Fotógrafa carioca ganha espaço dentro da música ao clicar nomes quentes da cena

Eduardo Vanini
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Muito antes do Instagram, havia o Fotolog, um desdobramento dos blogues, em que as imagens eram o grande barato. Foi por lá, em meados dos anos 2000, que a fotógrafa carioca Ana Alexandrino começou a encontrar a sua turma, salpicada por futuros expoentes da música brasileira, como Letícia Novaes, mais conhecida como Letrux, e Ana Cláudia Maiolino, a Mãeana. “Ficamos amigas de viajar e acampar. Acabou que montamos um grupo em que fomos crescendo juntos, um ajudando ao outro”, recorda-se.

Uma vez que os portões foram abertos, Ana mergulhou fundo na cena musical e por lá se estabeleceu. Sua assinatura está hoje em capas de álbuns, singles, EPs e fotos de divulgação de cantores descolados como Duda Beat, Alice Caymmi, Ava Rocha, Luana Carvalho e, claro, suas amigas de Fotolog. O primeiro trabalho do tipo foi a capa de “Plano de fuga para cima dos outros e de mim” (2014), álbum de estreia da banda Letuce, que tinha Letrux nos vocais. Na imagem, há um beijo subaquático trocado entre a cantora e seu ex-namorado e parceiro de banda, Lucas Vasconcellos. “Todo mundo pensa que é Photoshop, mas fizemos aquilo na piscina da casa da minha avó (no Leblon)”, conta.

Se a morada da família serviu de cenário, o conhecimento herdado do pai foi parte importante da bagagem. Ana é filha do fotógrafo Antônio Celso de Souza e Silva (morto em 2009), que atuou em publicações como “O Pasquim”. “Ele me deu a primeira câmera, quando eu tinha 20 anos. Vi as fotos que fez da Xuxa antes de ela operar o nariz”, diverte-se, lembrando que o pai também a ensinou como deixar as fotografias mais humanizadas. “Mal sabia ele que me tornaria uma retratista, com uma produção focada em gente.”

Ao descrever o seu trabalho, Ana diz buscar, acima de tudo, a verdade de quem se posta diante de suas lentes. Justamente por isso, ela acredita, as pessoas gostam dos resultados. “A Letícia (Novaes) tem uma veia na testa que, se eu tirar, ela manda voltar”, ilustra, ao passo que a cantora destaca a capacidade da fotógrafa em improvisar. É o caso da imagem que abre esta matéria. “Eu estava em São Paulo e precisava de foto de divulgação”, diz Letícia. “Liguei dizendo: ‘Amiga, vem aqui no hotel, mas não tem maquiador’. Aí começaram os disfarces, tipo usar a toalha na cabeça. Gosto desse olhar despretensioso.”

Alice Caymmi é outra que já teve suas nuances reveladas pela fotógrafa. “Algumas vezes, ela pegou a câmera e tirou fotos que não divulguei, mas mostram uma verdade minha daquele momento. E isso vira algo muito precioso”, descreve a cantora.

Foi justamente por meio dessa sensibilidade que Ana achou um caminho para não se distanciar do ofício, quando as fotos presenciais foram suspensas por causa da pandemia. Ela criou o projeto “Fotopatia”, em que explora as câmeras que as pessoas têm em suas casas para dirigi-las remotamente. “Vi que estava rolando essa coisa de fotografar à distância e comecei a queimar a cuca para encontrar uma alternativa. Acabei descobrindo que o olho no olho está presente mesmo nesses trabalhos.”

A primeira sessão foi com o cantor Marcelo Perdido. “Ele montou um set no banheiro, colocou a máquina num tripé e eu dizia: ‘Vira o queixo para o lado, olha para a luz’”, detalha a fotógrafa, que atualmente mora em São Paulo e já “viajou” para diferentes lugares com a técnica. “Tenho uma foto para fazer na Holanda, mas, como lá está frio, a luz ainda não está boa.”

Entre os próximos trabalhos, Ana organiza uma exposição on-line de seus retratos em preto e branco e quer montar um projeto de nus. “Tenho fotos de todas as minhas cantoras e atrizes peladas. Em alguns casos, eu até fico nua antes delas para que fiquem à vontade. Quando acaba o climão, acesso a pessoa de um modo que proporciona resultados surpreendentes.” A julgar pela fidelidade da clientela, é difícil imaginar o contrário.