Força-tarefa de cientistas pede aumento de 5,5 vezes no gasto para prevenção de pandemias

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SÃO PAULO - Uma força-tarefa internacional de cientistas lança hoje um relatório avaliando o risco de o planeta enfrentar uma nova pandemia, com recomendações para evitá-la. A receita oferecida consiste sobretudo em medidas que restrinjam o contato de pessoas com animais hospedeiros de vírus, e o custo delas é barato: US$ 22 bilhões por ano, o equivalente a apenas 2% das perdas econômicas globais provocadas pela Covid-19.

O documento produzido pelo grupo de pesquisadores, liderado pelo Instituto de Saúde Global da Universidade Harvard, de Cambridge (EUA), colocou foco no problema do chamado spillover (transbordamento, em tradução literal). Esse é o termo técnico que biólogos usam para descrever o evento de transmissão de vírus ou outros agentes infecciosos de um animal para um humano.

Um spillover esteve na origem da pandemia de Covid-19 e da maioria das outras epidemias com origem conhecida. Para prevenir isso, dizem os cientistas, é preciso não apenas monitorar frentes que oferecem maior risco, mas deter atividades predatórias que não oferecem nenhum benefício econômico global, sobretudo o desmatamento e o tráfico de animais silvestres.

O mundo registra em média dois eventos de spillover por ano, segundo o relatório, mas é difícil prever de antemão quais desses episódios ficarão circunscritos a um ou dois casos, quais se tornarão epidemias locais e quais se tornarão pandemias. Alguns hospedeiros merecem especial atenção da vigilância epidemiológica, afirmam os cientistas, sobretudo morcegos, roedores, macacos e aves aquáticas.

Mas só metade dos vírus que saltam para humanos sai da natureza. O resto são patógenos de animais domesticados. Na pecuária, grandes rebanhos aglomerados oferecem farta oportunidade de mutação e disseminação de agentes infecciosos com risco de contágio para pessoas. Esse setor, dizem os cientistas, se beneficiaria da mudança de algumas práticas e requer uma estrutura mais robusta de monitoramento no mundo todo.

Segundo os pesquisadores, o investimento feito para mitigar esses problemas todos é atualmente de US$ 4 bilhões, e não está à altura dos US$ 4 trilhões de prejuízo global que uma pandemia como a da Covid-19 pode provocar. Multiplicando o valor por 5,5 o planeta poderia reduzir senão ao todo, ao menos a maior parte do risco de novos spillovers.

Cortando o mal na raiz

Aaron Bernstein, professor de Harvard que coordenou a força-tarefa, explica que já existem muitas medidas em prática para conter o espalhamento de futuros patógenos, mas a maior parte do aparato se concentra em frear a epidemia depois que o spillover acontece em primeiro lugar.

— Todos os formuladores de políticas que consideram gastar um pouco mais para conservar florestas ou coibir o tráfico de animais silvestres querem saber qual o tamanho do investimento necessário, e precisam de uma resposta clara — afirmou o pesquisador ao GLOBO.

— Se levarmos em conta aquilo que perdemos com a Covid-19, mesmo que esse valor seja diluído ao longo de um século, um programa de conservação de florestas só precisa ser minimamente eficiente para ter um bom custo-benefício.

Em outras palavras, manter árvores em pé e os animais em seus hábitats tem um custo econômico menor que o de impor lockdowns ou abater rebanhos para conter epidemias em curso.

No relatório, os pesquisadores apontam que os riscos maiores de patógenos emergentes estão na Índia e na China, não à toa o Sars-CoV-2 apareceu em território chinês. Países africanos e latino-americanos estão num segundo plano, mas também abrigam uma boa parte de áreas de risco.

Para Bernstein, a melhor contribuição que o Brasil pode dar para prevenção global de novos patógenos é acabar com o desmatamento.

— Nós sabemos muito pouco sobre vírus circulando na selva amazônica, mas mesmo com o pouco que sabemos temos razão para crer que muitas potenciais doenças emergentes ainda não descobertas podem estar ali — diz o cientista de Harvard.

Desequilibrio geográfico

Um dos coautores de Bernstein no relatório foi o epidemiologista Guilherme Werneck, professor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Para o brasileiro, apesar de a solução para mitigar o problema do spillover ser relativamente barata numa escala global, sua implementação requer uma costura diplomática complicada.

Um dos problemas é que, apesar de todos cidadãos do mundo serem potenciais vítimas de uma pandemia, o risco de emergência dos patógenos está concentrados em países tropicais mais pobres, que têm poucos recursos para empregar.

— O dinheiro teria que sair dos países desenvolvidos, e isso teria que ser por decisões aplicadas no nível de um organismo multilateral global que canalizasse esses recursos para enfrentar esses problemas nos locais de maior risco — diz Werneck. — Sem um grande acordo global multilateral, isso fica difícil. Muitos países pobres têm emergências mais importantes para resolver, como fome ou guerra civil.

Uma boa notícia sobre o problema é que uma parte da solução já vem sendo debatida no âmbito de dois grandes acordos internacionais. A preservação de florestas e ecossistemas é negociada tanto no Acordo de Paris para o clima quanto na CDB (Convenção da Diversidade Biológica). Uma boa parte do custo de prevenção de pandemias que os cientistas calculam está em medidas adicionais, como pesquisas de campo e sistemas de vigilância genética para identificar novos patógenos.

Como a OMS (Organização Mundial da Saúde) não tem o poder de arbítrio para muitas das medidas a serem exigidas dos países, não é improvável que surja a proposta de um tratado contra o spillover nos moldes do Acordo de Paris. Guardadas as proporções, o que a força-tarefa de risco pandêmico produziu agora pode ser o embrião de um relatório como os do IPCC, o painel do clima da ONU, com ciência para embasar programas políticos.

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