Força curdo-árabe conquista reduto do EI e "califado" chega ao fim

Por Rouba EL HUSSEINI
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Uma combatente das Forças Democráticas Sírias (FDS) faz o V da vitória no campo de petróleo de Omar, leste da Síria, após o anúncio do fim do "califado" do grupo EI

O "califado" autoproclamado do grupo extremista Estado Islâmico (EI) caiu neste sábado, quando as forças curdo-árabes apoiadas pelos Estados Unidos conquistaram na Síria o último território controlado pela organização extremista.

Para celebrar a vitória, os combatentes das Forças Democráticas Sírias (FDS), a força curdo-árabe que lidera a luta antijihadista na Síria, hastearam sua bandeira amarela na localidade de Baghuz, leste da Síria, onde os extremistas resistiram até o fim.

Nas proximidades de Baghuz, em Al-Omar, um campo de petróleo usado como base da ofensiva antijihadista, homens e mulheres que integram as FDS, nas quais predominam os curdos, comemoravam com o dabke, uma dança tradicional. Uma banda militar tocou o hino americano.

"As FDS anunciam a total eliminação do suposto califado e uma derrota territorial de 100% do EI", declarou o porta-voz da aliança curdo-árabe, Mustefa Bali.

O presidente Donald Trump também saudou neste sábado o fim do "califado" do grupo Estado Islâmico (EI) e prometeu que os Estados Unidos permanecerão "alertas" à principal organização jihadista do mundo.

"Nós permaneceremos alertas (...) até que (o EI) seja finalmente derrotado, onde quer que seja", disse Trump em um comunicado. "Continuaremos a trabalhar com nossos parceiros e aliados para esmagar completamente os terroristas islâmicos radicais", acrescentou.

A perda do pouco que restava em seu último reduto significa o fim territorial do EI na Síria, após sua derrota no vizinho Iraque em 2017. Mas comandantes curdos e ocidentais consideram que o combate não chegou ao fim.

Depois de assumir o controle de amplas regiões na Síria e Iraque, o EI proclamou em junho de 2014 um "califado" em um território equivalente ao tamanho do Reino Unido, no qual instaurou sua própria administração, arrecadou impostos e iniciou uma campanha de propaganda para atrair estrangeiros.

A organização extremista, a mais brutal da história contemporânea, espalhou o terror com decapitações, execuções em massa, sequestros e estupros. Também raptou e decapitou estrangeiros, reivindicou atentados na Síria, assim como em outros países árabes ou asiáticos e inclusive no Ocidente, além de ter destruído tesouros arqueológicos.

Os combates foram violentos com os extremistas que permaneceram entrincheirados em uma pequena faixa territorial às margens do rio Eufrates, na província de Deir Ezzor, perto da fronteira com o Iraque.

- Nova fase -

"Os entrincheirados até o fim eram sobretudo estrangeiros: tunisianos, marroquinos e egípcios", afirmou Hisham Harun, combatente das FDS de 21 anos.

No local era possível observar os vestígios de um acampamento improvisado dos extremistas, com barras de ferro, barracas e carros incendiados.

Também há corpos, provavelmente de jihadistas, mas se ignora o que aconteceu com os combatentes do EI que eram observados na sexta-feira à noite.

Em uma cerimônia em Al-Omar para festejar a vitória, o comandante supremo das FDS, Mazlum Kobane, afirmou que o fim do "califado" marca "o início de uma nova fase na luta contra os terroristas", que consiste em acabar com as células adormecidas dos jihadistas, "grande ameaça para nossa região e o mundo inteiro".

No mesmo evento, o emissário americano para a coalizão internacional anti-EI liderada pelos Estados Unidos, William Roebuck, falou de uma "etapa crucial" na luta contra a organização jihadista.

A ofensiva das FDS contra Baghuz, iniciada em fevereiro, foi a última fase de uma operação lançada em setembro de 2018.

A campanha militar, apoiada por bombardeios aéreos da coalizão internacional, teve que reduzir a velocidade de seu avanço para permitir a saída da região de dezenas de milhares de pessoas.

Desde janeiro, mais de 67.000 pessoas saíram do reduto do EI, incluindo 5.000 jihadistas que foram detidos, de acordo com as FDS. Os civis, sobretudo parentes de extremistas, foram levados para acampamentos, principalmente em Al-Hol (nordeste), onde vivem em condições difíceis.

Em seis meses de combates, mais de 630 civis, entre eles 209 crianças e 157 mulheres, morreram na ofensiva, de acordo com a ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH). Também perderam a vida 1.600 jihadistas e 730 combatentes das FDS.

A batalha contra o EI era a principal frente de guerra na Síria, que provocou mais de 370.000 mortes desde março de 2011. O regime de Bashar al-Assad, apoiado por Rússia e Irã, reconquistou quase dois terços do país.

A guerra na Síria, provocada pela repressão a manifestações que pediam democracia, se tornou um conflito complexo ao longo dos anos com o envolvimento de potências estrangeiras e de grupos jihadistas.