Foto do ‘sheik’ 03 é isca para desviar atenções do pai

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Com a filha e a esposa, Eduardo Bolsonaro se veste de 'sheik' em viagem oficial a Dubai e causa polêmica
Com a filha e a esposa, Eduardo Bolsonaro se veste de 'sheik' em viagem oficial a Dubai e causa polêmica

Eduardo Bolsonaro jogou a casca e meio mundo caiu.

Vestido de “sheik”, ao lado da mulher e da filha, suas acompanhantes em uma viagem oficial a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o deputado topou tripudiar sobre as contingências do país governado por seu pai, onde a falta de dinheiro para a carne leva uma multidão a se acotovelar para levar ossos bovinos para casa.

No mínimo, um crime confesso de insensibilidade.

Quem mordeu a isca e atacou a foto-ostentação do filho 03 de Jair Bolsonaro foi fisgado e levado a um ringue onde sua família e seus asseclas tentam ganhar o jogo com o discurso segundo o qual se há fome agora é porque lá atrás o hipócrita a acusar o deputado-ostentação apoiou o “fique em casa” e ajudou a quebrar o país.

A conversa não dura dois minutos de debate sério. Mas, quando o elemento posto na história é a raiva, a primeira bordoada que sobra é na razão. Raiva por raiva, o bolsonarismo se esbalda. E é isso o que Eduardo queria: se esbaldar na sua raiva. Quem tem raiva não pensa.

Quem sabe assim, mais do que a atenção, o lado racional do seu cérebro humano se ocupe mais com a foto do que com os relatos dolorosos dos familiares que perderam seus entes durante a pandemia na última sessão da CPI da Covid. Entre os depoentes estava um homem atacado por bolsonaristas por prestar uma homenagem ao filho, morto por coronavírus, em um protesto em Copacabana.

A censura ao luto àquele pai é a censura de um país inteiro que não quer se ver com a dor. No luto, sentimentos e pensamos. E, ao sentir e pensar, fica difícil não ligar os pontos. Muitos deles levam à responsabilização de Jair Bolsonaro por grande parte dessa tragédia.

A primeira morte por coronavírus no Brasil aconteceu em 12 de março de 2020. Dois meses depois, em 9 de maio, o país contabilizava 10 mil vidas perdidas. Em 8 de agosto eram 100 mil mortos. E 200 mil em 7 de janeiro. Dois meses e meio depois, eram registradas 300 mil vítimas. E 400 mil pouco mais de um mês depois, em 29 de abril. Um mês e 20 dias depois, a conta chegava a 500 mil.

O ritmo da tragédia só começou a ser reduzido quando a vacinação avançou. Se, antes, o Brasil contava 100 mil novas mortes em intervalos reduzidos, próximos a 30 dias, com a imunização em massa a queda foi notável: foram quase quatro meses até o país atingir a marca macabra dos 600 mil mortos. Espera-se que esta seja a última casa das centenas de milhares, o que já nos coloca no ranking das nações que mais fracassaram no enfrentamento do vírus.

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Os números só pararam de crescer porque, na virada do ano, Jair Bolsonaro percebeu que seu adversário João Doria poderia ganhar um ativo eleitoral com a vacina que o Instituto Butantan conseguiu produzir em parceria com um laboratório chinês. O governador de São Paulo foi artífice da parceria.

Na sequência, os donos do dinheiro, em notas assinadas na imprensa, mandaram o presidente parar de molecagem e comprar os imunizantes que já mostravam resultados promissores mundo afora.

Foi o que ele fez, a contragosto, e sob pressão. Como fez em relação ao auxílio emergencial, que ajudou uma multidão de brasileiros a se alimentar e impediu a economia de sair ainda mais dos trilhos —e que só saiu do orçamento a muque, por pressão do Congresso, e a contragosto da equipe ministerial.

Em outubro de 2021, quando um rascunho de volta à normalidade ganha forma, o ex-capitão voltou à carga, dando mostras de que não aprendeu nada com a própria experiência. Ele segue promovendo aglomerações, boicotando as medidas de isolamento, o uso de máscaras e espalhando idiotices sobre as vacinas que salvaram tantas vidas nos últimos meses. Difícil entender a razão. Talvez porque se dobrar às vacinas signifique se dobrar à ciência. E se dobrar à ciência é admitir que a salvação se encontra longe de sua caixa de ideias-prontas, obsessões e taras perversas e mal iluminadas. A ciência joga luz a essa caixa. E Bolsonaro precisa e depende da escuridão para seguir onde está.

Ao longo da pandemia, Bolsonaro não demonstrou, a não ser em textos decorados, a menor preocupação com a dor das famílias que perderam seus entes na pandemia. Não visitou hospitais, não conversou com os profissionais da linha de frente (pelo contrário, incentivou a invasão para mostrar a “farra” dos leitos), não pediu que seus compatriotas se cuidassem e evitassem se expor ao vírus.

Pelo contrário: saiu dizendo que a melhor forma de criar anticorpos era se infectando, numa clara aposta na imunização de rebanho. E usou medicamentos para malária e piolho em seu discurso de desmobilização. Fosse um comandante-em-chefe em tempos de guerra, Bolsonaro seria o general que mandaria os soldados de peito aberto ao front inimigo sob o argumento de que todo mundo vai morrer um dia, paciência.

Tudo para convencer a população a sair de casa e tocar a vida normalmente enquanto o mundo inteiro se fechava para conter a circulação do vírus momentaneamente até que a vacina chegasse.

Se tivesse ouvido quem realmente importava, e agido antes, mesmo que com medidas impopulares, o país não sangraria por tanto tempo nem levaria tanto tempo para recuperar a atividade econômica, só agora segura e pronta para ser retomada.

Chorar pelos mortos, atitude condenada pelo presidente que exigiu de sua população que agisse como homens, não “maricas”, é uma forma de nos salvar. E nos reconectar com quem partiu e com quem ficou. De tirar lições. De buscar tempo, fôlego e sentir a dor. De ser humano, enfim. E não ceder à brutalidade proposta por quem só tem a raiva a servir no cardápio.

Você pode não gostar do relator da CPI da Covid. Pode se preocupar com o açodamento de suas conclusões e com a guerra de egos manifestada em público por seus integrantes. Mas, se parar para pensar e sentir só um pouco o que o presidente não quer que você sinta, não poderá dizer que a comissão não conseguiu amarrar, numa linha do tempo óbvia e invisibilizada por absurdos diários e atualizados desse governo, a diferença que fez ter no comando do país uma autoridade capaz de pensar e sentir.

Bolsonaro e filhos são puro ódio e afetação.

É o que eles querem que você sinta ao ouvir o relato de alguém que perdeu amigos e familiares enquanto a principal liderança do país desdenhava do vírus e da dor que ele provocaria no país que ele prometeu colocar acima de tudo. Tudo o que ele e sua família querem é tirar o foco sobre as acusações, detalhadas no relatório da CPI, contra ele e seus comparsas. A começar pelo crime de charlatanismo.

É normal sentir raiva de quem debocha dessa dor posando de “sheik”, feliz, enquanto um país inteiro enterra seus mortos e procura ossos para se alimentar.

Não ignoro a capacidade mobilizadora da raiva como afeto político. Mas a hora não é essa. A hora é de elaborar o luto e fazer o que essa gente que se aboletou do poder já mostrou ser incapaz de fazer: sentir e deixar sentir.

Para que a conversa não se resuma a números.

Para que as histórias sejam contadas.

E para que sejam encaradas de frente as consequências das escolhas de quem não possuía inteligência e condições morais de liderar o país em seu momento mais grave.

A foto do “sheik” 03 não merece sua raiva. Apenas desprezo.