Fotógrafos largam empregos convencionais para trabalhar nas praias do Rio

·7 minuto de leitura

Às 7 horas, Jose Carlos Inocêncio (@jccinocencio), de 61 anos, já bateu ponto no trabalho. O destino ele descobriu duas horas antes de sair de casa, na Tijuca. É assim há três anos, desde quando ele resolveu abandonar o emprego tradicional “de 8h às 18h” como despachante do Detran e vendedor de plano de saúde para trabalhar com o que ama: fotografando na praia. Na mochila ele leva: duas lentes, um monopé, uma câmera, uma bateria reserva e um cartão de memória. Sem ar-condicionado, sem internet e muito menos um banco para descansar, o fotógrafo de praia J. Inocêncio, como é chamado pelos “locais”, garante que ama o que faz, e deixa claro que a decisão de mudar completamente de rotina não é motivo para arrependimento. Às vezes, o escritório é no Arpoador, na Zona Sul — ou “Arpex”, para os mais chegados — outras na Praia da Macumba, na Zona Oeste. Se lá o trabalho não render, os 86 quilômetros de orla do Rio são um cardápio recheado para ele e para as dezenas de fotógrafos de praia que trocaram empregos burocráticos entre quatro paredes para fazer seu próprio horário nas areias fofas do Rio.

Apesar de hoje ser o ganha-pão do Inocêncio, essa rotina estava longe de se tornar realidade até 2017. Nos antigos empregos, o dia a dia era bem pesado, ele conta. Mas se disser que não gostava, era mentira. Entretanto, o cansaço e o trabalho árduo às vezes não compensavam financeiramente. E foi nessa onda que um apaixonado pelo surfe e praticante desde a adolescência resolveu uniu a paixão pelo esporte e o trabalho.

O flerte com a fotografia de surfe só virou emprego sério depois de, curiosamente, ser incentivado por um amigo que ele mesmo tinha instigado a entrar para o meio, em 2018. No início, J. Inocêncio lembra que a ajuda para se inserir no mercado era praticamente nula. Sem dinheiro e sem a possibilidade de ter equipamentos caros ou fazer cursos com valores exponenciais, o jeito foi aprender na marra. A rotina é clicar, em época de mar bom, mais de mil fotos por dia.

— Não é um trabalho fácil. No meu caso, que cheguei sem conhecer nada e nem ninguém, o jeito foi me jogar conforme eu ia aprendendo. Fiz alguns cursos mais em conta, pedi ajuda de um grande amigo meu, fotógrafo de estúdio, que me ajudou com as dicas básicas, mas o segredo e o jeito eu peguei com o tempo — conta Inocêncio.

Hoje, ele tem lembranças de quando se sentiu o "Neymar da fotografia", como ele mesmo diz:

— Já houve situações de pessoas que me reconheceram andando na rua e vieram falar comigo, emocionados, agradecendo a foto que eu tinha tirado, que de alguma forma eternizou um momento importante para a pessoa. Isso acontece não só no Rio, como em outros lugares que acabo viajando como surfista e fotógrafo. Para mim, não tem preço! Existe dificuldade, mas posso dizer que sou a pessoa mais realizada desse mundo por poder me encontrar profissionalmente aos 61 anos.

Que tal um escritório na praia e a poucos minutos de casa? A Praia de São Conrado, na Zona Sul, é ponto de encontro para dois colegas de profissão: Joel Mendonça (@joelpesca), de 51 anos, morador da Rocinha, e Frederico Rigor (@rigorimagens), de 39, da comunidade da Chácara do Céu. Ambos moram a menos de 15 minutos do trabalho. Amantes do surfe e da fotografia, eles contam que jamais imaginaram que poderiam abandonar seu ganha-pão — motorista de uma multinacional, açougueiro e guia turístico nas Ilhas Tijuca, no caso de Mendonça, e recepcionista de um hostel, barman e tradutor de inglês e espanhol, antigos empregos de Rigor — para se jogarem na profissão de fotógrafo de surfe. Para ambos, a mudança foi colocada na balança junto com a qualidade de vida, que acabou falando mais alto.

— Como tradutor em tour local, por exemplo, eu subia e descia a ladeira da comunidade várias vezes para trabalhar. Era cansativo e nada prazeroso. Não vi motivos para continuar com a carreira que levava — lembra Rigor.

Mendonça gostava tanto de fotografia de surfe que já fazia como hobby, de graça, há 10 anos, para os conhecidos da Rocinha. Fotógrafo mesmo, ele se considera desde 2017. Hoje, cobra R$ 5 para os locais da comunidade e R$ 20 para quem vem de fora, preço médio do serviço pela orla.

— Muitos que moram aqui (na Rocinha) não tinham acesso, na época, para ter uma foto cara que nem cobravam. Eu mesmo sou surfista, moro na comunidade e não achava esse preço justo quando me cobravam. O estalo veio daí, quando vi a oportunidade de poder clicar com qualidade para pessoas próximas do meu convívio com um preço justo para eles — lembra.

Sempre fortalecendo os próximos, hoje Mendonça é conhecido até pelo músico Gabriel o Pensador, surfista local da região. Segundo ele, o maior privilégio é poder trazer de volta a graça do esporte para os amigos que pararam de praticar o surfe ao longo dos anos:

— Eu brinco que eu "ressuscito velhos". Todos os meus amigos, já de idade, estavam parados e, por causa da minha foto, eles voltaram a surfar, como se meu trabalho tivesse dado uma injeção de ânimo, mostrando que eles podem e têm capacidade de retornar à ativa. Para mim, é muito prazeroso. Não tem preço! É um clima muito legal.

Se Mendonça já recebeu em seu escritório Gabriel o Pensador, Frederico Rigor também tem bons nomes para destacar. Do mundo do surfe, Rigor já clicou Marcelo Pessoa, o Trekinho, e Gabriel Pastori, dois expoentes do surfe brasileiro. Fotógrafo das areias e do mar de São Conrado e do Leblon, ele coleciona cliques de ondas tubulares típicas de plano de fundo da área de trabalho do computador. A sua assinatura já esteve em trabalhos da Cerveja Praya e de marca de roupas como a Redley.

O trabalho que hoje estampa nomes e marcas começou há 8 anos. Com 25 de surfe, além de fotógrafo, Fred arrisca como orientador de surfe dos próprios clientes, que se tornaram amigos de longa data e hoje pedem dicas sobre o esporte.

— Como eu pratico há bastante tempo, muitas vezes o cliente pede ajuda para saber como faz uma manobra, uma performance. Isso cria um vínculo. Hoje, por ter intimidade com todos os meus clientes, acaba me ajudando também nas vendas. Para mim, funciona mais do que vender on-line. Meu sustento vem do fortalecimento das pessoas que me veem lá. É meu orgulho — conta.

E que tal tomar um sol nas areias de Copacabana, na Zona Sul, e ser interrompida por uma dupla de amigos oferecendo uma sessão de fotos bem no meio da praia? Esse é o trabalho de Marta Barros, de 57 anos, moradora de São Cristóvão, e do argentino Gustavo Orduña, de 46, da Glória. Os dois fazem parte do “O Martá pra Foto” (@omartaprafoto), um “estúdio móvel” em Copacabana. Marta entrou para o meio da fotografia em 2016, quando foi demitida de seu último trabalho como assistente de dentista. Antes disso, já foi telefonista, babá e gerente de café.

A paixão pela fotografia sempre existiu, mas os empecilhos da vida impediram que o desejo tornasse realidade. O sonho foi realizado quando, após a demissão, Marta foi apresentada ao argentino por uma amiga, que viu Orduña trabalhando de um jeito inusitado na praia, em Copacabana. O método era: Ele, com o sotaque argentino e sem nenhum jeito para o convencimento, abordava o cliente oferecendo o serviço: uma fotografia. Marta, que estava desempregada e buscando novos ares, viu a oportunidade ideal para, finalmente, realizar seu sonho e voltar ao mercado de trabalho:

— Quando vi o jeito meio desengonçado dele para chegar ao cliente, achei que pudéssemos ser uma boa dupla para seguir nesse ramo juntos. Ele, com a foto, e eu, com a direção da fotografia e a abordagem, já que falava português e levava jeito por sempre trabalhar com o público. Arrisco nas fotos algumas vezes, mas o Orduña é reconhecido como “o cara da fotografia do Marta”.

Trabalhando na Princesinha do Mar, o principal cartão postal do Rio, o trabalho logo teve sucesso. Uma das histórias de destaque é o convite de casamento de um casal de Curitiba que foi fotografado por Marta e Orduña quando ainda eram namorados.

— Foi muito legal. É um carinho enorme! A gente tem várias histórias. Já tivemos pedido de casamento no meio da sessão de fotos. Ninguém sabia. Ficamos surpreendidos! Para mim, é um privilégio!

Realizada aos 57 anos, Marta diz que trabalhar com a fotografia sempre foi um desejo, mas, estar na praia não era um dos planos:

— Aconteceu, e eu sou muito grata. Trabalhar com foto foi uma realização para mim, independentemente do lugar.


Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos