De forma inusual, Michelle Bolsonaro segue Damares e Malafaia e politiza entendimento de juíza sobre bandeira do Brasil

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A manifestação de uma juíza eleitoral do Rio Grande do Sul, que associou o uso da bandeira brasileira à propaganda eleitoral, gerou insatisfação entre o segmento evangélico ligado ao presidente Jair Bolsonaro. Entre as figuras que foram às redes criticar a postura da magistrada, chama a atenção uma postagem da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. O tom assertivo e politizado pode indicar o papel que terá na campanha do marido à reeleição.

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Diferente de Bolsonaro, Michelle não costuma se posicionar sobre temas mais ligados à política, sobretudo nas redes sociais. No entanto, no dia 14 de julho, quando veio à tona o posicionamento da juíza Ana Lúcia Todeschini Martinez, da 141ª Zona Eleitoral, de Santo Antônio das Missões, a primeira-dama usou os stories do Instagram para questionar o entendimento: “Ativismo político ou insanidade mental?”.

A publicação do Facebook do portal de direita Pleno.News, que divulgou a postagem de Michelle, somava 11,9 mil interações até 17 de julho. Ela foi uma das publicações que se destacaram no segmento evangélico entre 11 e 17 de julho, segundo levantamento feito pela Casa Galileia, grupo de pesquisadores que atua no fortalecimento do trabalho de cristãos na promoção da democracia, a partir do monitoramento de 296 perfis evangélicos — a maioria do campo da direita.

A juíza Ana Lúcia Todeschini Martinez manifestou, durante encontro com políticos no dia 14 de julho, que o uso da bandeira seria considerado propaganda eleitoral a partir de 16 de agosto. No dia 15, porém, a cúpula do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS) entendeu que a bandeira se destaca como símbolo do Brasil, segundo a Constituição Federal, e que, portanto, não há restrições específicas sobre seu uso durante o período eleitoral.

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Na avaliação de Flavio Conrado, pesquisador da Casa Galileia, um posicionamento mais assertivo da primeira-dama já pode ser um indicativo de que vai ter uma participação mais significativa durante a campanha:

— Ela já compareceu a eventos evangélicos e falou em nome do presidente. Bolsonaro sabe usar o linguajar cristão, mas ela performa bem o evangelicalismo. E isso já é um dos sinais que ela vem dando do papel que terá durante as eleições.

Coordenadores da campanha de Bolsonaro à reeleição querem que Michelle participe das peças de divulgação e compareça a eventos junto ao marido, como estratégia de atrair o eleitorado feminino, faixa em que o presidente apresenta a maior taxa de rejeição. Na convenção que oficializou a candidatura do marido, a primeira-dama teve protagonismo e discursou para cerca de 13 mil apoiadores que acompanhavam o evento no Maracanãzinho, no último domingo.

Símbolos do bolsonarismo

Na redes, o pastor Silas Malafaia e a ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves também politizaram o entendimento da magistrada e concentraram as maiores interações nas plataformas durante a semana de 11 a 17 de julho.

Em um vídeo curto publicado no YouTube em 15 de julho, o pastor e aliado de primeira hora de Bolsonaro, Silas Malafaia se apresenta envolto na bandeira brasileira, alegando que ela “representa um lado”, em contraposição com a cor vermelha, usada por segmentos da esquerda. A publicação teve 64.927 visualizações e 19.704 interações até 17 de julho e foi o segundo vídeo de lideranças e influenciadores evangélicos com mais engajamento.

Malafaia traça ainda um paralelo entre o uso do símbolo no Brasil e nos Estados Unidos, onde a bandeira seria empunhada tanto por movimentos de direita quanto de esquerda — que, segundo ele, não seria uma “esquerda comunista”.

— Bolsonaro trouxe de volta ao brasileiro o nacionalismo que o PT apagou. Onde o Bolsonaro vai, de forma espontânea, as pessoas usam a bandeira do Brasil. Agora, onde tem manifestação do PT, as pessoas sempre usam o vermelho, porque para eles a ideologia está acima da nação e de seu símbolo — argumenta.

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Em uma linha diametralmente oposta, Conrado também elabora uma comparação entre os dois países. Ele avalia que há, no Brasil, uma tentativa de atribuir à bandeira uma conotação nacionalista e ligada ao ideário cristão, como já é feito nos EUA. No entanto, pondera que o principal significado é colocar-se como oposta ao vermelho, usado pelo PT.

— A bandeira é usada aqui para demonstrar amor ao Brasil, não tem necessariamente ligação com a ideia de que o país pode ter um papel de evangelização. O verde e o amarelo simbolizam a pátria, um antagonismo com o vermelho — explica.

Além das críticas à decisão judicial, as publicações levantam outros pontos que, assim como a bandeira brasileira, faz parte do imaginário bolsonarista. Em uma postagem no Instagram, em 14 de julho, a ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves — também evangélica convicta — aproveitou o espaço de crítica para citar outros símbolos que, segundo ela, rementem ao presidente.

“A Dona Juíza vai proibir também usar moto no Brasil? Quando vejo uma moto eu já me lembro de motociata e daí já me lembro do Bolsonaro. E água, vamos poder beber água até as eleições? Quando vejo água jorrando na torneira me lembro que Bolsonaro levou água para o nordeste!”, escreveu.

Conrado avalia que a expressão das publicações dentro do segmento evangélico mostra que essa parcela do eleitorado, que abraçou Bolsonaro ainda em 2018, segue consolidada para o pleito de 2022, e o uso da bandeira se enquadra na estética do nacionalismo cristão, explorada pelo mandatário.

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