'Foi uma violência muito grande', diz professor preso por chamar Bolsonaro de genocida

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RIO DE JANEIRO - O professor Arquidones Bites Leão se deslocava de bicicleta para jogar seu futebol em Trindade, na região metropolitana de Goiânia, quando recebeu nesta segunda-feira (31) uma ligação aflita de sua namorada, que fazia o cabelo em um salão de beleza da cidade. A poucos minutos de distância, ele partiu imediatamente ao encontro da mulher. Ao chegar no local, se deparou com um policial militar que exigia a retirada de um adesivo colocado em seu carro com os dizeres "Fora Bolsonaro genocida".

Leão, que também é secretário estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) de Goiás, se recusou a acatar a ordem do agente, que ameaçou dar voz de prisão. O policial chegou a ler trecho da Lei de Segurança Nacional (LSN), na qual o enquadraria. Questionado se estava chamando o presidente da República de criminoso, o professor respondeu: "Não sou eu, não. São vários deputados, senadores... Eles estão provando na CPI".

Após insistir que não iria retirar o adesivo, Leão foi detido pelos agentes. Um deles chegou a imobilizá-lo com um mata-leão, como mostrou um vídeo que flagrou a abordagem. O professor foi levado para a sede da Polícia Federal em Goiânia, onde prestou depoimento e foi liberado à noite.

— Em momento nenhum me arrependi, mas com medo a gente fica. Foi uma violência muito grande. Eles me derrubaram com uma rasteira. No que eu caí, ele me deu mais dois chutes, não sei se era para me imobilizar, já jogou minha mão para trás, me algemou. Quando me jogou no camburão, ainda me deu dois murros nas costas. Acho desnecessário o que eles fizeram. Em momento nenhum eu esbocei resistência. simplesmente falei e repeti que o presidente da República era genocida — disse Leão ao GLOBO. — Estava indo jogar bola, perdi meu futebol, mas ganhei minha honra.

O professor já havia usado o adesivo, que ganhara do sindicato dos servidores públicos federais, em uma manifestação em Goiânia há cerca de dois meses. No último sábado (29), ele voltou a desfilar com os dizeres estampados em seu carro em novo protesto pelas ruas da capital goiana. Até então, segundo ele, nunca havia passado por qualquer constrangimento.

— Andei em Goiânia e aqui em Trindade todos esses dias. Só tirei uma vez para lavar o carro. Em quase um mês andando com esse adesivo não tinha tido problema nenhum.

Leão participa de uma reunião no fim da manhã desta terça-feira com a presidente estadual do PT-GO, Katia Maria, na qual vão deliberar se ingressam ou não com uma ação pelo ocorrido. Mais cedo, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás anunciou que afastou o policial militar que prendeu o professor. A secretaria chamou o episódio de "lamentável" e disse que o policial responderá a um inquérito policial e a um procedimento disciplinar.

Na nota divulgada nesta terça-feira, o governo de Goiás informou que "não coaduna com qualquer tipo de abuso de autoridade, venha de onde vier" e que "todas as condutas que extrapolem os limites da lei são apuradas com o máximo rigor, independentemente do agente ou da motivação de quem a pratica".

A reportagem questionou a Polícia Militar sobre o relato das agressões por parte dos agentes, mas não obteve retorno até esta publicação.

Ao deixar a sede da PF nesta segunda-feira, Leão foi recepcionado por um grupo de manifestantes. Na ocasião, o professor discursou lembrando a morte do irmão Arquicelso, de 50 anos, vítima da Covid-19. Ao GLOBO, ele contou que ainda perdeu um tio e a sobrinha para a doença.

— Hoje completam 62 dias da perda do meu irmão caçula para a Covid. Na semana passada, perdi uma sobrinha e também já tinha perdido um tio. Além da revolta de mais de 460 mil pessoas que morreram dessa doença, ainda tem uma questão pessoal da minha família. Se o presidente tivesse providenciado a tempo essa vacina, e ele tinha condições de fazer isso, não teríamos tantas mortes. O vírus não é culpa do presidente, mas esse número elevado de mortes é culpa, sim, dele — afirmou Leão.

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