Foliões planejam ir à forra com Carnaval do 'Fim do Mundo', em 2022

ROBERTO DE OLIVEIRA E EMILIO SANT'ANNA
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Vou passar o rodo, meu rei", diz o baiano Neilton Moisés Santos Mercês, 36, jogador de vôlei de praia, certo de que a hora vai chegar. Nesta Terça-Feira Gorda, a mais esquálida e triste de todas, ainda é cedo para garantir, mas dá pra entender. "Aqui em Salvador, a gente curte Carnaval desde o dia que nasce." Após um ano marcado pelo medo, 240 mil vítimas e quase 10 milhões de infectados apenas no Brasil, a chegada, ainda que tímida, das vacinas contra a Covid-19, enche de esperanças que carnavais melhores - do que este, ao menos, que não existiu -virão. O de 2022 pode se tornar a versão do século 21 do Carnaval da revanche -como o escritor Ruy Castro definiu a festa de 1919, logo após a devastação causada no país pela gripe espanhola. Ou ainda, paradoxalmente, para muitos pode ser uma espécie de Carnaval do "fim do mundo", como se a Quarta de Cinzas não fosse nunca chegar. E O Mundo Não se Acabou, samba de Assis Valente imortalizado por Carmen Miranda, pode até não tocar, mas a ideia de Neilton, que teve Covid, parece seguir por aí. "Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada Por causa disso, nessa noite, lá no morro nem se fez batucada... ...Beijei a boca de quem não devia Peguei na mão de quem não conhecia Dancei um samba em traje de maiô E o tal do mundo não se acabou" "Vou badalar tudo. Todo o mundo vai ser Camaleão", diz Neilton, referindo-se ao tradicional bloco comandado pelo cantor Bell Marques, ex-vocalista da banda Chiclete com Banana, que costuma arrastar multidões de foliões pelas ruas da capital baiana. Assim como Neilton e boa parte dos brasileiros, a produtora Mayara Rodrigues, 28, mergulhou numa espécie de retiro forçado durante a pandemia. "Não fui a nenhuma festa. Tampouco tive contato com praticamente ninguém fora da família", diz ela que, para piorar, deixou a casa dos pais durante a pandemia e foi morar sozinha num apartamento, em São Bernardo do Campo, na Grande SP. Carnavalesca, Mayara é acostumada a lidar com gente de todos os tipos e gêneros desde 2017, quando começou a trabalhar com eventos. "O que mais sinto falta é do contato com as pessoas. De ir às festas, da ferveção", afirma. Festas de rua no interior, desfiles do sambódromo, em São Paulo, cada Carnaval era um espetáculo diferente para ela. "Sempre gostei de me maquiar, me produzir, mudar o cabelo, o visual, para entrar no embalo da festa. Tudo isso está aprisionado em mim. Não vejo a hora de dar vazão a esses desejos, a toda essa energia, ao tesão e à libido reprimidos", desabafa. Por isso, ela acredita que o Carnaval 2022 será o momento para "tirar o atraso", o "Carnaval da libertação". "Quero sair nua, só com tapa sexo, num desfile da minha escola de samba, a Gaviões da Fiel", diz. "Quero beijar muita na boca, ficar com os amigos, pegar os amigos dos amigos. Não quero saber de freio nem de censura, por favor. Não me interessa se serão quatro dias de folia, meu desejo é ficar dez dias longe de casa, só curtindo." Quando o assunto é festa, Luciano Caturelli é quase irmão gêmeo de Mayara. Nascido e criado em Dumont, cidade com pouco mais de 10 mil habitantes a cerca de 320 km de São Paulo, não perde Carnaval algum - exceção à tristeza de Momo deste ano. Lá onde mora é comum ter trio elétrico na festa de rua, sem hora para acabar. Quando não tem, os próprios moradores abrem o porta-malas dos carros e transformam numa "grande farofada", nas palavras dele. Enquanto espera por sua hora na fila da vacina, ele faz planos, se o mundo não se acabar. "Primeiramente, quero estar vivo, vacinado e ao redor de muita gente. No ano que vem, teremos o Carnaval da aglomeração dos imunizados", diz ele, que trabalha como empacotador numa fábrica. Acrescenta: "Fico até sonhando em abraçar todo mundo, sou muito carinhoso. Quero sair beijando e caprichar muito no atendimento [gíria gay de conotação sexual que dispensa explicação] para os clientes voltarem." Luciano, que não quis dizer a idade ("Quer pergunta é essa? Que coisa mais cancelável"), quer passar longe das máscaras, mesmo as de fantasia. "Não suporto mais viver com isso na cara. Quero respirar. Pode escrever aí, no Carnaval 2020, até música clássica vai virar samba." Claro, nem todos vão pular o próximo Carnaval como se fosse o do fim do mundo. Em Belo Horizonte, o produtor de eventos Zé Pedro Leite Fontes, 38, vai lembrar mais mesmo outro samba de Assis Valente também tornado imortal por Carmen Miranda. "Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu parati Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão E sorria quando o povo dizia: sossega leão, sossega leão" "Nossa Senhora, vou [me] emocionar, com certeza", diz. "O povo tá carente desse contato. É como quando você não come há muito tempo. Quando comer, vai até chorar." Para ele, a emoção vai ser dupla: o povo aglomerado na rua, encostando, abraçando, beijando, suando sem medo vai ser festa e sinal de que seu trabalho também está liberado. No Rio, o relações públicas e também mineiro Ernesto Magalhães, 37, é outro que vai se jogar na folia. Para ele, Carnaval algum nunca vai ser o do fim do mundo. "Sempre tem alguma coisa para ser criada [na festa]", diz. Neste ano, ele e um amigo criaram um bloco virtual, o FoliON. Fizeram uma série de vídeos e lives e mantiveram a alegria carnavalesca em stand by. Para 2022, Ernesto -que já participou da Orquestra Voadora- sonha em transformar o virtual em real e levar o bloco pra rua. E mesmo que o mundo não se acabe, ele garante: "Vou dançar feliz em traje de maiô mesmo sabendo que o mundo não se acabou."