'Forças regionais estão participando de um processo de desestabilização', diz chanceler do Equador ao GLOBO

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À frente de várias ações do Executivo desde que o presidente Guillermo Lasso confirmou estar com Covid-19, o ministro das Relações Exteriores do Equador, Juan Carlos Holguin, disse, em entrevista ao GLOBO, que "o governo vai esgotar as vias democráticas e de diálogo" com os manifestantes, que há mais de dez dias paralisaram o país. As demandas são diversas e incluem, entre outras, a redução do preço dos combustíveis. O país está militarizado, foi decretado toque de recolher em Quito, três pessoas já morreram e nas últimas horas congressistas aliados ao ex-presidente Rafael Correa defenderam o debate de um pedido de destituição de Lasso na Assembleia Nacional, onde o governo não tem maioria. A resposta do presidente poderia ser, segundo permite a Constituição, a dissolução do Parlamento, no que se chama no Equador de morte cruzada. "O presidente Lasso foi enfático em dizer que não recorrerá à morte cruzada como mecanismo para dar estabilidade ao país", afirmou o chanceler.

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Congressistas do partido do ex-presidente Rafael Correa (2007-2017) defenderam publicamente o debate na Assembleia Nacional de um pedido de destituição do presidente Guillermo Lasso. Como o senhor avalia a situação?

O Equador precisa de paz e estabilidade, e o que demonstra esta ação que adotaram os congressistas do partido do ex-presidente Correa, liderados por ele, são as verdadeiras intenções que tinham estas manifestações desde o começo. Elas foram manipuladas por estas ações políticas, e também estão relacionadas a uma luta do presidente Lasso contra estruturas criminosas. O tempo dirá se os dois elementos estão interconectados ou não.

Se a ofensiva correísta avançar, o governo poderia acabar optando pela dissolução da Assembleia, adotando a chamada morte cruzada?

O presidente Lasso foi enfático em dizer que não recorrerá à morte cruzada como mecanismo para dar estabilidade ao país. Somos um país de paz e esperamos que o diálogo com os verdadeiros manifestantes que lutam por causas justas nos permita definir uma atenção rápida ao que estão solicitando.

O diálogo ainda não começou...

Houve conversas, estamos esperando uma resposta sobre um diálogo público para atender todos os pontos que a comunidade indígena solicitou, e que nós respondemos.

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Está em risco a democracia?

Existem tentativas políticas. Temos de estar alertas.

O governo Lasso está em contato com governos da região, especificamente com o do presidente Jair Bolsonaro?

Tivemos uma reunião há duas semanas com o presidente em Bolsonaro em Los Angeles, na qual analisamos juntos vários elementos, especialmente relacionamento à presença de estruturas criminais transacionais na região. Sou muito agradecido ao Brasil, que está nos ajudando com um avião que atua em operações logísticas para transportar alimentos e medicamentos a cidades onde estradas estão bloqueadas pelas manifestações.

Que possibilidades o senhor vê de superar esta crise, sem uma maioria parlamentar?

Vamos esgotar as vias democráticas de diálogo e paz.

Que avaliação o senhor faz da atuação da comunidade indígena e seus líderes?

As necessidades e os pedidos legítimos das comunidades indígenas devem ser ouvidos e respeitados.

O governo Lasso assumiu há um ano falando em reconciliação nacional. Hoje o país está militarizado, já morreram três pessoas e os protestos se arrastam há mais de dez dias.

Existe a necessidade de reforçar o diálogo com a sociedade civil. O primeiro ano de governo esteve marcado pelo grande objetivo de vacinar a população contra a Covid-19, esse era o maior plano de reativação econômica. Tivemos bons resultados no primeiro ano, mas hoje estas manifestações, do ponto de vista legítimo, são a oportunidade para melhorar temas nos quais mais atenção é demandada. Mas as manifestações não são totalmente legítimas. Dirigentes indígenas reconheceram que existem pessoas infiltradas, que são as que geram caos, violência e mortes. O presidente Lasso, que respeita os direitos humanos, apoia o diálogo para resolver qualquer conflito, deixando claro que grupos vandálicos estão cometendo crimes.

O governo fala em terrorismo.

Usam explosivos, granadas, sequestram comboios militares que transportam medicamentos e alimentos.

Dirigentes latino-americanos como Evo Morales, da Bolívia, e Diosdado Cabello, da Venezuela, falam em repressão e violência por parte do Estado. O que o senhor responde a eles?

Tento não opinar sobre políticos de outros países, mas é evidente, até por ataques cibernéticos, que existem outras forças regionais que estão participando deste processo de desestabilização.

A situação econômica e social do Equador é complexa, como no resto da região, e as cenas lembram os protestos no Chile, em 2019, e na Colômbia, em 2020. O senhor vê semelhanças?

O governo de Lasso está há 13 meses no poder, assumiu depois de uma pandemia e em meio ao conflito entre Rússia e Ucrânia que nos afetou diretamente. Tínhamos um comércio intenso com a Rússia, muitos de nossos produtos, como fertilizantes, vinham da Rússia e da Ucrânia. Neste contexto, em 13 meses não podemos mudar elementos estruturais. Mas temos a possibilidade de mostrar que este modelo de desenvolvimento levará ao início de mudanças estruturais.

A esquerda está se fortalecendo na região e governos de direita, como o do Equador, estão ficando isolados.

Nosso governo é republicano e profundamente humanista. Temos uma unidade regional com países como Chile, Argentina, Uruguai, México e Colômbia, e com quase todos os países da região. Acima de ideologias, todos buscamos o bem comum. E nossos esforços devem estar focados nisso.

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