Forças de segurança usam gás lacrimogêneo em protesto contra golpe no Sudão

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Sudaneses protestam contra o poder militar em Sahafa, bairro do sul da capital, Cartum, em 25 de dezembro de 2021 (AFP/-)

As forças de segurança do Sudão usaram gás lacrimogêneo neste sábado (25) contra milhares de manifestantes que protestavam contra o governo a poucos metros do palácio presidencial em Cartum, dois meses depois de um golpe militar e uma repressão que provocou 48 mortes.

Os próprios manifestantes retiraram as pessoas feridas pelo gás lacrimogêneo, segundo um correspondente da AFP.

O protesto, com o lema "os militares devem retornar aos quartéis", acontecia a 50 metros do Palácio de Cartum, atual sede das forças de transição lideradas pelo general Abdel Fattah al Burhan, autor de um golpe de Estado há exatamente dois meses.

As autoridades tentaram bloquear o protesto: a internet desapareceu dos celulares e as ligações telefônicas não funcionavam. Além disso, as pontes do rio Nilo estavam bloqueadas com grandes contêineres.

As dificuldades não impediram a concentração de milhares de pessoas diante do palácio presidencial para protestar contra o exército, seu comandante Burhan e, inclusive, o primeiro-ministro civil Abdallah Hamdok, que recuperou o cargo depois que aceitou reconhecer a situação após o golpe, ou seja, a ampliação do mandato de Burhan por dois anos.

Os defensores do governo civil demonstraram na semana passada, no terceiro aniversário do início da "revolução" que em 2019 obrigou o exército a acabar com 30 anos de ditadura militar islâmica de Omar al Bashir, sua capacidade de mobilização.

Durante o protesto, as forças de segurança dispersaram milhares de manifestantes com tiros e gás lacrimogêneo.

Neste sábado, as autoridades isolaram os sudaneses do resto do mundo.

"A liberdade de expressão é um direito fundamental e inclui o acesso total à internet", afirmou o emissário da ONU, Volker Perthes. "Ninguém deveria ser preso por desejar protestar", acrescentou.

Os militantes pró-democracia afirmam que desde sexta-feira aconteceram várias detenções.

Diante do temor de uma nova escalada da violência, o sindicato de médicos pró-democracia (que contabiliza as vítimas da repressão desde 2018) pediu aos demais países que "permaneçam vigilantes com o que vai acontecer", apesar dos problemas para enviar as imagens ao exterior.

- Protesto no dia 30 -

O governo da capital Cartum afirmou na sexta-feira que as forças de segurança seriam "responsáveis por aqueles que violam a lei e criam o caos", sobretudo perto de "edifícios de soberania estratégica", pois em cada manifestação os primeiros tiros aconteceram perto do Parlamento, do palácio presidencial ou do quartel-general do exército.

Após um golpe denunciado por quase toda a comunidade internacional, o general Burhan restabeleceu Hamdok no cargo de primeiro-ministro, mas o Sudão continua sem governo, condição básica para o retorno da ajuda internacional ao país, um dos mais pobres do mundo.

Burhan também prometeu organizar eleições livres em julho de 2023, as primeiras em décadas, mas não conseguiu convencer os defensores do governo civil no país, que está há quase 65 anos sob tutela militar.

No domingo passado, os manifestantes contrários ao golpe militar organizaram um protesto na porta do palácio presidencial, um método de atuação que recorda a "revolução" de 2019, mas eles foram rapidamente retirados do local com violência.

Os ativistas pró-democracia anunciaram um novo protesto para 30 dezembro.

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