'Foi uma coisa desumana, cruel', diz pai de João Pedro, que acompanha reconstituição da morte do adolescente

Gustavo Goulart e Fabiano Rocha
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Agentes da Polícia Civil participam da reconstituição da morte do menino João Pedro, no Morro do Salgueiro, em São Gonçalo
Agentes da Polícia Civil participam da reconstituição da morte do menino João Pedro, no Morro do Salgueiro, em São Gonçalo

A reprodução simulada da morte do menino João Pedro Matos, de 14 anos, ocorrida em maio no Complexo de Salgueiro, em São Gonçalo, começou por volta das 11h desta quinta-feira, dia 29. Entre 50 e 70 policiais civis participam da reconstituição. Afastados, os três policiais da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core), suspeitos de dispararem 72 tiros dentro da casa, devem participar da reprodução. Com uma camisa branca com a foto do filho e a frase "João Pedro eterno", Neilton da Costa Pinto, pai do adolescente, está no local e aguarda com ansiedade os trabalhos. O pai do jovem afirmou que, em nenhum momento, algum representante do governo do Rio apareceu para confortar a família ou pedir desculpas. Ele cobra uma indenização das autoridades.

— Esperamos uma indenização do governo. Isso já deveria ter sido feito. É muita dor. E que no mínimo chamasse a nossa família para pedir desculpas, o que não foi feito. É um erro irreparável. Dinheiro nenhum vai trazer meu filho de volta, a felicidade de volta. Mas eles precisam pagar, de acordo com a lei e com a Justiça — diz.

O pai de João Pedro também voltou a criticar a ação da polícia. Neilton Pinto diz que o cenário dentro da casa foi de guerra e que o que aconteceu foi uma coisa desumana. O adolescente morreu com um tiro nas costas durante confronto numa operação das polícias Federal e Civil no Salgueiro. João Pedro estava brincando com parentes e amigos numa casa que a família usava para lazer.

— Estávamos aguardando essa reconstituição para que o processo venha a ter continuidade. Para que a verdade seja clara. E, com certeza, como os promotores, os peritos e vocês tiveram a chance de entrar na casa, puderam ver que o que aconteceu é surreal. Foi uma coisa muito desumana. Tiraram a vida do meu filho cruelmente. É um cenário de guerra o que tem dentro da casa e, certamente, não era necessário. Se fosse na Zona Sul, eles não agiriam dessa forma — afirma.

Família espera por Justiça

Neilton afirma que a família tem vivido um dia de cada vez, ainda sentindo muita dor e saudade do adolescente de 14 anos. O pai do menino afirma que vai aguardar a Justiça e espera que a mesma seja feita.

— Que a morte do João Pedro não fique impune. Ele era um jovem com um futuro brilhante, cheio de sonhos e projetos. E o estado e o governo federal, que foram feitos para nos proteger, vêm e tiram as nossas vidas. Isso não é normal, tem que acabar — desabafa.

O coordenador de Direitos Humanos da Defensoria Pública, Fabio Amado, disse que a reprodução simulada é uma das últimas etapas de uma investigação, que servirá para afastar versões que não têm nenhum fundamento.

— Para que se possa chegar à verdade dos fatos. É para isso que estamos aqui. A família tem o direito de saber o que aconteceu, quem foi a pessoa que disparou. Os responsáveis precisam ser identificados e responsabilizados por essa morte tão cruel. É fundamental que haja uma integração entre as polícias, uma cooperação para que a população, a sociedade e a família do João Pedro saibam realmente o que aconteceu — diz.

O defensor público explica a reconstituição atrasou em decorrência da pandemia do coronavírus. Ela estava marcada para 10 de junho e foi adiada a pedido do Ministério Público. Mas afirmou que a reprodução e fundamental para que o caso seja resolvido de forma correta.

— Essa reprodução simulada do fato traz a possibilidade de avaliação de todas as versões apresentadas, afastando aquelas que não tenham nenhuma razoabilidade, que não tenham nenhuma possibilidade de serem verdadeiras. Pode trazer mais luz, maior clareza para que o inquérito seja encerrado, para que seja feita denúncia contra o ou os responsáveis. A reconstituição, a reprodução simulada, é, em regra, uma das últimas etapas da investigação, porque ela leva em consideração todos os demais detalhes que foram colhidos. Em razão da pandemia, houve algum atraso na realização, mas ela é fundamental, essencial para que seja resolvido de forma correta em verdadeira esse fato — explica.