Forças Armadas estudam envio de militares para auxiliar ONU em missões de paz

Alex Rodrigues - Repórter da Agência Brasil

Com o fim da participação brasileira na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), que será encerrada no dia 15, o Estado-Maior das Forças Armadas e o Ministério das Relações Exteriores estudam a possibilidade de o Brasil enviar militares brasileiros para outras missões de paz da ONU.

Almirante Ademir Sobrinho, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças ArmadasFabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Nos últimos meses, militares e diplomatas avaliaram dez operações da ONU para definir onde a presença militar brasileira seria mais proveitosa – tanto para a população local quanto para a tropa e para o Brasil. Foram analisados aspectos como nível de hostilidade, intensidade das operações, influência ambiental, projeção do país no exterior, custos do apoio logístico, infraestrutura local, além da interação nacional com os países que já atuam nestas missões e fatores geopolíticos.

Do trabalho resultaram duas listas, que, segundo o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, almirante Ademir Sobrinho, coincidem ao priorizar o envio do efetivo brasileiro para a República Centro-Africana. Isso caso o Brasil decida participar de uma nova missão após os 13 anos à frente da operação haitiana. A decisão final caberá ao presidente Michel Temer e ao Congresso Nacional.

África

“Estamos prontos para fazer uma apresentação [dos estudos] para o presidente. Se ele nos der sinal verde para continuarmos analisando o assunto, iremos conversar com o Congresso Nacional, a quem compete autorizar o envio de tropas e aprovar a destinação dos recursos financeiros necessários. Como de costume, a ONU só formalizará qualquer convite após estar tudo encaminhado e aprovado”, explicou o almirante, revelando que o governo tem até o fim de outubro para responder às consultas informais feitas pela ONU. "A organização só formaliza seus pedidos após os países responderem informalmente se têm ou não condições de atendê-la".

A maioria das missões de paz analisadas pelas Forças Armadas e pelo Itamaraty ocorre em território africano: Mali, Sudão, Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Saara Ocidental (que é um território não-autônomo no noroeste africano) e República Centro-Africana. Outras três missões ocorrem no Oriente Médio, no Chipre, Líbano e Síria.

De acordo com o chefe do Estado-Maior, a lista inicial de opções das Forças Armadas era encabeçada por Chipre e Líbano, mas como a ONU não necessita de reforços militares nesses locais, destacou-se a República Centro-Africana, para onde uma equipe deve viajar em breve, "para fazer estudos mais aprofundados e conversar com as autoridades locais”. Procurado, o Itamaraty não se pronunciou sobre o assunto até a publicação desta reportagem.

Encravado no centro do continente africano, o país de cerca de 5 milhões de habitantes desde 2012 sofre os efeitos da guerra civil resultante dos confrontos entre a coalizão rebelde Seleka, de maioria mulçumana, e milícias Anti-Balaka, de maioria cristã. Segundo a ONU, o conflito entre os dois grupos já provocou o deslocamento de mais de 22 mil civis. Mais de 2 milhões de pessoas dependem da assistência humanitária.

“Houve uma coincidência muito grande entre nossa análise e a do Itamaraty. Em termos de prioridades, a República Centro-Africana ocupou a terceira posição em ambos os estudos. A África, sem dúvida nenhuma, é uma área de interesse do Brasil”, explicou o almirante

Destacando que a decisão final pela participação ou não do Brasil em qualquer missão é política e que dificuldades orçamentárias podem inviabilizar o envio das tropas brasileiras, o almirante informou que a presença nacional em regiões de conflito ou crise humanitária contribuem também para a maior projeção do Brasil no cenário internacional.

“O Brasil precisa de uma maior inserção no mundo. A participação nas missões de paz contribuem para isso. Sem dúvida, a situação financeira é um limitador para enviarmos tropas para outros países, mas a decisão final é política e deve levar em conta o quanto o Brasil quer ter uma maior inserção mundial”, declarou o almirante.

Haiti

O primeiro dos quatro voos programados para trazer de volta ao Brasil parte dos militares que permanecem no Haiti protegendo as instalações e equipamentos brasileiros deve chegar ainda hoje (23) a Guarulhos, em São Paulo.  

Ao todo, retornarão cinco escalões, cada um trazendo aproximadamente 200 militares da Marinhal, do Exército e da Força Aérea Brasileira. O retorno da tropa marca o encerramento da participação brasileira no país caribenho, após 13 anos.

A viagem de volta foi adiada depois que o Secretariado das Nações Unidas autorizou a extensão excepcional das operações humanitárias das tropas brasileiras na Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti (Minustah), em razão das ameaças das passagens dos furacões Irma e Maria pelo Caribe.

Os dois furacões de categoria cinco atingiram a região em menos de duas semanas. Só o Maria matou pelo menos 30 pessoas na ilha de Dominica e pelo menos outras 11 nas ilhas de Saint Martin e Saint Barth, nas Antilhas Francesas.

“Estávamos monitorando o comportamento do Furacão Maria, que acabou desviando e, possivelmente, causará um impacto menor no Haiti. O primeiro voo trazendo os militares brasileiros parte hoje do Haiti e chega em Guarulhos esta madrugada. Os próximos chegam entre os dias 24 e 27 de setembro. Esperamos embarcar todo o material em navios no início de outubro e tão logo isso ocorra traremos de volta os 150 últimos homens”, afirmou o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas.

Desde junho de 2004, quando foi escolhido para comandar o braço militar da missão de estabilização formada por tropas de 16 países, o Brasil enviou ao Haiti cerca de 37,5 mil militares. O maior contingente é o do Exército, que mobilizou 30.359 homens e mulheres. A Marinha enviou 6.299 militares e a Aeronáutica, 350. Vinte e cinco militares brasileiros morreram durante o período, incluindo dois generais.

Além de prestar ajuda humanitária ao povo haitiano, o governo brasileiro enxergou a oportunidade de projetar a imagem do Brasil internacionalmente, o que coincidiu com o projeto estratégico de tentar consolidar a liderança regional brasileira. Ao longo dos anos e  principalmente no início da missão, não faltaram críticas à iniciativa, entre elas as de entidades que classificavam a presença militar estrangeira como uma ação intervencionista, que desmobilizava a capacidade do Haiti de encontrar soluções democráticas para seus próprios problemas políticos.