Fome e pandemia fazem crescer rede de cozinhas comunitárias em Uberlândia

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UBERLÂNDIA, MG (FOLHAPRESS) - No terreno de terra batida, sob o sol quente, a fila para receber o almoço já se mostra grande às 9h no acesso à cozinha comunitária da ocupação Fidel Castro, área invadida em 2016 pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), na periferia de Uberlândia, em Minas Gerais.

Recentemente, a rede de cozinhas comunitárias se expandiu no município do Triângulo Mineiro. Isso aconteceu devido ao grande aumento de famílias que durante a pandemia não conseguem mais pagar aluguel e acabaram procurando ocupações para morar. O aumento da fome também foi outro fator que contribuiu.

Até agosto de 2019, antes do início da pandemia, a cidade contava com uma cozinha comunitária, que atendia principalmente moradores de favelas ou assentamentos localizados no bairro Dom Almir, no extremo da zona leste da cidade

Hoje são ao menos sete cozinhas --quatro do MTST, uma de uma Igreja Católica e outras duas de demais grupos sem teto.

Juntos, esses espaços preparam cerca de 2.000 refeições diárias. Cerca de 50% das marmitas são enviadas à população de rua. O número produzido, porém, não é exato; devido à falta de embalagens, a maioria das pessoas leva o almoço nas vasilhas e distribui para os familiares.

"Venho todo dia mais cedo, porque depois vou andando com as crianças até a escola, que fica em outro bairro", diz Lívia Batista da Silva, 37, que pega refeições para os dois filhos, a sogra e o marido na cozinha da Fidel Castro. É ele quem sustenta a família, quando consegue trabalho de ajudante de pedreiro.

Para garantir o almoço no local, as pessoas começam a chegar a partir das 7h30 trazendo vasilhas de plástico, panela ou apenas pratos. Mas não há garantia de almoço todos os dias.

Entre as 78 cozinheiras voluntárias das sete cozinhas comunitárias, as mensagens pelos aplicativos por vezes são desencorajadoras, como a enviada pela voluntária Índia, no dia 14 de outubro: "Passando pra informar que infelizmente hoje não haverá distribuição de refeições aqui no SOS Dom Almir pelo motivo de falta de alguns ingredientes no dia de hoje. Se aparecer doações amanhã retornaremos às atividades normais".

Até o final de 2019, no SOS Dom Almir, a então única cozinha do gênero em Uberlândia, a produção de marmitas era limitada. A comida não tinha hora para chegar.

"Às vezes, o almoço chegava na janta e vinha pouca quantidade se comparado com o que produzimos hoje", conta Ducilene Dias Costa. Moradora da ocupação Fidel Castro, ela cedeu a própria casa para começar a cozinha que hoje funciona em um terreno próximo.

Geralmente o cardápio oferece arroz, feijão, macarrão e legumes. "O pessoal reclama que falta proteína, mas estamos priorizando o básico", diz a assistente social aposentada Lilian Machado de Sá, que funciona como elo entre os que podem doar e quem precisa receber.

Para abastecer os sete espaços e garantir a produção das cerca de 2.000 marmitas diárias, as cozinhas contam com a doação de alimentos e de verbas de entidades, organizações religiosas e sindicatos do município.

São elas: Pastoral da Terra, MST, SindEletro, Frades Franciscanos pelo Mundo, Central dos Movimentos Populares, Grupo dos Atingidos pela Covid e Sintet.

Qualquer pessoa pode doar alimentos para as cozinhas comunitárias de Uberlândia, através de uma dessas entidades. Há, ainda, uma conta da Central de Movimentos Populares.

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