Forças americanas bombardeiam insurgentes talibãs para defender as forças afegãs

Militantes talibãs e moradores de Alingar celebram o acordo de paz em 2 de março de 2020

A aviação americana bombardeou nesta quarta-feira um grupo de talibãs que atacava as forças de segurança afegãs, após uma ofensiva dos insurgentes que provoca dúvidas sobre o incipiente processo de paz no Afeganistão.

O ataque americano na província de Helmand (sul) aconteceu poucas horas depois de uma conversa telefônica entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder político dos insurgentes talibãs.

A conversa aconteceu quatro dias depois da assinatura, no sábado em Doha, de um acordo histórico dos talibãs com Washington sobre a retirada das forças estrangeiras do país.

No acordo com os insurgentes, o governo dos Estados Unidos se comprometeu com uma retirada completa do Afeganistão no prazo de 14 meses em troca, entre outras coisas, do início de um diálogo entre afegão incluindo o governo, a oposição, a sociedade civil e os próprios talibãs.

Desde a assinatura, no entanto, os insurgentes retomaram a ofensiva contra as forças de segurança afegãs - mas não contra as forças estrangeiras - e encerraram uma trégua parcial de nove dias.

O bombardeio da aviação americana aconteceu depois que pelo menos 20 soldados e policiais afegãos morreram nesta quarta-feira em vários ataques dos insurgentes.

"As forças dos Estados Unidos executaram um bombardeio em Nahr-e Saraj, em Helmand, contra os combatentes talibãs que atacavam as forças de segurança afegãs. Foi um bombardeio defensivo", anunciou no Twitter o coronel Sonny Leggett, porta-voz das Forças Armadas americanas no Afeganistão.

"Pedimos aos talibãs que cessem os ataques e respeitem seus compromissos. Como demonstramos, defenderemos nossos aliados quando necessário", completou, em referência às forças governamentais afegãs.

"Combatentes talibãs atacaram pelo menos três postos do exército no distrito de Imam Sahib, em Kunduz, e mataram 10 soldados e quatro policiais", afirmou Safiullah Amiri, integrante do Conselho Provincial de Kunduz (norte).

Além disso, seis policiais morreram e sete foram feridos pelos talibãs em Tarinkot", localidade da província de Uruzgan (sul), informou Zergai Ebadi, porta-voz do governador.

Os ataques aconteceram poucas horas depois de uma conversa telefônica, de 35 minutos, entre o líder político dos insurgentes, mulá Barada, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A conversa foi "longa e boa", disse Trump.

"Minha relação com o mulá é muito boa", acrescentou Trump. "Eles querem acabar com a violência", declarou.

Nesta quarta-feira, porém, o coronel Legget advertiu que "enquanto o governo afegão e os Estados Unidos cumprem seus compromissos, os talibãs tentam desperdiçar esta oportunidade e ignoram o desejo de paz do povo afegão".

O acordo de Doha, que não foi ratificado pelo governo afegão, afirma que o cessar-fogo é apenas um dos elementos das futuras negociações, mas não uma condição para que possam acontecer.

Desta maneira, o texto não é um acordo de paz propriamente dito porque as autoridades afegãs, divididas após as criticadas eleições presidenciais, continuam à margem das conversações.

O Afeganistão virou a base da Al-Qaeda após a vitória dos talibãs em 1996 e, a partir desse território, a organização que era liderada por Osama Bin Laden planejou os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, que precipitaram a guerra e a invasão em outubro de 2001 por Washington e seus aliados.

Desde que foram expulsos do poder por uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, os talibãs travam um confronto de guerrilha no país.

Entre 32.000 e 60.000 civis afegãos morreram no conflito, segundo a ONU, além de 1.900 militares americanos.

Desde a assinatura do acordo, os talibãs proclamam "vitória" contra os Estados Unidos.