Folia das ruas vai para o mar: procura por barcos cresce e também preocupa no Rio

Louise Queiroga
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Se, por um lado, as reservas em hotéis no Rio diminuíram para este carnaval com relação ao anterior em razão da pandemia e as medidas por ela impostas de distanciamento social, e consequentemente o cancelamento dos desfiles em fevereiro na Sapucaí, o turismo náutico vê crescer a procura pelo aluguel de embarcações para passeios nas praias do litoral fluminense. Esta foi a percepção passada por três empresas do setor marítimo procuradas pelo EXTRA: Lanchateahupoo, na Costa Verde; Rio Island Boat Tour, na Região Metropolitana; e BR Marinas, nos municípios de Angra dos Reis, Paraty, Itacuruçá, Rio de Janeiro e Búzios.

A Lanchateahupoo informou que viu o mercado triplicar desde que o setor de turismo foi reaberto após a flexibilização do governo estadual. Em especial, a procura pelo aluguel de embarcações ficou mais movimentada a partir de agosto.

De acordo com a BR Marinas, o crescimento do turismo náutico é mostrado pelo aumento de 60% na busca pelo aluguel de embarcações para passeios de um dia na Marina da Glória durante a alta temporada de verão, se comparados os períodos do início de 2020 e de 2021. Nas outras marinas do grupo, a taxa de crescimento foi de aproximadamente 70% nesse mesmo intervalo. Em Angra dos Reis, especificamente, o aumento foi de 15% na procura, enquanto na Marina da Glória, foi de 10%. Para o carnaval, 80% dos barcos já estão reservados e, em algumas marinas, a taxa de ocupação das vagas chega a 100% para o período da folia.

O aumento da procura por esse tipo de serviço de turismo é comemorada pelo mercado marítimo. Segundo a Doce Angra Turismo, que atua há 20 anos em Angra dos Reis, as restrições para viagens internacionais acabaram estimulando o turismo interno no Brasil, o que por sua vez deu força ao aluguel de barcos. A empresa tem 16 embarcações na Costa Verde, sendo a maioria já está reservada para o período do carnaval. O perfil de quem aluga é familiar, com pessoas que já convivem em uma mesma casa. A lancha mais procurada normalmente comporta até 18 pessoas, mas como medida de segurança durante a pandemia, teve a sua capacidade limitada em 50%.

De acordo com Antonio Wöllner, proprietário da Rio Island Boat Tour, o ano de 2020 havia começado bem, nos meses de janeiro e fevereiro, equivalentes à alta temporada do setor. No entanto, com a chegada da pandemia, veio a fase "mais dura", conforme ele avaliou. Wöllner contou que o movimento nos meses de março, abril, maio e junho do ano passado chegou a zero.

— Continuamos com nossos custos de marina, manutenção, marinheiros e demais custos administrativos. Mesmo assim não demitimos ninguém — disse o empresário.

Cláudio Wilson, diretor comercial da BR Marinas, lembrou que nos primeiros meses de isolamento social houve uma queda na procura por passeios de barco.

— Com o tempo, no entanto, as pessoas perceberam que o mar poderia ser uma alternativa segura de lazer. Longe de aglomerações das praias ou dos parques, o carioca passa os dias em segurança em um dos cenários mais bonitos do Brasil — ressaltou.

Embora a reabertura do serviço tenha acontecido fora da alta temporada, Wöllner se surpreendeu com a volta dos clientes no mês de julho, que normalmente, de acordo com ele, não atrai tantos brasileiros. Em anos anteriores, os clientes no início do segundo semestre costumam ser estrangeiros residentes do hemisfério Norte que viajam nas suas férias de verão.

— Escutamos histórias emocionantes de clientes que não pegavam sol há meses, que não tinham varanda em casa, por exemplo, e nos agradeceram demais pelo passeio — relatou Wöllner, demonstrando também gratidão pelos funcionários que foram mantidos durante o período mais difícil e agora têm clientes para quem possam realizar seus serviços.

Conforme a BR Marinas informou, a indústria náutica gera, em média, sete empregos por barco construído. Em operação, um barco oferece de dois a quatro empregos permanentes, dependendo do seu tamanho. Assim como a BR Marinas, a Rio Island Boat Tour está com 80% das lanchas já reservadas para a semana de 14 a 20 de fevereiro, que engloba o que seria a festa das ruas, mas muitos moradores — não só do estado do Rio, como também de Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal — agora acabam preferindo levar a folia para o mar com suas famílias.

Wöllner contou que turistas dessas localidades têm procurado as embarcações de sua empresa desde novembro. Para ele, as pessoas "viram o passeio de barco e lancha privativo como uma opção de lazer segura". As embarcações de maior sucesso são as com capacidade para cinco a dez passageiros, recebendo grupo de uma ou duas famílias.

— E foi muito legal essa retomada — afirmou. — Fizemos uma comunicação bacana com a nossa base clientes e no Instagram mostrando que estávamos seguindo os protocolos de segurança.

O processo, segundo o dono da Rio Island Boat Tour é simples, principalmente se o cliente tiver um carro, pois basta estacionar o veículo, na área da Marina da Glória ou na Urca, e embarcar na lancha, previamente higienizada. Não há necessidade de dispor de licença para conduzir o barco, pois a agência oferece marinheiro, que usa máscara de proteção durante o passeio por causa da pandemia. De lá, os destinos podem ser escolhidos entre Baía de Guanabara, praias do Rio ou Niterói, ou as ilhas Cagarras.

Para dar ainda mais segurança a quem busca o lazer náutico, a Marina da Glória lançou o selo “Vista pro Rio”, uma espécie de certificado que aponta os operadores que estão em linha com os protocolos de higiene e comportamento estabelecidos pela administração do espaço em conjunto com a Capitania dos Portos e a Guarda Municipal Marítima. Entre as medidas estabelecidas para se receber o certificado estão o comprometimento com a higiene da embarcação, disponibilização de álcool em gel e redução da capacidade de passageiros.

Apesar do aquecimento do setor, este aumento já preocupa as autoridades. Só neste domingo, a Guarda Marítima Municipal cancelou 42 passeios com festas, incluindo uma de 15 anos, e fiscalizou cerca de 40 embarcações de grande e médio porte na Marina da Glória, sendo que seis estavam prontas para sair e foram impedidas por não possuírem alvará municipal para transporte de passageiros com remuneração ou por atividade turística.

A fiscalização cumpre o que determina o Decreto 48.500, de 4 de fevereiro de 2021, que estabelece normas para o uso de áreas públicas e para o exercício de atividades econômicas. Outras embarcações também foram abordadas e orientadas pelos agentes com a distribuição de cópia do decreto e da resolução.

Com a ação, a Guarda Municipal espera que nos próximos dias todos os eventos e festas sejam cancelados, porque a fiscalização continuará sendo realizada no mar pelas equipes de operações marítimas. Agentes do Subgrupamento de Operações Náuticas seguem atuando em ação conjunta com a Capitania dos Portos para fiscalizar embarcações.