Fome, dívidas e incertezas: quais as emergências econômicas para 2023?

Fome: no Brasil, 61,3 milhões (3 em cada 10 habitantes) convivem com algum tipo de insegurança alimentar. Destes, 15 milhões se encontravam em insegurança alimentar grave, passando fome, no período de 2019 e 2021. REUTERS/Ricardo Moraes
Fome: no Brasil, 61,3 milhões (3 em cada 10 habitantes) convivem com algum tipo de insegurança alimentar. Destes, 15 milhões se encontravam em insegurança alimentar grave, passando fome, no período de 2019 e 2021. REUTERS/Ricardo Moraes
  • O Yahoo Finanças conversou com especialistas da área econômica para avaliar em quais pontos a população deve ficar de olho para 2023;

  • Economista da FGV Social, avalia que a situação é de incertezas;

  • Fome bate recorde: 3 em cada 10 habitantes convivem com algum tipo de insegurança alimentar.

A pouco mais de 2 meses para as Eleições, a urgência do bolso dos brasileiros aperta ainda mais. Com a fome e o desemprego tendo números recordes no país, as incertezas aumentam e geram dúvidas sobre a próxima gestão presidencial.

O Yahoo Finanças conversou com alguns especialistas da área econômica para avaliar em quais pontos a população deve ficar de olho, além de se preparar para o cenário de 2023. Marcelo Neri, economista do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV Social), avalia que a situação é de incertezas, já que não temos um cenário não é apenas de desigualdade, e sim de pobreza instável.

"Me parece que estamos entrando numa fase em que as coisas podem dar uma melhorada, mas não é uma melhorada que veio pra ficar", declara.

  • A insegurança alimentar dos brasileiros nunca foi tão alta

No Brasil, 61,3 milhões (3 em cada 10 habitantes) convivem com algum tipo de insegurança alimentar. Destes, 15 milhões se encontravam em insegurança alimentar grave, passando fome, no período de 2019 e 2021, aponta relatório das Nações Unidas. Em comparação com os demais países da ONU, o Brasil é o que tem mais pessoas em algum grau de insegurança alimentar (moderada ou grave) nas Américas e o quinto no mundo, no período até 2021.

Além do número exorbitante, o estômago ronca mais em endereços específicos: a cada 10 lares chefiados por mulheres ou por pessoas negras de ambos os gêneros, 6 sofrem com restrição a alimentos, de acordo com pesquisa da Rede PENSSAN. "[A fome] Aumentou muito, não só no geral do país, mas entre os mais pobres, principalmente entre as mulheres: um fenômeno de feminização da fome", ressalta Marcelo Neri.

A alta dos últimos anos é latente: entre 2014 a 2016, 37,5 milhões passavam por algum nível de insegurança alimentar e 3,9 enfrentavam o nível grave.

"Entre 2019 e 2021 houve um aumento de 9,6 milhões de pessoas na linha abaixo da pobreza - o equivalente a população de Portugal. A agenda da PEC Eleitoral tenta atacar esse problema dando um auxilio de R$ 600 ao invés de R$ 400: é um auxílio generoso, mas dura pouco. Uma verdadeira era das incertezas: não é só um problema da desigualdade e pobreza alta, mas uma pobreza instável que agrava mais o problema", analisa.

Não é só um problema da desigualdade e pobreza alta, mas uma pobreza instável que agrava mais o problema.

  • Gasolina mais barata versus desabastecimento

Outro grave problema - e digno de meme - é o preço dos combustíveis. De 2015 para cá, quem vai ao posto para abastecer pagou R$ 3,287 na gasolina (valor médio em outubro de 2015, segundo a ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis), e hoje chega a pagar cerca de R$ 8,00, com relatos de que o litro chegou na casa dos R$10. Em julho deste ano, todos os 26 estados e o Distrito Federal haviam anunciado a redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) sobre combustíveis, tornando, assim, o combustível mais barato para o consumidor final.

Aos poucos, os motoristas viram reduções tímidas na hora de encher o tanque. O preço médio do litro da gasolina caiu de R$ 7,127 para R$ 6,49, uma diminuição de 8,98%; já quem abastece com diesel teve redução menor ainda: o valor médio do litro passou de R$ 7,554 para R$ 7,52, queda de 0,40%. No caso do etanol, o litro passou de R$ 4,723 para R$ 4,52, uma queda de 4,24%.

"Houve uma queda de 5% no ano passado, embora o preço tenha subido 20% nos últimos 12 meses. É uma situação em que se coloca o combustível artificialmente mais baixo, podendo gerar um problema de abastecimento. É algo que leva uma certa turbulência política, mas não tem solução fácil. Todas as soluções têm ganhos e custos: você tenta controlar o preço da gasolina, por definição você diminui a inflação dos combustíveis; por outro lado você cria problema de desabastecimento e incertezas", avalia o economista da FGV.

  • Auxílio vai acabar?

Com o anúncio de que o valor do Auxílio Brasil terá um salto de R$ 400 para R$ 600, muitas famílias brasileiras viram uma perspectiva de ter uma renda melhor para custear gastos básicos, como alimentação e contas da casa. Uma estimativa da Abras, associação que representa os supermercados no Brasil, aponta que as famílias brasileiras deverão gastar de 50% a 60% dos recursos extras disponibilizados por meio dos auxílios aprovados na PEC dos Benefícios com compras em supermercados.

Em paralelo, o aumento pode virar frustração. O governo federal regulamentou o aumento temporário do Auxílio Brasil para R$ 600, começando em agosto e finalizando em dezembro deste ano. Os valores serão distribuídos de acordo com o calendário do programa, utilizando os mesmos meios de depósito.

Neri comparou o cenário de instabilidade ao que ocorreu com o Auxílio Emergencial, liberado em 2020 por conta da pandemia da Covid-19. "A população tem que ficar de olho para reconhecer o que é transitório e o que é permanente. Quando entrou o Auxílio Emergencial de R$ 600, a pobreza caiu cerca de 23 milhões em 6 meses, apesar da pandemia. Mas depois que foi suspenso, em janeiro de 2021, a pobreza subiu mais de 25 milhões", recorda.

A população tem que ficar de olho para reconhecer o que é transitório e o que é permanente.

  • Brasileiros não fecham as contas e dívidas aumentam

As dívidas atrasadas já fazem parte da rotina do brasileiro: há 66,6 milhões de pessoas inadimplentes no país, - cerca de 31% da população, conforme mostram dados do Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor. O principal motivo é o descontrole inflacionário, com o país há 10 meses com a inflação acima de dois dígitos, e à escalada da taxa Selic, que chegou ao patamar de 13,25% em junho deste ano.

Para aliviar os boletos no fim do mês, brasileiros recorrem a empréstimos para fechar o mês no azul. Porém, os juros, mesmo que fixados, podem ser vilões na hora de pagar a conta.

Uma das mais recentes modalidades anunciadas - ainda aguarda sanção do governo federal foi a do crédito consignado para os beneficiários do Auxílio Brasil. O texto estipula um limite de até 40% do valor recebido por meio do programa assistencial, e também vale para outros programas, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Neri avalia que há perigo nesse tipo de recurso. "O crédito consignado, por um lado, é mais barato. Mas pode gerar um endividamento quando as rendas das pessoas caem nominalmente e mais ainda em tempos em que a inflação está alta. Estamos entrando numa fase, onde as coisas podem dar uma melhorada, mas não é uma melhorada que veio pra ficar", explica.

O economista acredita que é um exemplo da modalidade de crédito a ser liberada para quem recebe o Auxílio. Vale lembrar que quem tem direito ao benefício são as famílias na extrema pobreza (renda familiar per capita até R$ 100), e as que estão na pobreza ( entre R$ 100,01 a R$ 200,00).

"Você entrega boas notícias antes da Eleição e entrega piora ou a conta relacionada depois dela. A agenda de crédito consignado acaba sendo um pouco isso: obviamente, quando a pessoa recebe o crédito, ela tem um ganho, ela relaxa o orçamento e ela pode consumir mais. Mas depois ela tem que pagar essa dívida, e as taxas de juros básicas no Brasil estão em um nível alto, então carrega os seus problemas", finaliza.

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