'Foi a primeira vez que a torcida se reconheceu no futebol feminino', afirma Aline Pellegrino, capitã da seleção no Pan de 2007

Giulia Costa e Raphaela Ramos
Aline Pellegrino, ex-jogadora de futebol e atual Diretora de Futebol Feminino da Federação Paulista de Futebol

Aline Pellegrino iniciou sua trajetória no futebol aos 15 anos de idade, no São Paulo. Em 2004, vestiu a camisa da seleção brasileira. No ano seguinte, assumiu a braçadeira de capitã, que a acompanharia até sua aposentadoria em 2013, se tornando a jogadora a ocupar a função por mais tempo na história da seleção, tanto feminina quanto masculina. Aos 37 anos, hoje ela é diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol.

Pellegrino jogou a final histórica dos Jogos Pan-Americanos de 2007. A TV Globo reprisa neste domingo, às 16h, a conquista diante de quase 70 mil torcedores no Maracanã, quando o Brasil venceu os EUA por 5 a 0, garantindo a medalha de ouro. Em entrevista ao GLOBO, a ex-jogadora relembra o que esse momento significou para o futebol feminino e analisa o desenvolvimento da modalidade desde então.

Na sua opinião, aquela foi a melhor seleção brasileira da história?

É difícil falar por ter feito parte dela. Mas em relação ao resultado, tudo o que aquela seleção conquistou, e considerando as atletas que estavam lá e até hoje brilham, sem falsa modéstia posso dizer que aquela foi a melhor seleção até hoje. Depois de relembrar o jogo poderíamos fazer um levantamento nome por nome e uma discussão para comparar, assim como fazem muito no masculino.

O que a partida significou para as jogadoras?

Foi muito louco, porque não tínhamos noção do quanto esse jogo entraria na história e o que estávamos escrevendo naquele dia. Foi um marco, um divisor de águas de um futebol feminino que era proibido para as mulheres e que foi desacreditado pelo público brasileiro, nesse que é país do futebol. Foi a primeira vez que a torcida se reconheceu no futebol feminino. Só estavam olhando o desempenho, a plástica, boas jogadas e grandes jogadoras.

O que foi determinante para atingirem esse resultado mesmo sem investimento na modalidade?

Acho que era muita coisa reprimida e aquela era a oportunidade de jogar, mostrar nosso valor. O mínimo de mídia que a gente não estava acostumada a ter também fez diferença. Estávamos naquele campo representando a primeira mulher que lutou para jogar no Brasil. Não tínhamos essa noção, mas estava acontecendo. Tenho certeza que essas mulheres se sentiram representadas.

Além disso, nós conseguimos ter um período de treinamento longo, no centro de treinamento do Vila Nova, e fizemos vários amistosos com times masculinos. Também estávamos com as principais jogadoras desde o início. A preparação prévia permitiu ficarmos muito concentradas e saber da responsabilidade e que éramos favoritas, mas não levar isso como um peso.

O que faltou para esse time deslanchar em termos de títulos depois do Pan?

A gente não tinha o que jogar, não existiam grandes estaduais organizados, Libertadores, nacional. Para quem jogava fora do país era uma realidade diferente, mas aqui não tínhamos competições para manter. Em tese era uma modalidade que não existia, mesmo a gente já tendo medalha e finais de Copa do Mundo. Quando cada uma voltava para o seu time, eram esquecidas.

O que mudou para o futebol feminino desde 2007?

Estamos numa crescente, exatamente porque no final daquele ano, devido aos resultados, veio a Copa do Brasil, que depois se transformou no Brasileirão. Se olharmos para trás, vamos achar que poderia ser mais rápido, mas tem sido sólido, o que é mais importante.

Hoje existe um abismo entre a seleção dos Estados Unidos e a do Brasil. Por que acredita que isso aconteceu?

Acho que o abismo é no resultado final. É a força de mais de 30 anos com o futebol feminino consolidado no país e uma estrutura muito forte. Dentro de campo não é esse abismo. Estamos numa crescente nos últimos 13 anos. Já elas estão há 30. Só a vontade não garante o resultado contra grandes seleções com estrutura por trás.

O Campeonato Paulista é com certeza o mais desenvolvido do futebol feminino brasileiro. Acredita que ter uma mulher no comando faz diferença nesse sentido?

Quanto mais mulheres entendem o que as atletas passaram mais se cria empatia e uma conexão que os homens não conhecem. Eu vivi tudo isso, sei o que é jogar um Campeonato Paulista desde 2000. Vivi tudo o que elas vivem na pele, dentro e fora de campo. Nós fomos proibidas de jogar por 40 anos. Se a gente não podia jogar, porque íamos querer ser técnicas, árbitras ou gestoras? Esse período atrasou muito isso. Mas agora estamos começando a evoluir.