Foto viral retrata ministro Alexandre de Moraes com líderes sociais, não “chefões do PCC”

Os três homens ao lado do ministro do STF Alexandre de Moraes em uma foto são líderes sociais conhecidos nacional e internacionalmente, e não “chefões do PCC”, como dizem postagens compartilhadas desde 3 de janeiro de 2023. Rene Silva, que na imagem usa um boné com a inscrição “CPX”, em referência a complexos de favelas, é fundador do jornal e ONG Voz das Comunidades, que cobre favelas do Rio de Janeiro; Raull Santiago lidera diversas iniciativas nas áreas de ativismo e empreendedorismo social, como o Coletivo Papo Reto e a Brecha; e Preto Zezé é presidente da Central Única das Favelas (CUFA).

“DIZE-ME COM QUE ANDAS E DIREI QUEM TU ÉS, PARA QUEM NÃO SABE, ESTE ALEXANDRE DE MORAES, É AMIGOS DESTES CHEFÕES DO PCC, ISSO PRECISA VIRALIZAR ATÉ CHEGAR NA ONU. COMPARTILHEM. URGENTE”, diz o texto sobreposto à foto de Rene, Raull e Preto Zezé com Alexandre de Moraes.

O conteúdo viraliza no Twitter, promovido pelo lutador e apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro Renzo Gracie, mas também em outras redes, como Facebook, Instagram e TikTok.

Captura de tela feita em 5 de janeiro de 2023 de uma publicação no Twitter ( .)

A publicação viral usa uma foto publicada no Instagram pelo próprio Raull Santiago, junto com Rene Silva, em 1º de janeiro de 2023. Eles estiveram em Brasília à convite do Itamaraty (1, 2) para a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A tentativa de associação ao tráfico acontece após um período eleitoral marcado por campanhas de desinformação, muitas vezes com moradores de favelas e a população negra como alvo.

Em outubro de 2022, a entrega de um boné com a inscrição “CPX” a Lula — o mesmo que Rene Silva usa na imagem com Moraes — foi distorcida, como se fosse um presente do tráfico.

Na época, a AFP mostrou que a abreviação faz referência a complexos de favelas, e não a facções criminosas. Além de ser usada como gíria por moradores, a terminologia já foi adotada com o sentido de “complexo” por órgãos oficiais, como a Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Lideranças sociais

Os três homens que aparecem ao lado do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são ativistas sociais e líderes comunitários reconhecidos nacional e internacionalmente.

O nome de Rene Silva ganhou fama em 2010, quando narrou no Twitter, em tempo real, a ocupação policial no Complexo do Alemão. Anos antes, ele havia fundado o jornal e ONG Voz das Comunidades, que hoje cobre favelas de todo o Rio de Janeiro.

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Desde então, Silva já participou de iniciativas de organizações como a ONU e teve seu trabalho destacado em veículos nacionais e internacionais (1, 2).

Em conversa com o AFP Checamos sobre as publicações, ele disse:

“Eu acho que insistem nessa ligação com o tráfico principalmente para criminalizar as pessoas pobres de favela. Assim como teve durante os debates aquela fala do Bolsonaro dizendo que o Lula veio no Alemão se reunir com traficantes, quando na verdade foi um encontro com milhares de moradores de favelas do Rio de Janeiro. Então isso coloca todo mundo dentro de um pacote, né?”

Raull Santiago, também do Complexo do Alemão, acrescentou: “A maldade das postagens fakes não doem apenas pelo ataque direto à nossa imagem, mas principalmente por sabermos que isso vem carregado de racismo e preconceito direto às favelas”. À AFP, ele informou que medidas judiciais estão sendo tomadas.

Empreendedor social e ativista, Raull integra diversas iniciativas, entre elas o Coletivo Papo Reto, que trabalha comunicação, direitos humanos, educação e cidadania para a garantia de direitos no Complexo do Alemão, e a Agência Brecha, hub de inteligência de favela.

Em novembro de 2022, o ativista esteve na 27ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, a COP 27, tendo participado de um painel sobre justiça climática.

Já Preto Zezé é o presidente da CUFA, organização que há 20 anos apoia favelas do Brasil. Entre seus projetos estão o campeonato Taça das Favelas e o Mães das Favelas, criado durante a pandemia de covid-19 para apoiar mães de mais de cinco mil comunidades ao redor do país. Segundo noticiado pela imprensa, mais de três milhões de famílias foram apoiadas.

Assim como Rene e Raull, Preto Zezé também tem seu trabalho reconhecido em diversos meios nacionais e internacionais. Participou de uma série da TV Senado e é colunista da Folha de S.Paulo.

Buscas pelos nomes dos três com o termo “PCC”, citado nas publicações, não retornaram qualquer resultado demonstrando a suposta associação.

O conteúdo também foi verificado pelo UOL Confere, pelo Aos Fatos, pela Reuters e pelo Estadão Verifica.