Foi ssim: Surpreendidos, quatro trabalhadores da Ford em Taubaté contam como veem futuro sem a fábrica

Ivan Martínez-Vargas*
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TAUBATÉ (SP) - O fechamento de uma grande indústria, como a fábrica de automóveis da Ford em Taubaté, no Vale do Paraíba paulista, é algo que pouca gente imagina.

A economia local gira em torno desses grandes empreendimentos, que são disputados pelas prefeituras justamente por sua capacidade de gerar empregos, capacitar profissionais e movimentar comércio e serviços locais.

Mas foi justamente esse cenário surpreendente que se materializou esta semana para os 830 funcionários que serão demitidos da fábrica paulista, com a decisão da montadora americana de não mais produzir veículos no Brasil. Outras duas unidades no país fecharão.

Em meio à crise no mercado de trabalho agravada pela pandemia, trabalhadores e familiares temem pelo sustento de suas famílias diante do desafio de construir um futuro diferente.

A seguir, quatro profissionais contam como reagiram ao fechamento da fábrica.

Foi assim

Valter Antunes, 49 anos, nove deles na Ford

"A gente ficou sabendo do encerramento da fábrica pelo grupo do Whatsapp. Ficamos chateados porque aceitamos propostas para reduzir salário e congelar PLR (participação nos lucros) para manter os investimentos da Ford aqui, fora as demissões.

Para mim vai ser difícil. Minha esposa é dona de casa e tenho três filhos morando comigo, sou o esteio da casa.

Fiquei sem chão, não tenho reserva

Estou esperando para saber quanto vou receber. Talvez volte a ser vigilante, profissão que segui por oito anos antes de entrar na Ford."

Foi assim

Ricardo de Paula, 45 anos, nove deles na Ford

"Meu pai trabalhou nesta fábrica por 35 anos. Desde criança eu o acompanhava à portaria da unidade para receber o pagamento, que era feito presencialmente na época.

Ali eu já tinha o sonho de trabalhar até me aposentar aqui

Agora, meu plano é voltar a trabalhar como eletricista, o que fiz por dez anos antes de entrar aqui, mas manter o padrão de vida vai ser impossível.

Pago pensão a dois filhos de 15 e 10 anos, e é praticamente impossível achar algo que pague R$ 6.500, a média da minha função na usinagem."

Foi assim

Jennifer Chiavegati, 25 anos, dez deles na Ford

"Entrei aos 15 anos na Ford como Jovem Aprendiz enquanto fazia um curso no Senai, em 2011. Meu pai se aposentou aqui em 2018 ao aderir a um PDV (programa de demissão voluntária).

Hoje, aos 25 anos, sou uma das poucas mulheres a ser operadora de máquina aqui. Fiz minha vida profissional toda na fábrica, onde conheci meu namorado.

Vou adiar meu casamento, mas não estou desesperada

Fiz graduação em engenharia civil e até agora não exerci. Acredito que não dá mais para ter o plano de vida baseado em um único emprego, quero empreender e atuar na minha área."

Foi assim

Mário Santana, 33 anos, 11 deles na Ford

"Fui muito feliz aqui na fábrica. Cheguei a líder de um time na linha de produção de motores e nunca precisei controlar o ponto do pessoal, que é como se fosse da minha família.

Por toda a fábrica há slogans como ‘sou Ford, tenho Ford’, e eu sempre acreditei

O pessoal sempre teve a ideia de que aqui era uma empresa família.Agora, vou pegar a minha rescisão e tentar me mudar para a Austrália. Quero surfar, melhorar meu inglês e trabalhar por lá."

(* Enviado especial)