta dos filhos, temas já abordados pelo diretor (desde, pelo menos, “Contatos imediatos de terceiro grau”), nunca doeram tanto.

— Ver os atores recriando histórias da minha vida, inclusive quando sofri antissemitismo na escola, foi estranhíssimo. Mas não há vilões em “Os Fabelmans”. Esta é uma história sobre perdão. E sobre o quão importante é o ato de perdoar — diz.

“The Fabelmans” começa numa sala de cinema e termina em um estúdio de Hollywood. Abre com Cecil B. DeMille e fecha com John Ford (papel, não por acaso, do diretor David Lynch). E recria a formação de um Spielberg obcecado, desde cedo, por tentar domar, do lado de lá da lente, o imponderável da vida real. Com final feliz.

O que é fato e o que é exagero no filme

Em inglês, a pronúncia seria a mesma se, em vez de Fabelman, a família inspirada nos Spielberg fosse batizada de Fableman (de “fábula”). Um detalhe mais revelador do que apenas maroto.

— Não quis filmar um espelho meu, de forma vaidosa. Busquei ampliá-lo. Queria que as pessoas identificassem no filme suas próprias famílias, que, como tantas, seguem unidas até não dar mais, até uma separação — diz o diretor.

Mas o que é “real” nas memórias de Spielberg tal qual filmadas pelo próprio? O New York Times fez um guia para os espectadores cravarem “verdade” ou “exagero” nesta quase autobiografia:

A mãe de Spielberg se apaixonou mesmo pelo melhor amigo do pai do diretor?

Sim. Leah se separou de Arnold Spielberg em 1966 para viver com Bernie Adler, amigo do pai de Steven. Os dois se casaram um ano depois. Bernie morreu em 1995, aos 75 anos, Leah em 2017, aos 97, e Arnold em 2020, aos 103.

O diretor descobriu o caso ao editar um filme caseiro de quando todos acampavam ?

Verdadeiro. Em entrevista ao NYT em novembro, Spielberg detalhou “um dos momentos mais difíceis que vivi, aos 16 anos”. E também como penou até decidir reproduzir o romance em “Os Fabelmans”.

Leah tinha um macaco?

A mãe de Spielberg confirmou a história em um documentário da HBO de 2017. E, em entrevista à Hollywood Reporter em 2021, o diretor contou que o pet foi, mais do que uma distração, ajuda terapêutica para sua mãe, em momento “de grande depressão”.

E ela foi uma concertista?

Sim. Leah começou a estudar piano aos 5 anos e se formou no Conservatório de Música de Cincinnati, em Ohio, no Meio Oeste dos EUA. Assim como a Mitz do filme, ela deixou de lado a arte para cuidar dos quatro filhos.

Steven era o único menino judeu na escola secundária?

Provavelmente não, mas o diretor contou em entrevistas que, após se mudarem para a Califórnia, durante o Natal, a “nossa era a única casa sem luzes festivas”, como mostra no filme. Spielberg sofreu bullying na escola, sendo espancado por colegas em atos de antissemitismo. “Foi horrível”, contou ao NYT em 1993.

O adolescente Spielberg conheceu mesmo John Ford, no escritório do diretor de 'Rio Bravo', e este estava cheio de marcas de batom no rosto?

No Festival de Toronto, Spielberg confirmou a lenda. E confirmou que Ford lhe deu mesmo o inusitado conselho destacado em “Os Fabelmans”, sobre como o horizonte deve ser enquadrado: “Acima ou abaixo da cena, jamais no meio.”

Spielberg desistiu de filmar após a separação dos pais?

Não. Mas, aos 16 anos, após ver “Lawrence da Arábia”, épico de David Lean, percebeu que “o nível era muito alto pra mim”. Mas, conta no documentário da HBO, “voltei a ver o filme no cinema uma semana depois, de novo na outra e, quando vi pela quarta vez, decidi que morreria tentando fazer algo tão bom quanto ele”.