Fortaleza vive pós-pandemia antes de mortos descansarem

DHIEGO MAIA E KARIME XAVIER
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FORTALEZA, CE (FOLHAPRESS) - José Valdir da Silva, 50, caminhava pelo chão sem mato aparente de uma área do maior cemitério público de Fortaleza. Dos dois lados do local onde o administrador do espaço estava, placas azuis informavam nomes e datas de vida. No vazio, restavam ser fixadas as placas de identificação. "Faltou tempo", diz ele. Sob seus pés, o lugar estava com lotação máxima. Foi esse o terreno usado no Parque Bom Jardim, cemitério da periferia da capital cearense, para o enterro de ao menos 2.000 mortos desde o início da pandemia, em março --a maioria por Covid-19. Cada sepultura abriga três corpos. Eles ficam sob a terra de três a cinco anos e, depois, são levados para o ossário. Com 26 anos de funcionamento, o Parque Bom Jardim guarda nas sepulturas e nos ossários ao menos 111 mil restos mortais. O espaço concentra muitos enterros diários porque é público. Mas uma das 2.000 sepulturas do Parque Bom Jardim resume o caos enfrentado por Fortaleza na gestão da crise sanitária, ainda inconclusa. Ela guarda um erro: uma troca de corpos de pacientes de coronavírus numa UPA (Unidade de Pronto Atendimento) administrada pela secretaria de Saúde municipal. Das três famílias envolvidas, ignora onde está o corpo que deveria estar ali. As outras duas fizeram os enterros, mas restaram as dúvidas. Raimunda de Paula Melo, 90, sofria de mal de Alzheimer e em 13 de maio sentiu falta de ar e perdeu apetite. A neta Sarah Melo, 20, a levou para a UPA do bairro Itaperi, mas a avó morreu em seus braços diante da unidade. "Comecei a gritar. Uma equipe a pegou de cadeiras de rodas para tentar reanimá-la. Foi a última vez que eu vi o corpo dela", diz. O corpo foi deixado na sala de reanimação, segundo a neta. A família diz ter saído da unidade pública de saúde sem nenhum registro e sido informada que, no dia seguinte, deveria retornar para identificar e retirar o corpo. "Mas cadê o corpo?", perguntou a neta aos funcionários da UPA. Desaparecera. No intervalo, outra família havia registrado problemas na identificação de seu familiar. Luís da Silva, 76, morreu de Covid-19 em 14 de maio, um dia depois de Raimunda. Seus familiares estiveram no local e encontraram no corpo do homem uma etiqueta com o nome de uma mulher. Com o problema relatado, mais quatro sacos com corpos foram abertos até que um filho do idoso, segundo o advogado da família, reconheceu o pai e partiu para o enterro, em Pacatuba, na região metropolitana de Fortaleza. "Mas ao chegarem da cerimônia, a família foi informada pela UPA que um homônimo do Silva havia sido enterrado no Parque Bom Jardim", diz Thyago Alves de Souza Oliveira, advogado dos Silva. Os familiares do segundo "Luís" estiveram novamente na UPA e identificaram o corpo tido como o verdadeiro de seu familiar. Só que eles já haviam feito o primeiro enterro. O caso parou na Justiça. Sob autorização judicial, o segundo enterro foi realizado e, agora, as três famílias aguardam a exumação e exames de DNA para localizar os restos mortais de Raimunda. A Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou. À imprensa local disse que dava "todo o suporte e orientações necessárias para que as famílias solicitem a exumação". O advogado da família de Raimunda, Valdir Neto, diz que vai ingressar na Justiça com ação de reparação de danos morais porque "o tratamento foi indigno". "Até os animais que morreram em casa foram mais bem tratados que minha vó", diz Sarah. A troca de corpos espelha a má gestão e a falta de estrutura da capital cearense para responder aos desafios impostos pela pandemia. A Covid-19 chegou a Fortaleza na sequência do anúncio do caso de São Paulo ""oficialmente, o primeiro do Brasil, em 25 de fevereiro. A cidade é a segunda mais populosa do Nordeste, com quase 2,7 milhões de habitantes, e o hub aeroportuário da região que, antes da pandemia, recebia voos de Madrid, Amsterdã, Cabo Verde e Paris. Hoje, só o trecho internacional para Portugal segue. Aberta ao mundo, Fortaleza se viu vulnerável ao coronavírus, que colapsou seu sistema público de leitos, impôs lockdown à população e fez vítimas a jato. A capital cearense figurou de uma hora para outra como o território com a maior taxa de mortalidade por Covid-19 do Brasil. Em meados de junho, a macrorregião de saúde de Fortaleza, com mais três municípios, registrava mortalidade de 9 pessoas para cada um milhão de habitantes. Em agosto e setembro, os casos caíram abruptamente, mas voltaram a subir em outubro. Segundo boletim epidemiológico do governo do estado, o número de confirmações de Covid em Fortaleza subiu quase 14% em sete dias, chegando nesta sexta (30) a 55.467 casos e 3.973 óbitos. A principal hipótese é a campanha eleitoral, diz o governo, que causa aglomerações nas principais avenidas. Antes disso, a reportagem presenciou um "clima de Carnaval" como se a pandemia estivesse acabado. Na praia do Futuro, uma centena de jovens requebravam ao som das swingueiras sob o teto da barraca "Sorriso do Sol". Sem máscaras e próximos uns dos outros, o único álcool que havia ali era o das garrafas de bebidas. A 17 km dali, idosos chamegavam no forró do Albano, na periferia de Fortaleza, cujo o salão apertado os mantinha próximos. A máscara no rosto pouco servia quando os casais encostavam as testas ao som de Luiz Gonzaga. Um dos administradores do forró, Adriano, disse que o lugar "é a única fonte de renda da família, apesar dos riscos". A direção da Sorriso do Sol não se manifestou. Segundo o governo do Ceará, bares e festas ainda estão vetados no estado que já autorizou o retorno de "95% de sua cadeia produtiva". Foram multadas 194 pessoas que se recusaram a usar máscara. Neste Dia de Finados, os fortalezenses poderão, depois de muitos meses, homenagear seus mortos após a reabertura dos cemitérios. Menos Sarah, os quatro tios e os 16 netos de Raimunda.