Forças ucranianas recebem ordem para recuar em Severodonetsk, foco de ofensiva russa

Após semanas de duros combates, as forças de Kiev que lutavam em Severodonetsk vão se retirar da cidade no Leste ucraniano, anunciou o governador Serhiy Gaidai nesta sexta-feira. A área era o epicentro mais recente do conflito com os russos, e o recuo abre caminho para que o Kremlin confirme seu domínio em Donbass, região que compreende os territórios de Donetsk e Luhansk, em uma das vitórias mais cruciais para o presidente Vladimir Putin desde que a invasão começou, há exatos quatro meses.

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"As Forças Armadas ucranianas terão que se retirar de Severodonetsk. Receberam ordens para isto. Permanecer em posições que foram bombardeadas incessantemente durante meses não faz mais sentido", escreveu Gaidai, o governador de Luhansk, em seu canal oficial no Telegram, afirmando que a cidade foi "quase transformada em escombros" pelos bombardeios contínuos. "Todas as infraestruturas críticas foram destruídas: 90% da cidade foi danificada e80% das casas terão que ser demolidas."

A conquista de Severodonetsk, na margem leste do rio Donetsk, permitirá aos russos concentrarem seus esforços na tomada da vizinha, Lysychansk, que fica do outro lado do rio e é a última sob controle ucraniano em Luhansk. Inicialmente fora da lista de prioridades russas após a invasão iniciada no dia 24 de fevereiro, as cidades voltaram a serem lembradas após a mudança nos planos de Moscou, no final de março.

Em vez de grandes e frustradas ofensivas contra áreas como Kiev e Kharkiv, os esforços foram concentrados no Leste do país, onde já atuam as milícias separatistas. Desde então, partes consideráveis de Donetsk e Luhansk passaram para o controle russo, incluindo Mariupol, um dos principais terminais portuários do litoral ucraniano e que agora integra um corredor que liga o território russo até a Crimeia, anexada por Moscou em 2014.

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Fundada em 1938, a cidade industrial de Severodonetsk tem como um dos pilares de sua economia uma das maiores unidades de produção de amônia da Ucrânia, responsável também por fornecer produtos como fertilizantes. Cerca de 120 mil pessoas viviam lá até o início da guerra civil, em 2014, desencadeada pelas turbulências políticas ucranianas e pelas tentativas russas de interferir no país.

Severodonetsk chegou a ser controlada pelas milícias pró-Moscou que conquistaram boa parte de Luhansk e que chegaram a impedir a realização das eleições presidenciais, em maio de 2014. Semanas depois, contudo, as forças pró-Kiev recuperaram o controle e estabeleceram ali a nova sede do governo regional.

Por sua localização próxima ao front dos combates com os separatistas, a cidade se tornou ainda uma espécie de base para os militares ucranianos e organizações de ajuda humanitária que desenvolvem projetos na região.

Lysychansk sofre bombardeios

O triunfo russo desta sexta não está relacionada apenas a questões estratégicas, como em Mariupol ou Lyman, localizada a cerca de 50 km dali, mas também a fatores simbólicos. Além de Severodonetsk servir como um símbolo da presença de Kiev em Luhansk, o sucesso da operação dá a Putin uma vitória para apresentar aos públicos russo e internacional.

— Acredito que no ritmo que nossos soldados prosseguem, muito em breve todo o território da República Popular de Luhansk estará libertado — disse à AFP o tenente-coronel Andrei Marochko, porta-voz das milícias pró-Rússia.

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Gaiday informou que agora os russos avançam para Lysychansk, que também está sob cerco intenso das tropas de Moscou, que bombardeiam a cidade sem trégua. Jornalistas da AFP que deixaram a cidade na quinta-feira tiveram que sair do carro em que viajavam duas vezes para se proteger no chão devido aos bombardeios russos contra a principal rota de abastecimento da cidade.

A situação daqueles que permanecem no local é descrita como "sombria". A moradora Liliya Nesterenko contou à AFP que sua casa não tem gás, água e energia elétrica. Ela e a mãe cozinham em uma fogueira.

A notícia desta sexta foi anunciada poucas horas depois do apoio contundente da União Europeia (UE) à Ucrânia, com a concessão do status de país candidato para ingressar no bloco, embora o processo possa demorar anos. A Ucrânia insiste nos pedidos por mais armas. Na quinta-feira, os Estados Unidos anunciaram uma nova ajuda militar para Kiev de US$ 450 milhões.

Após a reunião de cúpula da UE, será a vez do encontro do G7 e, em seguida, acontecerá a reunião da Otan, estas duas últimas com a presença do presidente americano Joe Biden. Uma fonte do governo dos Estados Unidos afirmou que a reunião do G7 no domingo pode anunciar novas sanções contra a Rússia.

Morte de funcionário de Moscou

No sul da Ucrânia, na cidade de Kherson, que está sob controle dos russos, um funcionário designado por Moscou morreu em um atentado com explosivos colocados em seu carro, de acordo com as agências de notícias russas. O governador nomeado pela Rússia para a região de Kherson, Kirill Stremousov, confirmou a identidade da vítima à agência RIA Novosti.

— Sim, um dos meus funcionários morreu. Dmitri Savlushenko, ele era secretário para a Juventude e Esportes — disse Stremousov.

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