Nem vacina nem empregos: na crise, Bolsonaro prioriza acesso a armas

Matheus Pichonelli
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Brazil's president Jair Bolsonaro reacts during the swearing-in ceremony of the Brazil's Tourism Minister Gilson Machado, amidst the Coronavirus (COVID - 19) pandemic at Planalto Palace on December 17, 2020 in Brasilia. (Photo by Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)
Brazil's president Jair Bolsonaro reacts during the swearing-in ceremony of the Brazil's Tourism Minister Gilson Machado, amidst the Coronavirus (COVID - 19) pandemic at Planalto Palace on December 17, 2020 in Brasilia. (Photo by Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)

Nem empregos nem vacinas.

No dia em que a Ford anunciou o encerramento de suas atividades no país, colocando na rua mais de 5 mil trabalhadores, Jair Bolsonaro anunciou que ainda nesta semana assinará novos decretos para aumentar a venda de armas para colecionadores, atiradores esportivos e caçadores. Será um tiro de disparada na economia brasileira que até o momento só viu crescimento em V nas placas de “Vende-se” dos imóveis comerciais.

No mesmo dia, seu ministro da Saúde, general Pazuello, reforçou o anedotário bolsonarista garantindo que a vacinação teria início na hora H do dia D. Colocava, assim, mais um item no dicionário da novilíngua brasileira que sob o atual governo havia crescido e englobado termos como “PIB privado”, “cloroquina”, “talkei” e “Posto Ipiranga”.

Vacina e manutenção de emprego são assuntos imediatos, e uma grande nação, dessas que sobrevoam acima de tudo, não se constrói com projetos de curtíssimo prazo. Ao afagar os colecionadores de armas, Bolsonaro demonstra capacidade de planejar o futuro de um país que será conhecido não por suas indústrias ou polos de pesquisa e desenvolvimento, mas por caçadores.

Eis a carreira mais promissora do país na década que se inicia.

Em 2020, a Polícia Federal autorizou o registro de 179.771 novas armas de fogo no país, crescimento de 91% em relação a 2019. Bolsonaro acha pouco.

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“Nós batemos o recorde no ano passado em relação a 2019. Está pouco ainda, tem que aumentar mais. O cidadão de bem por muito tempo foi desarmado”, disse o presidente, engajado também por zerar a importação de armas fabricadas longe daqui. E daí?

Quem quiser se conectar com o futuro precisa, desde já, rever prioridades e direcionar os investimentos para aquisição de ferramentas e treinamentos especializados.

Será uma oportunidade de negócios e tanto em um país que assumiu o orgulho pária como norma diplomática e se isolou da comunidade internacional. Cursos de inglês, sobretudo após a posse de Joe Biden, já não farão sentido por aqui. Mandarim e espanhol, menos ainda, sobretudo após as botinadas gratuitas oferecidas nos parceiros comerciais instalados em Pequim e Buenos Aires.

Faculdades de medicina tradicionais já podem também fechar as portas. No Brasil, quem pode receitar remédio é a classe política dominante, e ela garante que cloroquina e vermífugos são tiro-e-queda contra viroses e outras invenções dos inimigos para deixar marmanjo no sofá de casa vendo Netflix sem precisar trabalhar.

De tudo, porém, nada se mostrará mais acertado do que investir em armas no momento em que o senso comum, alardeado por adversários políticos, apontam para o risco da desindustrialização e o morticínio na pandemia.

Entre agosto de 2019 e julho deste ano, o Brasil queimou 11.088 km² da Amazônia, o triplo da meta para o ano apresentada pelo país na Convenção do Clima de 2009, em Copenhague. Já os incêndios no Pantanal destruíram em poucos meses uma área de vegetação dez vezes superior ao que foi devastado nos últimos 18 anos.

No futuro, a floresta acabará se convertendo em deserto e as cidades, sem fábricas ou empregos, em imensas savanas para onde os animais despejados de seus habitats começarão a procurar comida. Ou seja, nós. Daí a importância de incentivar a proliferação de caçadores urbanos, verdadeiros sentinelas que poderão salvar as famílias de bem de possíveis ataques de onças pintadas, jaguatiricas e javaporcos em suas casas. Vai morrer inocente na primeira briga de trânsito? Vai. Mas em toda guerra morre inocente, diria um ex-deputado do baixo clero que se converteu em chefe da porra toda.

Sob Bolsonaro, cidade inteligente virou cidade protegida por fortificações, prontas para se proteger dos animais desapropriados pela devastação enquanto a boiada passava. E o controle ambiental se tornou ferramenta de avaliação para que o turista, e não o guarda ambiental, julgue o nível do desmatamento das áreas nativas perto de seu hotel.

Já os humanos desapropriados pela devastação econômica não é de hoje que estão na mira. A ironia é que o desafeto de Chico Buarque terá nas letras do cantor e compositor uma adaptação para novos tempos. Sem parque industrial ou florestas, esta terra ainda vai cumprir seu ideal quando tornar-se um imenso Bacurau, nome da comunidade-alvo de um safári humano promovido por estrangeiros com a ajuda de entreguistas para transformar sangue em diversão e arte no filme homônimo.

O presidente não é coveiro, mas o coveiro que se prepare para o aumento da demanda. Ele tem também a profissão do futuro no país que ultrapassa 200 mil mortes numa pandemia com viés de alta.

Planejamento de longo prazo é isso.