Fracasso de Joice na eleição pode fortalecer avanço bolsonarista ao PSL de SP

Guilherme Caetano
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Edilson Dantas / Agência O Globo
Edilson Dantas / Agência O Globo

SÃO PAULO — Dono da segunda campanha mais cara à prefeitura de São Paulo, de R$ 5,9 milhões, o PSL de Joice Hasselmann chega à reta final da disputa amargando 3% de intenções de voto na última pesquisa Datafolha e dúvidas sobre seu futuro.

O PSL enfrenta disputas internas que reverberam especialmente no diretório paulista, principal trincheira ao bolsonarismo instalado no partido, representada na figura do presidente estadual Júnior Bozzella. Uma das fontes de instabilidade interna vem do vice-presidente nacional e também tesoureiro, Antônio Rueda, próximo à família Bolsonaro.

O diretório é também objeto de cobiça do próprio presidente. Antes do início da campanha começar, a reaproximação entre Jair Bolsonaro e o PSL ameaçou a candidatura de Joice. Uma das solicitações de Bolsonaro era que o presidente nacional Luciano Bivar pudesse interferir na eleição de São Paulo, substituindo Joice Hasselmann por um nome mais simpático a Bolsonaro.

Fontes do PSL dizem que Rueda trabalha para enfraquecer o grupo de Júnior Bozzella e Joice Hasselmann, e uma derrota da candidata no próximo domingo pode sustentar o movimento. O GLOBO não conseguiu falar com Rueda

Bozzella, no entanto, afirma que um eventual fracasso eleitoral de Joice pouco interfere no PSL paulista e que a campanha na capital serviu para fincar os pés do partido no campo da direita.

— O que importa é o nosso reposicionamento de 2018 para cá. Às vezes você não ganha uma eleição numa grande capital, mas você se posiciona. A gente está preparando um projeto de médio e longo prazo — declara

Em meio à disputa por verba, o PSL paulista sofreu uma contenção financeira que desagradou à campanha de Joice. O diretório de São Paulo, estado que tem 44 milhões de habitantes, recebeu R$ 10,2 milhões da executiva nacional. Goiás, cuja população é de 6,5 milhões, obteve R$ 12,5 milhões. Minas Gerais, com 20,9 milhões de pessoas, ficou com a maior fatia: R$ 15,4 milhões.

No mês passado, um repasse de R$ 2 milhões a um candidato a vereador na capital paulista, Abou Anni Filho, deflagrou protestos de outros candidatos que ainda não tinham recebido financiamento do partido. A transferência foi feita por Rueda, segundo o PSL de São Paulo, sem anuência dos diretórios locais. Joice tinha recebido até então apenas R$ 1 milhão para sua campanha.

A divisão do dinheiro provocou críticas em outras cidades. Em Recife, terra natal de Rueda e Bivar, o candidato do PSL à prefeitura e aliado de Rueda, Carlos Andrade, recebeu R$ 4,3 milhões do partido. Andrade tinha 1% de intenções de voto na última pesquisa Ibope.

O PSL também investiu pesado na candidatura de Janaina Cardoso, ex-mulher do ministro Marcelo Álvaro Antônio, à Câmara Municipal de Belo Horizonte. A campanha à vereadora recebeu um aporte de R$ 690 mil do diretório nacional. No estado de São Paulo, diversos candidatos a vereador reclamam de não terem recebido dinheiro até agora.

Além da disputa por verba, Joice Hasselmann enfrenta um isolamento interno. Com exceção de Bozzella e do senador Major Olimpio, nenhum grande nome da legenda declarou publicamente apoio à candidata. Nem mesmo o grupo do PSL na Assembleia Legislativa (Alesp) mais ligado à estrutura partidária, chamada "bivarista", se engajou na campanha.

Enquanto tenta retomar o partido no qual estão muitos dos aliados, como seu filho Eduardo, Carla Zambelli e Bia Kicis, por exemplo, o presidente tem outras frentes abertas. A conquista obtida recentemente pelo Aliança pelo Brasil, com a portaria do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que deve acelerar a coleta de assinaturas para a criação da legenda, pode afastar um pouco do assédio de Bolsonaro contra sua ex-legenda, já que ele precisa estar filiado a algum partido para tentar a reeleição.