"Foi racismo mesmo", diz homem agredido por PM e xingado de 'lixo' e 'negão' em SP

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Nesta segunda-feira (31), o autônomo declarou ao G1 que a atitude do PM cabo Rodrigo Fernandes de Oliveira, de 35 anos,
Nesta segunda-feira (31), o autônomo declarou ao G1 que a atitude do PM cabo Rodrigo Fernandes de Oliveira, de 35 anos, "foi racismo" (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
  • No sábado (29), o autônomo Kaio Souza, de 33 anos, foi vítima de uma abordagem policial truculenta em Caeieiras, na Grande São Paulo

  • Sob acusação de supostamente dirigir embriagado, Kaio, que é negro, levou um soco no rosto de um policial militar, foi xingado de "lixo" e chamado de "negão"

  • Nesta segunda-feira (31), o autônomo declarou ao G1 que a atitude do PM cabo Rodrigo Fernandes de Oliveira, de 35 anos, "foi racismo"

No sábado (29), o autônomo Kaio Souza, de 33 anos, foi vítima de uma abordagem policial truculenta em Caeieiras, na Grande São Paulo. Sob acusação de supostamente dirigir embriagado, Kaio, que é negro, levou um soco no rosto de um policial militar, foi xingado de "lixo" e chamado de "negão"

Imagens do momento das agressões circularam pela internet durante o último fim de semana. É possível ver Kaio no chão, enquanto é observado por outro agente da polícia. Nesta segunda-feira (31), o autônomo declarou ao G1 que a atitude do PM cabo Rodrigo Fernandes de Oliveira, de 35 anos, "foi racismo".

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"Foi racismo. Fui vítima de racismo por parte desses policiais", disse. "Eu e meus amigos não queremos que isso continue. O tratamento que esses policiais deram na abordagem a gente da raça negra foi nos tratar como 'lixo' e falar: 'Mão na cabeça, negão'. Depois me deu um soco na cara".

Na ocasião, outros dois amigos dele, todos negros também, foram abordados pelos dois PMs por suspeita de que estariam pilotando duas motos com sinais de embriaguez, acelerando e fazendo barulho. Os três rapazes negaram as acusações, mas foram algemados e presos pelos PMs. 

De acordo com o G1, os homens foram levados à delegacia, acabaram indiciados pela Polícia Civil pelos crimes de "embriaguez ao volante, resistência e desobediência". Porém, depois eles foram liberados.

Já o PM que aparece nas imagens agredindo e ofendendo Kaio, cabo Rodrigo Fernandes de Oliveira, não foi detido, mas deverá responder por "lesão corporal decorrente à intervenção policial", segundo a corporação.

Após a divulgação dos vídeos, o cabo acabou afastado preventivamente do patrulhamento nas ruas pela Polícia Militar. A Corregedoria da corporação apura sua conduta e poderá puni-lo.

Ouvidor classifica episódio como "abuso e lesão corporal"

Kaio ainda disse ao G1 que "não estamos mais aceitando isso". "Não temos nada contra a PM. Só queremos Justiça pelo que esses dois policiais nos fizeram", afirmou o autônomo.

O ouvidor Elizeu Soares Lopes classificou a ação policial como "irregular" e afirmou que os dois PMs que participaram dela cometeram os crimes de "abuso de autoridade e lesão corporal". 

Além disso, o rapaz foi vítima de "racismo", segundo o ouvidor, sendo preciso que se apure também o crime de "injúria racial".

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Um dos rapazes abordados pelos PMs publicou um vídeo nas redes sociais explicando o que aconteceu. De acordo com ele, os agentes foram racistas e chamaram o grupo de “neguinhos” e “lixos”. “Você acha que ia ficar alterado ou não?”, questionou. “Não, eu não sou lixo. Eu pago minhas contas.”

O homem explicou que Kaio foi desencorajado até por pessoas próximas a dar queixa contra os policiais. “Tem pessoas próximas dele dizendo que não vai dar em nada. Eles acham que só porque moramos numa região de classe C, periférica, que seja, que não tem contato, que não vai lutar pelos seus direitos, que não vai buscar por justiça. Isso é horrível.”

PM admitiu ter batido no autônomo

Rodrigo não foi localizado para comentar o assunto até a última atualização desta reportagem. Em seu depoimento à Polícia Civil, porém, ele admitiu ter batido no autônomo. Segundo depoimento, ele disse que só fez isso para não usar sua arma quando Kaio se aproximou dele e colocou a mão em seu peito.

"Os nervos estavam à flor da pele (...), no auge de serem agredidos (...), desferiu um soco em Kaio para afastá-lo e para não precisar sacar (...) sua arma de fogo, evitando risco aos envolvidos e a terceiros, inclusive crianças que estavam na rua. Agiu para cessar a situação que estava fora de controle", informa um trecho do boletim de ocorrência com a versão do cabo Rodrigo.

Cabo Oliveira e seu parceiro na abordagem, soldado Dietrich, do 26º Batalhão Metropolitano, registraram o ocorrido. Eles afirmam que foram recebidos com “xingamentos por parte dos abordados, que se negaram a obedecer as ordens emanadas pelos policiais militares, inclusive com claros sinais de estarem embriagados”.

O cabo ainda argumentou que Kaio investiu “diversas vezes” contra ele e que pediu para que o rapaz se afastasse, bem como os parentes dele e pedestres que observavam a ação.