Fome e massacres deram fim à última grande metrópole maia

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Mudança climática, conflitos internos e colapso político: a lista de desgraças poderia ser usada para caracterizar alguns países do século 21, mas também descreve o que parece ter acontecido na cidade de Mayapan, a última grande metrópole da civilização maia, na primeira metade do século 15 d.C., de acordo com um novo estudo.

Combinando dados arqueológicos, históricos e climatológicos, os autores da pesquisa propõem que uma fase de secas prolongadas teria desestabilizado a economia da capital, dividindo seus 20 mil habitantes em facções lideradas por famílias nobres e, por fim, levando a uma guerra civil e ao abandono da cidade.

Não foi o fim dos maias -os invasores espanhóis ainda encontraram cidades dessa civilização quando desembarcaram no atual México no século seguinte-, mas nenhum centro político voltaria a ser tão poderoso na região depois da queda da metrópole.

O perfil detalhado do colapso de Mayapan acaba de sair em artigo na revista especializada Nature Communications. Assina o trabalho uma equipe internacional de pesquisadores liderada por Douglas Kennett, do Departamento de Antropologia da Universidade da Califórnia em Santa Barbara.

Kennett também é autor de um estudo importante sobre outra fase apocalíptica da civilização maia, que se desenrolou bem antes, por volta do ano 1000 d.C., dando cabo de diversas cidades. "Alguns processos semelhantes estavam acontecendo naquela época, no que diz respeito ao papel da seca como algo que solapou a economia agrícola maia, mas a desintegração das cidades-Estado desse período se desenrolou ao longo de centenas de anos, impactando a integração entre elas de maneiras muito mais complicadas", compara ele.

No caso de Mayapan, fundada por volta do ano 1150 (a época das Cruzadas na Europa), os pesquisadores contavam com duas "máquinas do tempo": rochas calcárias de uma caverna a 12 km da cidade e as camadas de sedimentos no fundo de um lago subterrâneo a 27 km da antiga metrópole.

A composição química de ambos os tipos de amostra, bem como o grau de salinidade dos sedimentos da lagoa, indicam que uma sucessão de secas passou a afetar a região a partir de 1350. De 1400 até 1430, segundo as estimativas dos pesquisadores, a secura se tornou tamanha que uma estalagmite da caverna parou de crescer. Esse tipo de estrutura, basicamente um pilar de rocha que se estabelce no chão da gruta, só se forma quando a umidade do teto da caverna derrama pingos de água no solo, os quais carregam minerais em sua composição. Portanto, sem chuva, as estalagmites tendem a não se formar.

A esse cenário de seca prolongada, que provavelmente afetou muito as lavouras de milho que eram a base da economia e da alimentação dos maias, somam-se várias pistas sobre encolhimento populacional e conflitos. Dados sobre sepultamentos em Mayapan, com datações precisas de esqueletos encontrados na cidade, indicam que a população começou a diminuir a partir de 1350 (afinal de contas, com menos gente morando na cidade, menos gente era enterrada lá também).

Entre as indicações trazidas pelos esqueletos, no entanto, há coisas bem mais tétricas do que meros sepultamentos individuais. Também há vários casos de valas comuns, covas rasas nas quais dezenas de pessoas foram jogadas junto com fragmentos de cerâmica, apresentando sinais de violência como facas de pedra enfiadas em costelas, esquartejamento e queima. De novo, as datas dessas valas comuns batem com o período de crise e colapso da cidade.

"A composição química dos restos mortais nas covas rasas é comparável à da população geral de Mayapan, e temos evidências preliminares de DNA indicando que alguns dos indivíduos eram aparentados entre si, o que sugere que eram famílias do local, e não estrangeiros capturados na guerra", diz o pesquisador americano. No fim das contas, a fome e os massacres teriam feito com que os últimos habitantes abandonassem a cidade.

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