Foto motivou assassinato de Bruno e Dom, diz Ministério Público

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MANAUS, AM, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O MPF (Ministério Público Federal) denunciou três pessoas pelo assassinato do indigenista Bruno Pereira, 41, e do jornalista britânico Dom Phillips, 57, em 5 de junho, no Amazonas, nas imediações da terra indígena Vale do Javari. A denúncia foi recebida pela Justiça Federal em Tabatinga (AM) nesta sexta-feira (22), o que fez com que os três envolvidos se tornassem réus.

De acordo com a Procuradoria, foram denunciados sob acusação de duplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver Amarildo Oliveira (conhecido como Pelado), Oseney de Oliveira (o Dos Santos) e Jefferson da Silva Lima (o Pelado da Dinha).

Bruno e Dom foram assassinados no começo da manhã de 5 de junho. Os corpos só foram encontrados dez dias depois, em uma das margens do rio Itaquaí, nas proximidades da comunidade onde moravam 2 dos 3 denunciados.

O Ministério Público argumenta que Amarildo e Jefferson confessaram os crimes. A participação de Oseney, por sua vez, foi comprovada por depoimentos de testemunhas, segundo o MPF.

O órgão afirma ainda que já havia registro de desentendimentos entre Bruno e Amarildo por pesca ilegal no território indígena.

"O que motivou os assassinatos foi o fato de Bruno ter pedido para Dom fotografar o barco dos acusados, o que é classificado pelo MPF como motivo fútil e pode agravar a pena", diz a Procuradoria, em comunicado.

O Ministério Público também cita que Bruno foi morto com três tiros, sendo um pelas costas, sem possibilidade de defesa, o que também qualifica o crime.

Dom foi morto, segundo o Ministério Público, "apenas por estar com Bruno, de modo a assegurar a impunidade pelo crime anterior".

A defesa dos denunciados disse não ter tido acesso ao processo e que ainda não leu a denúncia. A Justiça Federal retirou o sigilo dos autos.

A denúncia cita trecho do depoimento de Amarildo em que ele disse ter estado com Bruno 24 horas antes do crime, na casa onde o indigenista e o jornalista passaram a última noite, na margem do rio Itaquaí.

"O reinquirido passou na casa de seu tio Raimundinho. Bruno estava em pé na varanda da casa. Cumprimentou Bruno falando 'bom dia', tendo o mesmo respondido", cita o depoimento.

Depois, segundo Amarildo, Bruno teria dito "tira a foto dele". No domingo, dia do crime, o indigenista passou em frente à comunidade e teria feito foto da embarcação do pescador. "Esse é o bote do invasor", teria dito, segundo o agora réu pelos assassinatos.

"Lá vai o cara, bora matar ele?", sugeriu Amarildo a Jefferson, conforme o depoimento reproduzido na denúncia.

Um segundo encontro entre Amarildo, Bruno e Dom teria ocorrido na véspera dos assassinatos. A equipe de vigilância indígena, serviço implementado pela Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), monitorou embarcações sob a responsabilidade de Amarildo.

O pescador levantou armas de fogo e fez ameaças à equipe, de acordo com registros de mensagens enviadas pela vigilância indígena. Bruno e Dom estavam presentes, e o indigenista teria feito registros com o celular.

O assassinato envolveu um grupo de pescadores ilegais, que atuam principalmente com pesca do pirarucu, segundo indícios coletados nas investigações. Bruno era um dos responsáveis pelo serviço de vigilância indígena implementado pela Univaja.

Esses vigilantes apontavam diariamente a presença de invasores na terra indígena e nas imediações. Foram esses mesmos indígenas que empreenderam as buscas pelos corpos.

Os depoimentos de Amarildo e Jefferson têm divergências sobre quem efetuou os disparos e sobre o nível de envolvimento de familiares na ocultação dos cadáveres.

Amarildo disse que Jefferson disparou primeiro, contra Bruno, pelas costas, a 20 metros de distância. O indigenista revidou com cinco disparos e foi novamente alvejado por Jefferson, conforme essa versão. Amarildo atirou uma vez em Dom, segundo seu depoimento, e Jefferson voltou a alvejar Bruno, no rosto.

Já Jefferson disse que um primeiro disparo atingiu Dom, pelas costas. Segundo ele, não é possível dizer quem acertou Bruno primeiro.

Houve esquartejamento e tentativa de queima dos corpos. A escavação e ocultação dos corpos duraram quatro horas. A perícia da PF concluiu que os projéteis disparados foram a "causa suficiente" das mortes.

A investigação do caso foi compartilhada entre Polícia Federal e Polícia Civil do Amazonas, com acompanhamento do Ministério Público Estadual e do Ministério Público Federal.

Diante da constatação de que o assassinato de Bruno teve relação com suas atividades em defesa da coletividade indígena, o caso foi transferido integralmente para a esfera federal. Por isso, a denúncia foi oferecida pelo MPF.

Uma quarta pessoa continua em prisão provisória no caso. É um homem conhecido como Colômbia, com atuação na região da tríplice fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia.

A prisão se deu por uso de documentos falsos. Colômbia já admitiu comprar pescado ilegal de Amarildo, e a PF tem indícios de que ele financiava a atividade ilegal de pesca e caça na região do Vale do Javari.

A investigação prossegue para tentar descobrir se ele teve atuação como mandante do crime. Também há uma linha da investigação sobre atuação para o narcotráfico, embora não haja elementos sobre isso até agora.

Bruno foi coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai (Fundação Nacional do Índio), até ser exonerado do cargo em setembro de 2019, no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro (PL).

A exoneração se deu em razão da atuação do indigenista em ações de combate a invasores em terras indígenas.

Depois da exoneração, Bruno se licenciou da Funai, e passou a atuar para a Univaja. Ele foi um dos principais responsáveis por estruturar um serviço de vigilância indígena no Vale do Javari, onde vivem grupos indígenas isolados em quantidades tidas como as maiores do mundo.

Bruno e Dom, pouco antes dos assassinatos, pararam numa comunidade de ribeirinhos para uma conversa com um líder local, na margem do rio Itaquaí, fora da terra indígena.

Eles seguiram caminho, rumo a Atalaia do Norte (AM), a cidade mais próxima do Vale do Javari, mas desapareceram poucos quilômetros depois da última parada. Foram mortos por Amarildo e Jefferson, conforme confissão dos dois.

Oseney sempre negou atuação no crime, mas o Ministério Público afirmou na denúncia que há elementos suficientes para apontar a participação dele, que é irmão de Amarildo.

Outros familiares são investigados por suspeita de participação na ocultação dos cadáveres.

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